O Segredo de Quem Faz

Tecnologia brasileira ILPF for export

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Leandro Mariani Mittmann
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A integração lavoura-pecuária, conhecida por ILP, e por vezes com o componente florestal (então ILPF), é um verdadeiro potencializador de ganhos técnicos e econômicos em uma fazenda. Há registros de unidades produzindo até seis vezes mais a partir da mescla das atividades, segundo apurou a Rede de Fomento ILPF, iniciativa que reúne Embrapa, John Deere, Cocamar e Syngenta, além da recém adesão da Soesp (com as saídas de Dow e Parker), e que chega ao quinto ano de existência com uma novidade: agora se transforma em Associação Rede ILPF. A troca de denominação busca tornar a Rede ainda mais atuante, pois agora poderá receber recursos internacionais, sobretudo porque a integração é uma mitigadora dos gases de efeito estufa, além de que suas técnicas poderão ser exportadas a países da América Latina e da África. É o que descreve o médico veterinário William Marchió, diretor-executivo da Associação Rede ILPF.

A Granja — O que é a Rede ILPF e quais seus objetivos?

William Marchió — A Embrapa se deparava sempre com cenários de pastagens degradadas. Nós técnicos tínhamos um grande desafio porque tem várias fazendas de com alto grau de estágio de degradação de pastagens e com o produtor sem capacidade de investimento para converter, reformar essas áreas. Então, algumas soluções técnicas foram adotadas no começo com o sistema Barreirão, em que se coloca uma lavoura de milho consorciada com braquiária, e que depois da colheita (do cereal) tem o pasto. Isso tornou uma nova maneira de reformar a pastagem, com a agricultura pagando a conta.

O que alguns produtores passaram a fazer quando começaram a ouvir a Embrapa e outras instituições que também conheciam a tecnologia? “Ótimo, eu consigo reformar a pastagem, pago a conta com o grão, com a silagem que eu produzo, e fico com o pasto reformado a ‘custo zero’”, entre aspas. E aí teve que acontecer uma mudança de postura do produtor: ou ele passa a mexer com a agricultura dentro da fazenda de pecuária, ou ele terceiriza a área para algum agricultor. Isso foi dando muito certo, com vários exemplos, como a Fazenda Santa Brígida, que já era uma unidade de referência tecnológica da Embrapa, e várias outras fazendas na região da cooperativa Cocamar, no Arenito Caiuá (Paraná), ambientes bastante desafiadores.

E tínhamos uma ação muito grande já coordenada por Embrapa, John Deere e Cocamar. E quando eles visualizaram que essa tecnologia estava revolucionando as áreas degradadas, e que o sucesso dela era bastante interessante, resolveram unir forças para fazer com que essas tecnologias se disseminassem o mais rápido possível. Foi quando resolveram criar um acordo de cooperação, em abril, de 2012, que se chamou Rede de Fomento de Integração Lavoura- Pecuária-Floresta. O acordo de cooperação foi firmado entre Embrapa, John Deere, Cocamar e Syngenta. Posteriormente se agregaram as empresas Dow e Parker. Esse acordo veio até agora, cinco anos, e cada empresa aportou R$ 500 mil ao ano para ajudar a Embrapa e entidades para fazerem a disseminação da tecnologia LPF. Foram realizados dias-decampo, treinamentos, capacitações, criamos várias unidades de referência tecnológica, fazendas que criam tecnologia para mostrar ao redor da sua região, “onde faz, como faz”, e incentivar produtores a aderirem à tecnologia.

A Granja — E o que muda com a transformação em Associação Rede ILPF?

Marchió — Desenvolvemos vários trabalhos durante esse período e realizamos uma pesquisa para determinar o nível de adoção da tecnologia e acreditamos que essa etapa foi cumprida. Porém, visualizamos que o potencial ainda é muito grande. Podemos converter quiçá 60 milhões de hectares de pastagens degradadas por este Brasil afora. E para isso, diagnosticamos com a pesquisa, é preciso mais profissionais em nível de campo para disseminar a tecnologia e terem condições de darem consultoria, acompanhar esse produtor nessas etapas para que se tenha agricultura, pecuária e eventualmente o componente florestal. Visualizamos que podíamos e podemos fazer mais. Só que o modelo de cooperação nos engessava muito porque utilizávamos um modelo em que precisávamos da Fundação Eliseu Alves, gerenciadora dos recursos, não podíamos receber doação de recursos e tínhamos uma limitação para atuação em nível nacional apenas. Para receber doação internacional havia dificuldades, e a solução que adotamos foi criar a associação, o modelo melhor que se ajustou ao que queremos fazer, que é a associação, para que pudéssemos ficar bastante flexíveis, conseguir direcionar os recursos para projetos específicos e com isso ser mais efetivo na adoção. Queremos realmente que a integração avance sobre áreas de pastagens degradadas e que converta isso em maior produtividade. As fazendas de integração chegaram a ser seis vezes mais produtivas que as fazendas convencionais em rentabilidade e produtividade por hectare. Não estamos medindo esforços para que isso aconteça.

A Granja — E quais são os projetos e as metas para 2018, e também para os anos seguintes?

Marchió — Os objetivos principais da Rede neste ano são conseguir incentivar instituições como universidades a terem a ILPF em sua grade curricular, criar maneiras para que outras instituições possam fazer uma capacitação continuada de técnicos em nível de campo para que eles possam também disseminar e atender produtores de even-tualmente queiram implementar a tecnologia. E também queremos estender a atuação da associação em nível internacional. Acredi-tamos que a América Latina, com o potencial enorme para a implementação da tecnologia, e também a África. Porém, estamos na etapa de buscar recursos internacionais. Em novembro, estivemos na COP 23, em Bonn, na Alemanha, apresentamos a tecnologia da integração no Espaço Brasil, onde foi muito bem aceita.

O atual presidente do Conselho Gestor da Rede ILPF é o doutor Renato Rodrigues, da Embrapa, com uma grande experiência com as ações de mudanças climáticas, e temos, através dele, pleiteado recursos junto a fundos de mudanças climáticas para que possamos utilizá-los para esses objetivos, difundir a tecnologia e capacitar profissionais, enfim, montar um projeto bem audacioso em nível Brasil, inicialmente, que modifique realidades, para que realmente áreas de pastagens degradadas sejam convertidas em áreas de integração. E também converter agricultores tradicionais que não se utilizam da tecnologia a passarem a utilizá-la. Isso tem bastante consequência em relação ao balanço de gases de efeito estufa. Então, tratase de uma das tecnologias do Projeto ABC, de Agricultura de Baixo Carbono. Temos isso como foco. Precisamos mostrar ao mundo que a agricultura tropical brasileira pode colaborar muito para essa mitigação de gases de efeito estufa e isso é um dos objetivos principais da Associação.

A Granja — São 11,5 milhões de hectares de integração no Brasil. Qual a sua avaliação desse número? É pouco? É muito?

Marchió — Esse número a princípio nos assustou pela dimensão. Se falava em 3 milhões, 4 milhões de hectares na época da pesquisa. O número nos assustou muito. Demoramos muito tempo para lançar o número publicamente porque quisemos conferir. Tivemos várias reuniões com representante de cada estado da Embrapa e da empresa que nos ajudou com a pesquisa (Kleffmann) para realmente depurar o número, para que não fôssemos irresponsáveis na divulgação. E chegamos a isso. O Brasil hoje possui 11,5 milhões de hectares de alguma forma de integração, não necessariamente com floresta. Para se ter uma ideia, 83% é ILP, que é a mais fácil. É como todos começam. E 9% chegam a ser com o componente florestal, e o restante é com outros arranjos.

A Granja — E quais as perspectivas e potencialidades para a integração na agropecuária brasileira?

Marchió — Temos uma pressão muito grande e vamos sofrer cada vez mais por dois motivos. Uma é a pressão de fornecer alimentos ao mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), existe a necessidade de ter 70% a mais de produção de alimentos de hoje até 2050, e que destes 70%, caberiam ao Brasil 40%. Em contrapartida, temos toda a pressão ambiental para entrar em áreas virgens, preservadas. Então, não temos mais como expandir horizontalmente essas áreas. Porém, são 160 milhões estimados de pastagens no Brasil e acredita-se que 60% têm aptidão agrícola e estão em áreas degradadas. Hoje cultivamos em torno de 60 milhões de hectares com grãos. Então, temos um outro Brasil agrícola no bolso nessas áreas de pastagens. Se avançarmos sobre essas áreas de pastagens degradadas, vamos no mínimo dobrar a produção brasileira de grãos em todos os sentidos sem tirar uma árvore, sem desmatar, sem crescer horizontalmente. Isso é um grande trunfo do Brasil e acreditamos muito nessa conversão de áreas degradadas. Em contrapartida, os agricultores estão tendo mais dificuldades por conta dos diversos desafios climáticos em algumas regiões do Brasil.

O Brasil avançou para algumas regiões mais desafiadoras tanto de solo quanto de clima. Hoje se cultiva em solos mais arenosos e se tem uma diversidade de clima mais rigorosa. Foi o que aconteceu no Oeste da Bahia, que frustrou, durante uns três anos, muitos produtores que apostaram em tecnologia e não utilizaram ILPF, e perderam suas produções de soja, de milho. Ao mesmo tempo assistimos produtores que estavam utilizando o consórcio com gramíneas e conseguiram proteger o seu solo, diminuir o grau de desidratação desses solos, criar uma microbiótica mais favorável de condições de matéria orgânica. Tiveram o que dizemos “safra de raiz”, e essa raiz colaborou de forma estrondosa para que esses solos conseguissem reter a água. As raízes das culturas conseguiram se aprofundar mais e esses produtores conseguiram produzir quase da mesma forma que produziriam sem os veranicos, com um sistema de chuvas normal. Então, quando esses produtores começaram a ver que a integração, além de permitir a introdução da pecuária no seu sistema de produção, ainda promovia uma maior resiliência das culturas de milho e soja e inclusive maior produtividade dessa soja cultivada após pastagem, essa difusão passou a ser confiança, sem intervenção.

Eles chegaram à conclusão de que aquilo era importante, e passaram a adotar, a buscar. Tanto que tivemos falta de sementes de Braquiaria ruziziensis, a espécie mais utilizada para esse consórcio, mais fácil de controlar na agricultura. Teve um gap e o preço explodiu. Ao mesmo tempo, a Embrapa, com a Unipasto e outras empresas, começou a desenvolver variedades para esse consórcio, sementes com melhor qualidade, sementes puras, para que realmente essa integração pudesse ser feita sem o risco de faltar semente. Nos deparamos com isso, mas acreditamos que agora a tecnologia está caminhando com suas próprias pernas. Porém, queremos mais, queremos diagnosticar onde estão as dificuldades e tentar tampar estas lacunas.

A Granja — E quais são os principais entraves para a expansão da integração?

Marchió — A principal dificuldade é falta de profissionais a campo que tenham o conhecimento das duas ou três atividades, a agricultura, a pecuária e o componente florestal. Esse é o maior desafio. Porque as universidades ainda não estão preparando profissionais de forma mais eclética, mais holística, em que eles entendam o sistema de produção. Eu falo que é como se fosse um time e futebol: um parte para a agricultura, um para a pecuária... e essas atividades são como se fossem adversárias. E nos deparamos muito com fazendas grandes implantando a integração e o maior desafio é lidar com a equipe. Então, tem a equipe de agricultura que não respeita cerca, que ao fazer uma gradagem vai passar em cima da cerca, e equipe de pecuária que fica brigando com a agricultura. Normalmente, nas fazendas que acompanhamos, tentamos fazer uma equipe multidisciplinar, e fazer com quer essas pessoas interajam de forma muito efetiva.

Até brinco que quando me deparo com uma fazenda grande que tem um gerente agrícola e um gerente de pecuária, eu peço ao produtor para comprar uma cama de casal para eles dormirem juntos (risos). Porque se eles não se entenderem vai ter muito atrito nesse processo, e às vezes o produtor desiste. Por quê? Porque infelizmente às vezes existe uma cultura, “ah, eu só mexo com agricultura”, e um preconceito em relação à pecuária – e viceversa. Mesmo porque são atividades distintas, e o perfil do pecuarista é mais conservador, mais administrador de patrimônio e não de produção. E o agricultor, não, ele tem mais o ímpeto, tem facilidades, se dispõe a pegar crédito, a correr risco, a fazer a administração da produção. Então, o mix entre essas duas pessoas é que a gente acha o ideal. Temos que profissionalizar a pecuária dentro da integração, esse é o maior desafio.

E, ao meu ver, o maior benefício que a integração tem trazido a pecuaristas é dar um choque de gestão, porque esse pecuarista passa a ter dia para comprar o adubo, dia para plantar, dia para fazer a pulverização, coisas que na pecuária ele pode negligenciar, ele tem mais flexibilidade. E isso é ruim para a pecuária, porque muito produtor passa a ter com a pecuária uma conduta muito relaxada. E aí não se tem resultados satisfatórios, e às vezes querem até comparar com a agricultura extremamente tecnificada.