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ADUBAÇÃO da safrinha: a soja agradece

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A menor adubação do cereal de segunda safra ao longo dos anos compromete todo o sistema de produção, sobretudo a soja da sequência. Experimentos da Fundação MT comprovam que as tabelas de recomendação de adubação de instituições de pesquisas estão corretas. Portanto, nada de subadubações e nem superadubações do milho porque todas as culturas (e o bolso do produtor) vão sofrer

Fábio Ono, pesquisador da Fundação MT, [email protected]

Muitos agricultores e consultores da área agronômica visualizam que as maiores e as menores produtividades de grãos de soja e de milho safrinha obtidas no campo estão diretamente atreladas aos níveis de adubação praticados naquela safra. Será que essa afirmativa é sempre verdadeira? Outro apontamento indicado por profissionais da área técnica é que as tabelas de recomendação de adubação estão subestimadas para a obtenção de altas produtividades, considerando as cultivares de soja e os híbridos de milho atuais. Ou seja, de acordo com esses profissionais, há necessidade de maiores investimentos na adubação (acima da recomendada pelas tabelas oficiais) para a obtenção de produtividades elevadas nos tempos atuais.

Com o objetivo de entender se as produtividades de soja e milho segunda safra estão exclusivamente relacionadas com os níveis de adubação, a Fundação de Apoio à Pesquisa Agropecuária de Mato Grosso (Fundação MT), desenvolve, há cinco anos, o experimento “Manejo da adubação no sistema soja/milho safrinha” em um solo de fertilidade construída. O trabalho é conduzido na área experimental da instituição em Nova Mutum, médio Norte do Mato Grosso, no chamado CAD Médio Norte (Centro de Aprendizagem e Difusão). A partir dessa e de outras pesquisas da instituição, qual o posicionamento da Fundação MT?

Baseando-se nos dados obtidos até o momento, o experimento mostra que o nível de adubação ideal para as maiores produtividades do sistema soja/milho safrinha tem sido, praticamente, a adubação recomendada por meio das tabelas das instituições de pesquisas. Ou seja, o estudo não comprovou que, para a obtenção das maiores produtividades, há necessidade de adubação além da recomendada. Para a cultura da soja, as doses máximas de fósforo e de potássio aplicadas foram de até o dobro da dose considerada recomendada e mesmo assim não resultaram em aumentos de produtividade. Incrementos crescentes de produtividades em áreas do Cerrado com aumentos das doses de adubação foram muito comuns no passado, pois essas áreas eram consideradas de abertura, ou seja, áreas com baixa fertilidade química natural.

As áreas de Cerrado que nunca foram agricultáveis e que serão ainda abertas para o cultivo de grãos terão o mesmo comportamento, ou seja, alta resposta das culturas às correções e adubações nos primeiros anos. Em um solo argiloso, em que a fertilidade foi construída ao longo dos anos devido ao cultivo sucessivo de culturas e às correções e adubações do solo, quando os níveis dos nutrientes estão adequados ou altos, a ausência da adubação na soja não proporciona perda de produtividade da cultura naquela safra, pois as quantidades dos nutrientes que estão no solo são capazes de suprir a cultura naquele momento. Lógico que com o cultivo sucessivo das culturas ao longo dos anos, se não houver reposição dos nutrientes exportados pelas culturas ou perdidos por lixiviação/ escorrimento, observam-se perdas de rendimentos dessas culturas. O mesmo posicionamento serve para a cultura do milho, exceto para o nutriente nitrogênio, o qual é muito dinâmico no solo e a não aplicação do elemento tende a proporcionar menores produtividades já no primeiro ano que não houver a adubação.

Mais um dado importante da pesquisa é que subadubações consecutivas (aplicação de fertilizantes abaixo da dose recomendada) na cultura do milho safrinha, ao longo dos anos, têm mostrado menor produtividade da cultura. Além disso, a prática reflete em menor produtividade da cultura da próxima safra, a soja. Não é apenas o milho que deixa de ter uma produtividade satisfatória, mas também a cultura posterior. O que se tem de concreto com o experimento é que a quantidade de nutrientes a ser aplicada sempre deve considerar o sistema como um todo, nesse caso soja/milho safrinha, e que deve ser considerada toda a quantidade de nutrientes que é exportada via colheita.

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Tem sido comum no Mato Grosso a aplicação apenas de nitrogênio (N) no milho safrinha. Como, por exemplo, doses ao redor de 70 quilos/hectare de N, pois quando o produtor faz a conta da rentabilidade a ser obtida pelo cultivo do seu milho, não consegue fechar a conta quando adiciona no custo de produção a aplicação de fertilizantes, mesmo considerando apenas a reposição dos nutrientes que serão exportados. Por meio da pesquisa da Fundação MT, observou-se o menor rendimento do milho com a utilização de apenas nitrogênio (70 kg/ha) em relação à adubação de reposição com expectativa de produtividade de 140 sacas/ hectare. Fica evidente que esse resultado já era o esperado. Foi possível observar perdas de até 12 sacas/hectare de milho com a utilização de uma subadubação.

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Acima, palhada da soja no oitavo ano de condução do experimento envolvendo sistemas de produção (Itiquira/MT, safra 2015/16); ao lado parte aérea e raízes de plantas de soja cultivadas em solo argiloso submetido ou não à compactação induzida (CAD da Fundação MT, Nova Mutum/MT, safra 2016/17)

Mas o que não é visualizado no campo utilizando essa subadubação é uma possível diminuição da produtividade da cultura seguinte, no caso a soja, com perdas de até 5 sacas/hectare até o momento. Quantificar essa perda de produtividade com exatidão só é possível por meio da experimentação agrícola. Além disso, produzir menos milho quer dizer também produzir menos parte aérea e raízes, o que significa um menor aporte de resíduos (palhada) no sistema. E, consequentemente, uma menor reciclagem de nutrientes e outros benefícios proporcionados pela palhada, como melhorias na parte física e biológica do solo.

É possível observar a soja e quantidade de resíduos sobre o solo (palhada) em oito sistemas de produção de um experimento da Fundação MT que completará dez anos de condução no hecfinal desta safra. É muito claro o papel da matéria orgânica do solo no maior aproveitamento dos nutrientes. E fica fácil imaginar como seria a eficiência dos fertilizantes aplicados em cada sistema desses, principalmente no caso do elemento fósforo, o qual é muito adsorvido pelos óxidos de ferro e alumínio, e dos nutrientes que são facilmente lixiviados.

Nesses oito sistemas de produção, o nível de fertilidade do solo é alto. As diferenças de produtividades de soja entre os manejos não foram correlacionadas com a fertilidade do solo, e sim com a microbiologia do solo por meio de análises de enzimas, as quais possuem correlações com a quantidade e qualidade da matéria orgânica do solo. Essa afirmativa está de acordo com o modelo conceitual das relações entre as mudanças na biomassa microbiana do solo e a produtividade das plantas conforme as práticas de m a n e j o s , modelo proposto por Kaschuk et al. (2010).

Milho viabiliza a soja — No sistema soja/milho safrinha, fica evidente a contribuição do aporte de carbono ao sistema pelo cultivo do milho safrinha, cultura que, se obtiver tetos produtivos bons, pode ofertar em média 9 toneladas/ hectare de matéria seca da parte aérea. Pensando nos benefícios da palhada, então o milho safrinha tem viabilizado a cultura da soja? Sem dúvidas. Se houvesse apenas o cultivo da soja no sistema (monocultivo), as produtividades da soja ao longo dos anos diminuiriam.

A dobradinha soja e milho safrinha proporcionou um sistema de cultivo rentável, e por isso que 48% das áreas de soja do MT na safra 2016/ 17 possuíram esse sistema de cultivo, segundo dados do Instituto Mato-grossensse de Economia Agropecuária (Imea). Para alguns, esse sistema de cultivo não é o perfeito, pois trata-se de um sistema de sucessão de culturas e não de rotação. Porém, pode-se afirmar que esse sistema de sucessão até o momento já gerou e continua gerando muitos benefícios em termos de produtividades para os agricultores.

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A pesquisa na área experimental em Nova Mutum abrange várias combinações de doses de P, de K e de S aplicadas na soja e de doses de N, P, K, S aplicadas no milho safrinha. Dentre as doses dos nutrientes estudadas na pesquisa, grande parte dos produtores que visitam o experimento durante os dias de campo utiliza alguma dose semelhante à que está na pesquisa. Com isso, é possível fazer ele pensar se está subadubando as culturas ou superadubando, e também refletir se uma maior ou menor adubação em relação à que está fazendo justificaria ganhos ou perdas de produtividades.

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Acima, desenvolvimento da soja em função das adubações do milho safrinha da safra anterior (CAD da Fundação MT, Nova Mutum, safra 2016/17); abaixo, desenvolvimento do milho safrinha em função das adubações (CAD de Nova Mutum, safra 2016/17)

Compactação — Quando se pensa no sistema soja/milho safrinha, principalmente na questão de física do solo, é preciso dar importância à compactação do solo. O problema é uma realidade, principalmente nos solos de cultivos intensivos, onde há cada vez mais a utilização de máquinas pesadas (tratores, colhedoras, pulverizadores) associadas às colheitas de grãos de soja e à semeadura do milho safrinha em período de bastante precipitação pluviométrica. A compactação impede que as raízes cresçam abundantemente e possam buscar água e nutrientes a maiores profundidades.

Isso se resume certamente em perdas de produtividades drásticas? Com o objetivo de avaliar as culturas da soja e do milho safrinha sob compactação induzida, a pesquisa da Fundação MT mostrou claramente a diminuição drástica do sistema radicular da soja, porém as produtividades obtidas naquela safra não foram afetadas pelo menor crescimento radicular, pois tratava-se de um solo de boa fertilidade e não faltou água para as plantas. Provavelmente, em anos com deficiência hídrica severa, a história seria outra. Avaliar a física do solo com o objetivo de verificar o grau de compactação de um solo tem sido um tanto complicado e pouco prático. Se perguntado como os agricultores avaliam e se avaliam quanto à compactação do solo, provavelmente haverá diversas respostas.

Existem muitas dúvidas em relação à avaliação da compactação, tais como as seguintes: como fazer, qual aparelho usar, qual o momento de fazer, qual seria um valor de nível crítico para a resistência à penetração. Apesar das dúvidas, a maneira mais confiável e prática é observar as raízes em cada área suspeita da ocorrência da compactação. Isso mesmo, o equipamento será um enxadão e uma pá para a abertura de uma trincheira. Desse modo é possível observar o caminhamento das raízes, se elas encontraram obstáculos (partes duras, compactadas) e qual a profundidade que elas têm atingido. E com um canivete é possível perceber também onde estão situadas no perfil do solo as camadas mais duras, onde possivelmente as plantas possuem mais resistências na penetração de raízes.

Na agricultura de hoje, dar ênfase apenas na cultura do sistema de produção que promove a maior rentabilidade é deixar de colher mais frutos e dar enfoque apenas à química do solo (correções e adubações), deixando de lado a física e a biologia do solo, não se conseguirá compreender o sistema solo e as suas relações com as respostas das culturas.