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MESMO COM DIFICULDADES, GOVERNO PRIORIZARÁ A PESQUISA BÁSICA DOS BIOMAS

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ALYSSON PAOLINELLI

É com muito prazer que anunciaremos nestes próximos dias a integração da Embrapa, de instituições estaduais de pesquisa, de principais universidades e instituições privadas de pesquisa e de produtores rurais em um esforço articulado para conhecer de fato os nossos seis biomas brasileiros. Com isso, o Brasil passa a ser de fato o primeiro país que antes de entrar com o homem, a máquina, a enxada e a semente em uma área desconhecida, entrará primeiro com o conhecimento da ciência e da pesquisa de seus recursos naturais: o solo, a água, a planta, os animais, o clima e os seus aspectos sociais, econômicos, antropológicos e o que mais necessário for para que se tenha a certeza dos limites de uso desses recursos naturais, que não podem ser degradados. Ao contrário, devem ser preservados para as gerações futuras que, se mais capazes ou com mais conhecimento, possam manejá-los adequadamente. É incrível que até legislamos sobre esses biomas de forma tão atabalhoada que colocaram nos parâmetros do trópico úmido da Amazônia os mesmos do semiárido e da caatinga nordestina.

Temos observado que o mundo não conhece de fato a tecnologia tropical que aqui desenvolvemos nos últimos 40 anos. Oportuna foi a intervenção do ministro Blairo Maggi na Alemanha em sua participação na chamada Semana Verde, em que procurou de forma clara apresentar os verdadeiros números existentes no Brasil com relação à manutenção de nossas vegetações nativas. Esforços como esse têm de ser repetidos em todos os quadrantes onde ainda persista a ignorância ou a má-fé em relação ao esforço brasileiro.

É impressionante a insistência em afirmar que o Brasil é hoje reconhecidamente a grande segurança na capacidade de alimentar a crescente população mundial em número e em renda. No entanto, quando realmente conhecem a evolução da agricultura tropical brasileira, provavelmente se arrependem das besteiras que alardearam. Alguns futuristas chegam a dizer que a grande demanda de alimentos no mundo se iniciará nos próximos 20 anos e não 50 como tantos já falaram. Chegam a anunciar que o Brasil e as outras áreas tropicais do globo vão ser capazes de atender a essa demanda suplementar na alimentação mundial, mas erroneamente insistem em dizer que elas serão atendidas à custa da perda de novos recursos naturais e florestas tropicais.

Esse é o trabalho que se pretende iniciar em uma conjugação de esforços de todos os cientistas disponíveis no Brasil, que naturalmente deverão ser chamados para um trabalho de pesquisa em rede e aberta a todos os interessados em conhecer firmemente quais são os verdadeiros limites possíveis de uso e manejo dos biomas tropicais brasileiros, que de vez em quando se repetem em toda a área tropical do globo. Temos expectativas que essa pioneira ação possa se repetir em todas as partes ainda não antropizadas do globo. Outra atitude mais racional seria a participação internacional de instituições e seus cientistas em ajuda ao esforço brasileiro.

Aqui no Brasil mesmo o que se espera é uma participação e a colaboração com um projeto dessa natureza sem os ranços de uma ideologia ultrapassada ou de influências político-partidárias que, nesse caso, mais atrapalharia do que verdadeiramente ajudaria. Essa é uma ação estratégica que deve ser executada da forma mais adequada para a obtenção do verdadeiro conhecimento dos recursos tropicais de que estamos conseguindo atender a crescente demanda do mercado internacional com alimentos de primeira qualidade e de efeito nutricional indiscutível. Aqui mesmo no Brasil precisamos também procurar conhecer os verdadeiros efeitos de uma alimentação e de uma nutrição mais eficiente em nossa capacidade de gerar trabalho, ampliar inteligências e aumentar a nossa longevidade, como já está comprovado.

É bom também lembrar a oportunidade que se cria ao grande número de doutores que se formam em nossas universidades e que teriam nessa ação estratégica uma feliz abertura para participar imediatamente de um esforço científico nacional e que terá de ser coroado de êxito. Com esse exemplo, o Brasil estará dando ao mundo a demonstração de que aqui não são só desastres que aparecem. Mesmo em um clima de escassez de recursos para a nossa ciência e a tecnologia somos capazes de identificar prioridades, realizar estudos estratégicos e amparar os nossos verdadeiros cientistas em uma oportunidade ímpar a qualificá-los diante de um mundo em expectativa.

Engenheiro agrônomo, produtor, presidente-executivo da Abramilho e ex-ministro da Agricultura