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CULTURAS ALTERNATIVAS: VOCÊ AINDA VAI APOSTAR EM ALGUMA DELAS

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Osmar Artiaga: “O grão-de-bico é uma cultura que tende a crescer. O grão-de-bico vai muito longe. Tem muita coisa a ser feita”

Milho-pipoca, girassol, feijão-caupi, grão-de-bico, sorgo e amendoim. E também ervilha, lentilha, painço, diferentes espécies de feijão e muitas outras espécies. Ainda, na Região Sul, as invernais cevada, centeio, triticale, canola e aveia-branca. São muitas as possibilidades – leia-se oportunidades – para agregar renda à propriedade, além de melhorar as condições dos solos utilizados pelas principais culturas (soja, milho e algodão) proporcionados pelos cultivos secundários. E não são difíceis de serem explorados. Afinal, é possível aproveitar a época do ano sem os principais invesimentos, o maquinário ocioso, os funcionários e, sobretudo, o know how de quem é expert nas culturas tradicionais

Leandro Mariani Mittmann
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No País onde tudo o que se planta dá – com o devido emprego de tecnologia, acrescenta-se – pode ser bem interessante ao produtor, independentemente da região ou do tamanho, espichar o olho pela sua lavoura e questionar o seguinte: e se eu apostasse em uma cultura diferente, atípica para a minha região, sobretudo, à minha propriedade? Afinal, eu e meus colaboradores temos know how em grãos, maquinário de primeira (que normalmente fica meses estacionado na garagem), acesso a insumos e outras tecnologias, além de possibilidades de inserção em mercados, desde locais a internacionais. Por que além (ou em vez) de milho, soja, algodão, feijão e ou mesmo pecuária, não cultivar sorgo, feijão-caupi, grão-de-bico, milho-pipoca, amendoim e girassol, além de cevada, centeio, aveia-branca, triticale, estas últimas para o caso da fria Região Sul, e uma infinidade de outras culturas secundárias ou um tanto marginais? E, por vezes ou quase sempre, no período de segunda safra, ou seja, não comprometendo a atividade principal de verão?

Pois muitos estão fazendo isso safra após safra (ou melhor, safrinha após safrinha), com a devida ressalva de que não são “apostas”, o termo já mencionado, mas sim realidades. E com potencialidades infinitas de expansão. Sobretudo pelas demandas (normalmente crescentes) do mercado global. O que imaginar do futuro, por exemplo, de uma cultura como o grão-de-bico, cultivado em apenas 860 hectares no Brasil na safra de 2017, sendo que o déficit mundial é de 4 milhões de toneladas anuais e apenas a Índia vai demandar 30 milhões de toneladas em 2030?

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Pois esta reportagem conversou com especialistas nessas culturas e experientes produtores (entusiasmados, registre-se!) para clarear um pouco os diferentes cultivos. E esclarecer que, salvo exceções (como a colheita do amendoim, por exemplo, que exige uma máquina apropriada para a função), com apenas alguns fáceis ajustes (como trocar os discos das plantadeiras) é possível adaptar com praticidade toda a infraestrutura utilizada em soja e milho para os cultivos desconhecidos.

Grão-de-bico: anônimo por aqui, desejado no exterior — O grão-de-bico tem particularidades curiosas. No ano passado, foram cultivados em solo brasileiro apenas 860 hectares, dos quais 800 sob irrigação e época de safra por iniciativa de Osmar Artiaga, junto de outros dois sócios, em Cristalina/GO. E os demais 60 hectares? Também foi Artiaga, em uma parceria com a empresa Agrícola Ferrari em lavouras experimentais de safrinha em Campo Novo do Parecis/MT. E neste ano, a safra em Cristalina terá um incremento de 150%, para 2 mil hectares (entre seis e sete parceiros), enquanto que os testes foram tão exitosos na safrinha mato-grossense que a lavoura em 2018 será ampliada em 16.566%, em municípios como Campo Novo do Parecis, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Diamantino, investimento de um grupo de 20 a 25 produtores. Artiaga, que historicamente estuda a cultura e, inclusive, já desenvolveu cultivares, vai prestar assistência técnica e coordenação da comercialização em Goiás e apenas assistência técnica no Mato Grosso, além de ser um dos produtores nos dois locais. Em Cristalina, a venda será conjunta (cada qual com sua nota fiscal) e no, Mato Grosso, individualizada, em contratos de compra e venda firmados com a Agrícola Ferrari.

O destino das produções será o mercado externo, pois o interno praticamente desconhece o alimento. Sobretudo, avalia Artiaga, porque o produto disponibilizado por aqui é importado, que chega às prateleiras ao custo para o consumidor de R$ 8 a embalagem de meio quilo, o que naturalmente o espanta. Não há tradição pelo consumo do grão e assim nunca houve empenho em produzi-lo – e vice-versa. Artiaga prevê que esse cenário poderá mudar com o crescimento da produção, que baixaria o preço e aumentaria o consumo. Por ora, o mercado internacional, sobretudo países do mundo árabe, além de Índia e China, são a meta. “Existe a procura”, afirma. E as perspectivas são animadoras. O consultor exemplifica que no ano passado uma trading americana procurava de 20 a 25 containers para levar o produto para o Líbano. E, segundo informação apurada pelo ministro da Agricultura, Blairo Maggi, em visita a Índia, aquele país vai demandar 30 milhões de toneladas anuais do grão em 2030. “É uma cultura que tende a crescer. O grão-de-bico vai muito longe. Tem muita coisa a ser feita”, prevê.

A segunda safra no Mato Grosso é plantada entre 15 de fevereiro e 10 de março, e segundo Artiaga, a ideia é que o grão-de-bico não seja exatamente um competidor do milho, mas sim dispute espaço com culturas como feijão ou girassol, por exemplo. O custo de produção direto – sem contar, por exemplo, a depreciação de máquinas – é de 800 quilos por hectare, para um rendimento de cerca de 1.300 a 1.500 quilos, com experiências, nos 60 hectares de ensaios, de 1.800 quilos, onde foram utilizados seis cultivares com duas diferentes épocas de plantio e duas populações. Por isso, ele diz que a ideia é que o grão-de-bico seja a principal cultura de segunda safra, e não o cereal. Mais do que rendimento, ele destaca que nas áreas de testes foi apurada a redução de 50% na população de nematoides (constatada em quatro coletas durante o ciclo), além de a cultura repelir a mosca-branca presente na lavoura de soja anterior.

Uma das parceiras no experimento foi a Embrapa Hortaliças. E o chefe-geral da unidade, Warley Marcos Nascimento, atesta as facilidades para o cultivo da cultura, por uma série de razões. “A cultura é menos exigente em água, quando comparada, por exemplo, com o feijão”, ressalta. “Nesse aspecto, ainda outra vantagem em relação a problemas fitossanitários, pois essa espécie não atrai mosca-branca (diferentemente do feijão, da soja etc.) e o aparecimento de doenças é ainda reduzido”, lembra. Mas acrescenta que se observaram danos da lagarta das vagens. “No geral, é uma cultura mais rústica, necessitando menos tratos culturas, e apresenta um menor custo de produção do que outras leguminosas, por exemplo”.

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O feijão-caupi, que era só produzido no Nordeste, caiu nas graças de grandes produtores do Mato Grosso a partir do desenvolvimento, pela Embrapa, de variedades para o cultivo mecanizado

Outra facilitação ao cultivo é a possibilidade do uso das máquinas da propriedade. “Praticamente as máquinas utilizadas para a produção de outros grãos são utilizáveis na cultura com o grão-de-bico, tanto na semeadura, como na colheita, passando pelas pulverizações”, tranquiliza. “Como a semente de grão-de-bico é maior, e apresenta um ‘biquinho’, cuidados na semeadura (evitando assim danos mecânicos) devem ser tomados. Nesse aspecto, semeadeiras de precisão são as mais recomendadas. O mesmo na colheita, cuidados para não ‘quebrar’ os grãos (especialmente naquelas cultivares de grãos maiores), reduzindo assim perdas de descarte durante o beneficiamento, bem como o seu valor comercial”, descreve. Nascimento prevê que o Brasil, que importa 8 mil toneladas por ano de grão-de-bico, poderá aumentar o consumo a partir da maior disponibilidade de produção doméstica e, por consequência, diminuição do preço na prateleira.

Feijão-caupi: onde o milho safrinha perde para a seca — “A cultura deu uma arrancada nos últimos dez anos de forma impressionante”. Essa é a primeira e espontânea manifestação na entrevista de Maurisrael Rocha, pesquisador da Embrapa Meio Norte, ao ser questionando sobre o feijão-caupi, também conhecido, sobretudo no Nordeste (onde é muito consumido), como feijão-de-corda, feijão-fradinho e outras denominações. Afinal, a cultura, que até uma década atrás tinha o Ceará e seus agricultores familiares como estado principal produtor, agora tem no Mato Grosso e suas extensas e mecanizadas lavouras o maior volume de produção. Uma das razões da aceitação em lavouras no estado foi o desenvolvimento, por parte da Embrapa, de cultivares de porte ereto e uniformidade de maturação, ou seja, adequadas à colheita por máquinas. E a cultura vai ao solo na safrinha, sem, portanto, competir com a soja.

“O ciclo precoce chamou a atenção dos produtores”, complementa Rocha, que acrescenta: “Há muitos produtores médios com o feijão-caupi como cultivo principal”. Esses estão sediados, além do Mato Grosso, também no Sul do Maranhão e no Oeste da Bahia, ambientes em que o plantio é feito em outubro ou novembro, e a colheita por volta de fevereiro, o que permite plantar o milho de segunda safra na sequência. Afinal, o caupi tem um ciclo bem curto, inferior a dois meses e meio, com cultivares de 60 a 65 dias. “Se inseriu muito bem na curta janela”, descreve o pesquisador. “O ideal é depois da gramínea milho”, adverte, visto a rotação de famílias diferentes.

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No Mato Grosso, a predominância é na safrinha, com plantio de 15 de fevereiro a 15 de março, com a colheita de abril a maio, uma época que a cultura cabe bem por ter boa resistência à seca, sobretudo em regiões mais críticas para a inserção do milho pós-soja na curta janela em razão do clima. Além disso, é mais rústico e menos exigente em insumos. A previsão é que o Mato Grosso plante 350 mil hectares neste ano. No estado, segundo o pesquisador, a saca de 60 quilos é cotada a R$ 75, com rendimento médio por hectare de 1 mil quilos (receita de R$ 1.200) a 1.200 quilos (R$ 1.500) para um custo de produção R$ 800/hectare. No Brasil, segundo a Conab, na safra 2016/17, o feijão-caupi ocupou 1,4 milhão de hectares, com produção de 713,3 mil toneladas (445 mil na segunda safra, 190,7 mil na primeira e 77,6 mil na terceira), o que representou 21% de todos os feijões produzidos, e receita bruta de R$ 1,77 bilhão, 11,9% mais que na safra anterior.

Um mercado potencial para o feijão-caupi é o externo, e a espécie representa de 80% a 90% dos feijões exportados. “A Índia é o principal comprador no mercado internacional e o Egito é o segundo. E 50% do feijão-caupi exportado do Brasil é destinado à Índia. O produto é embarcado ainda para outros países, como Emirados Árabes Unidos, Tunísia e Paquistão”, lista o pesquisador. “O grão brasileiro tem a vantagem de chegar ao mercado externo em julho e agosto, o que evita a competição com grandes exportadores como a China, que colhe sua produção nos meses de setembro e outubro”. Entre as variedades produzidas no Brasil mais aceitas internacionalmente, estão BRS Guariba, BRS Novaera, BRS Tumucumaque e BRS Imponente (todas da Embrapa), esta última lançada em 2016 e na qual se depositam muitas apostas, visto ser o grão ser considerado extra-grande, de ótima aceitação no mercado externo. “A cultivar é um novo mercado que está sendo aberto. É importante para diversificação, aumentando as opções para o produtor. Os primeiros lotes de sementes básicas da cultivar foram comercializadas em 2017 e em 2018 devem chegar aos produtores”.

Além do grão seco, o principal mercado, o caupi também é demandado como grão verde no Nordeste para a elaboração do prato baião-de-dois. Rocha entende que existe um grande espaço para o marketing vender o produto no mercado interno, que por vezes é mais interessante às tradings do que a exportação (com custos próprios dessas transações, como o transporte). “No Sudeste e Sul não se consome”, lembra ele o potencial a ser desbravado. E em caso de crescimento da demanda, não faltará abastecimento, pois o pesquisador considera que já existe “um programa consolidado” em torno da cultura envolvendo unidades da Embrapa. Inclusive pacotes tecnológicos que contemplam adubação, irrigação, fixação biológica de nitrogênio via inoculantes, orientações quanto à população de plantas etc. E o maquinário da soja e do milho pode ser usado com pequenas adaptações, sendo que dez dias antes da colheita é necessário fazer a dessecação porque o amadurecimento das folhas não coincide com a das vagens.

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Produtor Leandro Lodéa, em Sorriso/MT, demonstra entusiasmo pelas perspectivas de mercado externo para o feijão-caupi e para as demais chamadas pulses, um conjunto de 12 leguminosas

Em áreas de solos mais arenosos (20% a 22% de areia), em Sorriso/MT, o feijão-caupi mostra-se mais eficaz que o milho na segunda safra, exigente em fertilidade e umidade, sobretudo pela maior capacidade de retirar água das profundezas em comparação ao cereal. Como explica Leandro Lodéa, que no município cultiva junto de cooperados de 3.000 a 3.500 hectares para geração de sementes. Na região dele, o milho não responde mais satisfatoriamente se plantado depois de 20 de fevereiro e, então, a “melhor resposta” é a do feijão-caupi, que “consegue tirar, pegar a reserva do solo”, conforme define Lodéa, em plantio efetuados entre 15 de fevereiro e 15 de março. “A partir da colheita mecânica, começamos a plantar para cá”, conta, referindo-se à chegada da variedade BRS Guariba.

E o potencial para a expansão é gigantesco, visto que metade da área de soja do Mato Grosso, ou 4,5 milhões de hectares, não recebe milho de segunda safra, superfície que pode ser explorada pelo feijão-caupi. “É um potencial enorme”, avalia o produtor. Para tanto, sugere políticas públicas para a cultura, sobretudo pelo grão ser um componente alimentar importante. E o produtor se mostra entusiasmado com o que chama de “nova coqueluche” da variedade BRS Imponente, que tem despertado expectativas nos exportadores, pois possivelmente seja o maior grão de feijão-caupi no mundo. Para somar 100 gramas das demais variedades são necessárias entre 450 a 520 grãos, sendo que no caso da BRS Imponente menos de 300 grãos são suficientes. E tal produto diferenciado deverá cair nas graças dos consumidores de outros países.

O produtor estima que o custo de produção direto, sem a depreciação, varia de R$ 700 a R$ 800 ao hectare para uma cotação de R$ 65 a R$ 70 a saca de 60 quilos, sendo que o BRS Imponente deverá remunerar entre R$ 90 e R$ 95. Para 2018, ainda sem preço conhecido, ele espera entre R$ 45 e R$ 50. O preço varia conforme a demanda das exportações e o clima do Nordeste, onde é uma cultura de exploração por agricultores familiares. Mas pela estimativa de Lodéa, com uma produtividade de 20 sacas/hectare a R$ 40/saca, já há “empate” nas contas. No entanto, a média de produção na região tem sido de 20 a 25 sacas/hectare, extremos de 38 a 42 em caso de irrigação por pivô. O produtor considera a remuneração muito boa, sobretudo porque o feijão-caupi é produzido em um lugar ou época em que nenhuma outra cultura oferecia boa resposta.

Lodéa mostra-se entusiasmado pelas perspectivas do mercado externo para o feijão-caupi e para as demais chamadas pulses, um conjunto de 12 culturas leguminosas. Principalmente o mercado asiático, que demandará muita comida e, sobretudo, alimentos de qualidade. “Não somos nada em pulses ainda o Brasil”, avalia. “É um viés de saúde e mercado que está caindo no nosso colo”, alerta. “Qualquer ‘0,0%’ que a gente participar desse mercado é muito para nós”. E as condições para a produção são cada vez mais favoráveis, visto o desenvolvimento de novas variedades, a exploração das culturas por produtores profissionais e estruturados, além de haver facilitações de cultivo como, por exemplo, o recente “espelhamento” para o caupi dos defensivos registrados para o feijão tradicional e a iniciativa da Embrapa em trabalhar para estabelecer um zoneamento climático para a cultura, o que permitirá a obtenção de crédito oficial. E para dar mais apoio político a esses mercados, em outubro último foi criado o Conselho Brasileiro de Feijões e Pulses, que reúne as principais entidades envolvidas com as culturas. “A cadeia está se organizando”, resume em tom comemorativo o produtor.

Sorgo: interessante plano B anti falta de chuva — Será que um dia o sorgo granífero ainda deixará de ser o primo pobre do primo muito, mas muito rico milho. Em condições ótimas de chuva, realmente, o milho e sua melhor capacidade produtiva o levam a produzir muito mais. Mas, como nem sempre as condições são perfeitas, o sorgo mostra-se vantajoso para situações de estresse hídrico na segunda safra. “O sorgo tolera mais o veranico do que o milho”, compara Cícero Beserra de Menezes, pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo. É que o sistema radicular da cultura é muito mais profundo que o do milho e, portanto, consegue extrair água em camadas mais profundas do solo. Além disso, o sorgo tem a capacidade de “hibernar” por uns 20 dias à espera de chuva, enquanto o milho, se a precipitação ocorresse na época de florescimento, sofreria uma danosa desregulação no seu processo reprodutivo. Em lavouras do Centro-Oeste, a partir mais ou menos da data de 20 de fevereiro, o sorgo já se mostra competitivo em ganhos na comparação ao milho. “É opção para o plantio na safrinha tardia”, acrescenta.

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O sorgo, por tolerar muito melhor os veranicos, é uma interessante alternativa ao milho em regiões onde a cultura pode demorar para ir ao solo na safrinha

Além disso, o custo de produção do sorgo é inferior ao do milho em algo como aproximadamente R$ 1.000 por hectare. Uma vantajosa alternativa quando o produtor tem sérias dúvidas em relação ao que esperar das nuvens. “O milho é tudo ou nada. Ou produz muito ou nada”, sintetiza Menezes. Por isso, o pesquisador é taxativo: “Na dúvida (quanto ao clima), a gente recomenda o sorgo”. Além disso, o grão do sorgo não compromete o objetivo do destino do grão, que é alimentar animais. “A qualidade nutricional do sorgo é igual à do milho”, atesta. Inclusive tem 1% a mais de proteína. E ainda que contenha 5% a menos de energia, apenas acrescentam-se 5% a mais de comida ao animal que não haverá nenhum comprometimento em sua dieta.

O plantio e a colheita do sorgo em nada exigem de exclusivo ou diferente no maquinário usado no milho e na soja. Inclusive o espaçamento é o mesmo da soja. “Não tem o que mexer na plantadeira”, menciona o pesquisador da Embrapa. No entanto, lembra ele, um equívoco comum é o produtor interpretar que o sorgo, por ser rústico, não exige fertilização. “Toda a cultura precisa de adubação”, adverte. Afinal, um cultivo para gerar de 4 a 5 toneladas de grãos por hectare é natural que precise retirar um grande volume de nutrientes desse ambiente. Por vezes, lembra Menezes, ele ouviu de agricultores que a “soja depois do sorgo produz menos”, sendo que a explicação é óbvia: solo mal adubado para o sorgo é claro que vai afetar o cultivo da sequência. “A fertilidade do solo é construída”, esclarece. Por fim, na comparação, por vezes a lavoura de sorgo prescinde de qualquer tratamento fitossanitário, visto o quase inexistente ataque de doenças e pragas, assim como a taxa de reprodução de nematoides é igual ou inferior à que ocorre o milho.

Porém, a maldição de ser marginal — O produto milho, o entanto, tem algumas interessantes vantagens mercadológicas. Seu uso é muito mais dinâmico, como para alimentação humana até a fabricação de etanol (além de ração animal, claro). Sem contar um imenso e bem estabelecido mercado externo (o Brasil exportou quase 30 milhões de toneladas de milho em 2017). Mais que mercado, o milho bem conduzido pode produzir 15 toneladas de grãos em um hectare, ante 6 a 7 toneladas de uma lavoura de sorgo de ponta. E o transporte, um item significativo em qualquer planilha de custos no Brasil, também é desvantajoso para o sorgo, já que o grão pesa menos que o do milho. E tem ainda a “maldição do sorgo ser uma cultura marginal”, conforme define o pesquisador da Embrapa Milho e Sorgo Rubens Miranda. “O pessoal usa o sorgo para economizar. Quando a colheita da soja atrasa e se perdeu a janela do milho, muitas vezes a lógica é essa”, descreve Miranda. Ele ainda lembra “que o maior problema do sorgo no Brasil” ainda é a predisposição do produtor em economizar na adubação, que prejudica a soja e, então, arrefece o entusiasmo do agricultor com a cultura.

No mundo, o sorgo já teve melhores dias. Nos anos 1980, eram produzidos 80 milhões de toneladas, e hoje não passa de 60 milhões. No Brasil, se estagnou em 2 milhões de toneladas. Os americanos, que já colheram 15 milhões de toneladas, atualmente estão em 12 milhões, e há três anos exportavam 10 milhões por ano aos chineses, que reduziram essa compra anual para 6 milhões. “O sorgo não é uma commodity transacionada no mercado internacional”, explica o pesquisador. Além disso, a transgenia ainda não chegou na espécie, o que dificulta aumentos significativos de produtividade ou redução nos custos. A melhor performance no mundo é a argentina, com média de 4 mil quilos por hectare, e que destina à cultura apenas 1 milhão de hectares. E no mercado brasileiro, o preço pago ao produtor não costuma ultrapassar 80% do valor o milho. “O grão do sorgo vale menos”, analisa. E tem ainda o custo maior do transporte visto o peso do grão. “Como é mais leve, acaba ocupando mais espaço”, explica. Miranda, no entanto, alerta que o produtor deve considerar que “terra parada perde dinheiro”, e que ele, ao comparar o cultivo com o milho, “investe metade e produz 70%”. “Pode empatar. Mas gastando menos”, sugere.

O produtor Carlos Henrique Castro Alves cultiva sorgo desde 1990, e em 2018 vai destinar 190 hectares para a cultura na segunda safra, após a soja, em Pirajuba e Frutal, no triângulo mineiro. Ele tem uma vantagem: comercializa a colheita diretamente com produtores de leite e gado de corte. “Muita gente produz ração dentro da propriedade”, conta. “É fácil negociar com eles”. Alves consegue preços de 80% ou menos do equivalente ao milho no pico da colheita do sorgo, ou até entre 90% e 95% fora do pico da colheita. “Se armazenar para vender fora da época da produção, o preço compensa”, revela. Em um comparativo ao milho, com melhor rendimento a campo e renda mais alta, porém, com custo bem superior, Alves contabiliza que a rentabilidade do sorgo é vantajosa em 40%, sobretudo porque o custo para produzi-lo é 50% inferior ao do milho. “A razão principal do investimento em sorgo é que a relação é bem maior em termos econômicos”.

E na região de Alves, se o plantio do milho atrasar para até o início de março (final da janela), a produtividade será a mesma da obtida pelo sorgo, ou até menos. Ele tem experiências dessa época em colher 80 sacas de milho/hectare e 95 sacas de sorgo. Além disso, no caso da lavoura dele, a palhada do sorgo é “tão boa quanto a do milheto” para dar suporte ao plantio direto, e essa cobertura protege o solo dos raios solares e do clima seco até o final de setembro, quando retornam as chuvas. Mais do que isso, revela Alves, muitos produtores usam o sorgo como pastagem para o gado, já que a cultura rebrota após a colheita, atingindo uma altura de 55 a 80 centímetros de massa verde em 40 a 45 dias após a passagem da colheitadeira. “O sorgo não morre, é um capim. Brota novamente. Os produtores usam como pastagem. Colhem o grão e liberam o gado na área”, descreve outro uso vantajoso do sorgo granífero.

Milho-pipoca: mais exigente do que se imagina — O milho-pipoca cultivado no Brasil é de 70% a 80% de segunda safra, em municípios mato-grossenses como Campo Novo do Parecis e Sapezal, região que sedia três indústrias processadoras. Assim como no Rio Grande do Sul, em Nova Prata, onde há uma grande indústria, além do estado de São Paulo. Os produtores firmam contrato com as empresas, que fornecem sementes, cujas variedades foram desenvolvidas na Argentina e nos Estados Unidos. “O material brasileiro é inexpressivo”, define Eduardo Sawazaki, pesquisador do Instituto Agronômico, sediado em Campinas/SP. “Os americanos estão bem à frente”. Mais do que material importado, Sawazaki esclarece que o milho-pipoca é um cultivo de “alta tecnologia”, inclusive a colheitadeira precisa ser de sistema axial, e ele menciona que apenas uma marca é do agrado dos produtores.


Girassol e milho-pipoca: dicas de um pioneiro e especialista

Tudo o que você precisa saber sobre girassol e milho-pipoca é só perguntar ao engenheiro agrônomo e produtor mato-grossense de Campo Novo do Parecis Sérgio Stefanelo (foto). Ele é um estudioso nas duas culturas, além de produtor de soja em 6 mil hectares. Dessa área, na segunda safra 3 mil hectares são ocupados pelo milho-pipoca e outros 2 mil pelo girassol. O produtor, inclusive, é sócio de uma empresa local processadora de óleo de girassol. Stefanelo começou com os cultivos alternativos no final dos anos 1980 e início dos 1990, devido à instabilidade em razão dos sucessivos planos econômicos. Se em tempos mais tranquilos a lavoura sempre causa preocupações em relação à rentabilidade, mesmo com financiamentos oficiais garantidos (recursos nem sempre estavam disponíveis naquela época), imagina quando ocorria o seguinte: “Anoitecia de um jeito e amanhecia com um plano econômico”, descreve Stefanelo como era. “Eu precisava fazer outras culturas por falta de recursos”, conta. A situação era tão complicada que, desde então, estima o produtor, entre 70% e 80% das terras da região dele trocaram de mãos.

Além disso, Campo Novo do Parecis fica em uma região equidistante de todas as possíveis saídas para o exterior (a “pior localização do Brasil”, define o produtor), ao contrário de outros municípios do estado, que podem ter acesso menos dificultado para os portos do Sul ou então para os do Norte (é possível escolher o menos distante). “Precisamos agregar valor aos nossos produtos. Isso nos levou a nos especializar”, complementa ele, que começou apostando em culturas como painço e feijão-azuki (doce), e há 25 anos cultiva girassol, que, segundo ele, “se encaixou no perfil”. O clima é bem definido, com seca na época da colheita, ótimo para a qualidade dos produtos. Hoje Stefanelo integra um grupo de 50 produtores que instalou uma indústria processadora de óleo de girassol em Campo Novo do Parecis, que é vendido bruto para a indústria de São Paulo. O girassol é transformado em óleo (80% do valor da cultura) e ainda farelo para alimentação animal (20% do valor), apesar de esse subproduto representar 60% do peso total do grão. Conforme ele, a industrialização na região deu viabilidade ao cultivo, o que seria impossível caso precisasse ser transportado em grão para São Paulo.

O curioso sobre os dois cultivos alternativos é o efeito que sofrem com as crises econômicas do País. Segundo Stefanelo, no caso do girassol, problemas na economia geram a retração de consumo, já que o produto é mais caro na prateleira do supermercado em relação ao equivalente de soja. No caso da pipoca, ao contrário: mais pessoas desempregadas passando os dias em casa, mais consumo. Mas no momento, visto uma alta produção no ano passado, o preço do milho-pipoca está baixo. E a remuneração do milho-pipoca, esclarece Stefanelo, tem relação direta com a cotação do milho. Quando este cereal está valorizado, os produtores investem no milho e diminuem o plantio de culturas alternativas. “Em anos que o milho vale ‘nada’, o cara que nunca plantou painço vai plantar...”, lamenta. “A origem dos preços é o milho”, diz, mas acrescenta que o “clima também decide”. E, no caso do milho-pipoca, existe uma fórmula para a rentabilidade: a saca do produto (de 60 quilos) precisa ser cotada entre 2 vezes e 2,2 vezes a saca do milho. Afinal, é uma cultura mais cara de ser gerada que o milho e produz a metade.

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Amendoim: uma cultura para especialistas

“A gente produz muito pouco amendoim em relação à necessidade”. Essa é a avaliação sobre as potencialidades desse cultivo de José Renato Cortez, pesquisador da Embrapa Algodão, unidade que pesquisa o grão usado para a produção de alimentos. A cultura é uma ótima recuperadora de solos quando utilizada em rotação de culturas, sobretudo em renovações de canaviais no estado de São Paulo, pois esses cultivos retiram grandes quantidades de nitrogênio do solo. “O amendoim recupera o nitrogênio retirado pela cana”, explica, já que a leguminosa amendoim fixa no solo nitrogênio da atmosfera, um benefício interessante na segunda safra no Centro-Oeste, após soja, milho e algodão. A cultura do amendoim tem dois perfis de produção o Brasil: no Nordeste, cultivos por pequenos agricultores via emprego de baixa tecnologia e com renda bastante comprometida pelos atravessadores, que ficam com a maior parte dos lucros, e em São Paulo, onde se concentram 90% da produção brasileira, além do Centro-Oeste.

Da mesma forma, nas lavouras paulistas as variedades são diferenciadas, de porte mais rasteiro (aptas ao cultivo mecanizado) e mais produtivas – algo como de 3 a 4 toneladas de grãos por hectare, de duas a três vezes mais que as cultivadas no Nordeste. E conforme Cortez, o cultivo em lavouras nordestinas está se tornando “impraticável” visto os custos de mão de obra. Uma lavoura de um a dois hectares demanda de 20 a 25 pessoas. Além da desorganização da cadeia, o consumo nordestino se dá pelo grão in natura, como frito, em praias, enquanto a produção paulista é destinada à industrialização – no estado mesmo.

A pesquisadora Taís Suassuna, que pertence à Embrapa Algodão, mas está sediada na Embrapa Arroz e Feijão, em Goiás, onde trabalha com o desenvolvimento da cultura do amendoim, inclusive de novas variedades, lembra que o mercado do grão é “bem específico”. “Gera especialização”, resume. “É bem diferente”, complementa. “Os produtores conhecem as particularidades”. Inclusive a máquina para a colheita é própria para o amendoim. Assim como o perfil do produtor, pois os que investem na cultura nos canaviais paulistas normalmente são arrendatários, que fazem o cultivo da oleaginosa como uma maneira de recuperar o solo antes do próximo canavial, que fica na área por quatro a cinco anos.

Taís comenta que já há uma expansão da cultura para o Centro-Oeste com “desempenho muito bom”, mais especificamente em Bela Vista de Goiás, Hidrolândia e Aporé, em Goiás, assim como para o triângulo mineiro, a exemplo de Frutal. Essas regiões de Cerrado ficam em áreas de transição de São Paulo, ou seja, em condições semelhantes às dos cultivos paulistas, também com fácil adaptação das variedades. A Embrapa registrou no ano passado três variedades para as novas regiões, que deverão seguir o processo multiplicação de sementes em 2018 para serem disponibilizadas ao plantio no ano que vem – ainda que a multiplicação seja um tanto lenta para se gerar volume. A expressão da cultura nas lavouras de Cerrado vai depender do crescimento de mercado, inclusive do externo, para o qual o Brasil envia 50% de sua produção. “O mercado externo é muito importante”, avalia Taís.

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As exigências no cultivo também são grandes. Após a maturação, é necessário um período seco para realizar a colheita, cuja umidade do grão precisa ser inferior a 18%. Senão, é possível ocorrer a podridão do grão, produto que naturalmente não iria para a prateleira. Além disso, o cultivo é mais exigente no controle fitossanitário do que o milho, até incluindo mais pulverizações (em São Paulo, até três vezes mais). Um exemplo: a lagarta-do-cartucho nos cultivos de milho (que possui variedades transgênicas resistentes à praga) só ataca até o florescimento da planta, mas no caso do milho-pipoca é uma ameaça até a formação da espiga. Já na adubação, as demandas se assemelham às do milho. O preço recebido pelo produtor é bastante variável, pois oscila conforme o consumo e o volume de produção. E a quantidade produzida depende do preço da seguinte forma: “O preço subiu, o produtor planta mais”. Exemplo clássico: em 2016, a produção foi de 120 mil toneladas; no ano passado, chegou a 303 mil toneladas (duas vezes o consumo interno). “Quando isso acontece, o preço vai lá embaixo”, conclui Sawazaki.

Girassol: facilmente cultivável — O girassol que é transformado pela indústria em óleo para consumo humano é uma cultura facilmente integrada ao sistema produtivo da propriedade, pois exige apenas pequenos ajustes no maquinário, e entra no ciclo de produção na segunda safra. “É fácil de ser feito”, resume o pesquisador da Embrapa Cerrados Renato Amabile. Além disso, segundo ele, a cultura tem “alta capacidade de adaptação” a altitude e latitude, tolerância à seca e boa ciclagem de nutrientes, principalmente o potássio. No entanto, mostra-se muito exigente no elemento boro, que pode ser aplicado junto com o glifosato na calda de pulverização no momento em que a cultura anterior for dessecada. Fora isso, a cultura é susceptível a doenças como a mancha alternaria e mofo branco, além de pragas como lagartas e percevejos. “Existe tecnologia para o controle”, esclarece o pesquisador.

O girassol e o milho são competidores econômicos na escolha pelo produtor. Por exemplo, em 2016 o girassol foi preterido pelo milho visto a boa cotação do cereal. Já no ano seguinte virou opção de renda, visto o mau momento do milho. Além disso, mostra-se como uma opção de cultivo de safrinha (com semeadura em fevereiro) quando a janela de plantio do milho fica encurtada pelo clima no Centro-Oeste e no triângulo mineiro. Amabile descreve o perfil dos produtores como de porte grande e que se utilizam da estrutura da propriedade. O ciclo da cultura é de 100 dias em média, sendo que o híbrido simples da Embrapa BRS 323 é o mais precoce do mercado, com 90 a 98 dias, conforme o local de cultivo. Já o rendimento médio é de 28 sacas por hectare, mas com áreas de até 41 sacas.

A remuneração está atrelada às importações, cuja cotação internacional é definida pelas bolsas de Chicago, nos Estados Unidos, e Buenos Aires, na Argentina. “É uma commodity”, lembra Amabile. No ano passado, o produtor recebeu entre R$ 60 e R$ 66 pela saca de 60 quilos, valor considerado por ele como muito bom. O custo de produção gira em 20 sacas por hectare. “É mais rentável que o milho”, lembra o pesquisador, já que, faz uma comparação, o milho tem um custo de 101 sacas/hectare para um rendimento de 120 sacas. Conforme o cálculo dele, em 2017 (ano bom para o girassol e ruim para o milho, ressalta-se), em Goiás, o produtor teve uma receita líquida de R$ 564 por hectare (produtividade de 28 sacas a R$ 63/ saca), enquanto o milho lhe rendeu R$ 304, para uma performance de 120 sacas/hectare.

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Culturas de inverno: um bem enorme ao solo — Na Região Sul e nos meses frios, também são muitas as opções à principal cultura de inverno, o trigo. Cevada, centeio, aveia-branca (grão), triticale e canola são algumas das culturas que propiciam três ganhos importantes, um econômico e dois técnicos: os cultivos diversificam a renda da propriedade, além de promover a melhoria das condições do solo e de interromper ciclos de pragas, doenças e daninhas. “Para que o produtor não aposte apenas em uma cultura”, lembra Vladirene Macedo Vieira, analista de Transferência de Tecnologia da Embrapa Trigo, sobre a relevância econômica de não apostar apenas no trigo. “E benefícios da diversificação para o sistema produtivo”, acrescenta, referindo-se à geração de palhada e a melhorias físicas, químicas e biológicas do solo. “Não são efeitos de curto prazo”, adverte.

E como escolher a cultura mais apropriada? No caso da cevada cervejeira, por exemplo, é melhor o produtor estar situado em uma região próxima a uma maltaria. “Senão não vai ter a quem entregar o produto”, esclarece Vladirene. Da mesma forma, no caso de centeio e triticale, é preciso se localizar nas redondezas de uma fábrica de biscoitos. “Não é toda a região que o produtor vai ter facilidades para vender”, alerta. Os cultivos não chegam a ser complicados para quem é habituado ao trigo e às culturas de verão, mas existem riscos climáticos, como geadas fora de época, ou então excesso de chuvas em períodos próximos à colheita que podem favorecer a incidência de doenças. Já o maquinário é quase todo o mesmo da propriedade, com a exceção da canola, cuja semente é mais fina para o plantio e, sobretudo, para a colheita, já que a cultura precisa ser cortada e deixada secar a campo.