Conjuntura

Os MUNICÍPIOS mais competitivos do agronegócio

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Estudo de consultoria elaborou ranking avaliando a competitividade para o agronegócio em cerca de 4.300 municípios no Brasil a partir da análise de dez indicadores, de questões climáticas a distância de portos

Eng. agrônomo Leonardo Sologuren, mestre em economia, sócio-diretor da Horizon Company e sócio-diretor da Zeus Agrotech

O Brasil é, seguramente, o país que tem a maior capacidade de expansão da atividade agrícola no mundo. Abundante em recursos naturais, como terra e água, o Brasil teria capacidade de dobrar a sua ocupação de área de forma ambientalmente correta. O País ocupa atualmente cerca de 65 milhões de hectares para a atividade agrícola, o que representa aproximada- Fotos: Leandro Mariani Mittmann mente 10% da área brasileira. Ao longo da última década, novas fronteiras agrícolas passaram a ser ocupadas pelos produtores rurais. Regiões consideradas inapropriadas antes para a exploração agrícola, como o Oeste da Bahia, o Maranhão e o Piauí, passaram a ser foco de investimentos para a produção primária, atraindo na sequência indústrias e infraestrutura logística.]

A demanda global por grãos tende a crescer muito no longo prazo, impulsionada pelo desenvolvimento econômico de países emergentes, como China e Índia que, em conjunto, representam quase 35% da população mundial. A demanda por proteína animal nesses países ainda é baixa quando comparada à de países como os Estados Unidos, Brasil e Europa. Para efeito de comparação, enquanto o Brasil consome 97,8 quilos de carne/habitante/ ano, a China consome 54,1 quilos/habitante/ano e a Índia, apenas 5,6 quilos/ habitante/ano. Para cada habitante chinês que migra do campo para a cidade, há um aumento no consumo de 22 quilos de carne por ano. Portanto, a necessidade de produção de grãos para abastecer a demanda por ração animal será expressiva à medida que esses países avancem no crescimento econômico.

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Importante ressaltar que o quadro global de pessoas famintas (ou seja, que não têm acesso à quantidade mínima de alimentos essencial ao ser humano) ainda é considerado grave. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), ainda existem cerca de 800 milhões de famintos no mundo. Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) também apontam que cerca de 2,5 bilhões de pessoas vivem com menos de US$ 2,50 por dia, limitando, portanto, o consumo de proteína animal. De acordo com o estudo elaborado pela ONG Ação Agrária Alemã, o quadro da fome é considerado sério na Índia, enquanto em diversos países da África o cenário é considerado alarmante.

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Frente a essa realidade, a necessidade de aumento da produção mundial de alimentos é incontestável e, claramente, o Brasil tem um importante papel de destaque no contexto internacional. Porém, quais são as Unidades da Federação com maior capacidade de aumentar a sua área plantada no Brasil? Mais importante, quais são os municípios de destaque? Mesmo que tais municípios indiquem a existência de estoque de terra, qual o nível de competitividade dessas regiões para a produção de grãos? Em 2017, a Horizon Company, empresa especializada em Inteligência de Mercado, lançou um estudo inédito avaliando cerca de 4.300 municípios no Brasil por dez indicadores de competitividade, sendo os seguintes:

Restrição do potencial agrícola: análise dos fatores limitantes para a produção agrícola por município.

Risco agrícola climático: análise histórica do risco climático para a produção agrícola por município.

Área agrícola explorada: área ocupada com culturas temporárias e perenes por município.

Área agrícola disponível: potencial de área que ainda pode ser explorada considerando a legislação ambiental atual.

C r e s c i - mento da produção de grãos dos últimos dez anos.

R e s e r v a legal: análise da necessidade de reserva legal em função dos biomas existentes.

Presença de ferrovia: análise da presença ou não de terminais ferroviários por município.

Distância até o porto: cálculo da rota em quilômetros do município até o porto mais próximo.

Presença de indústria processadora: análise da presença de indústria processadora de carne, lácteos e grãos por município.

Déficit ou superávit de armazenagem: cálculo da capacidade de armazenagem de grãos por município.

O estudo, que abrangeu os estados de SP, MG, RS, PR, SC, MT, MS, GO, MA, PI, TO, BA e PA teve como intuito avaliar quais os municípios mais competitivos para a exploração da atividade agrícola levando em consideração os dez fatores de competitividades citados anteriormente. As áreas cultivadas com soja foram mapeadas por satélite, buscando avaliar a ocupação real da área cultivada com a principal cultura do Brasil.

Exemplo de Goiás — Para exemplificar o estudo, vamos avaliar o caso do estado de Goiás. A primeira etapa do estudo buscou analisar quais são os fatores de restrição à produção agrícola. O primeiro diz respeito a áreas especiais, as quais correspondem às áreas protegidas pelo governo, como reservas indígenas, parques estaduais, entre outros. Ou seja, nessas áreas, não pode haver exploração comercial da atividade agrícola.

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Entre os dez itens que foram considerados para o ranking da competitividade, está a logística, como o cálculo da rota em quilômetros do município até o porto mais próximo e a presença de ferrovias

O segundo fator corresponde a solos considerados não ideais a produção agrícola, como solos pedregosos, muito rasos, entre outros, onde a conversão dos mesmos para a atividade agrícola custa muito caro, além de não ter os aspectos agronômicos considerados satisfatórios. O terceiro fator corresponde à topografia. Analisamse aqui regiões de geografia acidentada que impede a exploração da produção de grãos. O quarto fator diz respeito ao clima.

O estudo avaliou as isoietas (curvas que delimitam regiões de mesma pluviosidade) climáticas identificando áreas cujo volume de chuvas fosse insuficiente para a produção de grãos. O estudo também levou em consideração o regime hídrico mensal dos últimos 16 anos, cruzando essa informação com os estágios fenológicos da soja. Pelo mapeamento, pode-se concluir que o estado de Goiás possui um potencial de exploração agrícola de 20 milhões de hectares.

A segunda etapa do trabalho buscou analisar então quanto desse potencial agrícola já é ocupado para a atividade agrícola, por pastagem e reflorestamento. Considerando ainda a legislação ambiental corrente, chegase à conclusão de que o estado de Goiás ainda tem um potencial de crescimento de 11,7 milhões de hectares. Com o mapeamento, foi possível analisar o estoque de terra apta a agricultura município a município.

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No caso específico de Goiás, o município de Nova Crixás é o que possui o maior estoque de área no estado, com um potencial de 458,9 mil hectares para novas aberturas de áreas. E entre as regiões mais competitivas para a exploração da atividade agrícola no Brasil, Jataí/GO lidera o ranking dos municípios.