Mercado de Trabalho

Os PROFISSIONAIS que o agro procura

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Recentes transformações do setor geraram novas demandas e necessidade de atualização constante entre as pessoas e as instituições de ensino

Denise Saueressig
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Como um setor em transformação constante, o agronegócio exige de seus profissionais capacidade de adaptação e atualização permanente. Especialmente na última década, as mudanças percebidas na realidade do campo e dos processos antes e depois da porteira criaram novas demandas nos mais variados cargos, desde estagiários até executivos, em funções que envolvem mão de obra braçal ou intelectual.

Segundo pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq), um contingente de cerca de 19 milhões de pessoas trabalham no setor que responde por 23% do Produto Interno Bruto (PIB) e 48% Divulgação Yara das exportações do País.

No ano passado, quando a instabilidade econômica provocou o fechamento de 1,3 milhão de vagas no Brasil, a agropecuária também sofreu, mas foi o setor que menos sentiu o impacto dessa conta. Segundo o Ministério do Trabalho, o saldo negativo foi de 13 mil postos, o equivalente a uma variação relativa de 0,89% em comparação com 2015. O recuo total de vagas no País foi de 3,3% em todos os segmentos.

O principal estímulo para o trabalho no agronegócio está justamente na pujança do setor, que é líder mundial em produção e exportação de diversas commodities, avalia o professor Luis Eduardo Aranha Camargo, presidente da Comissão de Graduação da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (Esalq/USP). “O grande desafio da área é a própria percepção da sociedade que ainda enxerga o profissional do agronegócio como aquele que dirige trator, mastiga capim e laça boi no pasto. Embora essas sejam atividades muito prazerosas, a realidade é outra: acompanhar colheita e monitorar produção via satélite, negociar commodities em bolsa de valores, analisar big data para aprimorar processos e fechar lacunas de produtividade, desenvolver nanosistemas para otimizar o uso de recursos hídricos e explorar os recursos naturais garantindo a sustentabilidade dos sistemas. Essas são apenas algumas funções que passam longe da percepção da sociedade”, conclui.

Novas gerações — O rápido crescimento do setor não foi acompanhado na mesma velocidade pela oferta de mão de obra, constata o presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Endrigo Dalcin. Nas funções relacionadas ao trabalho de campo há déficit importante, por exemplo, entre operadores de máquinas agrícolas. “Os equipamentos se tornaram muito sofisticados nos últimos anos, e os próprios fabricantes e instituições como o Senar (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural) vêm capacitando pessoas nessa área. No entanto, precisamos avançar mais porque a inovação tecnológica continuará acontecendo”, sustenta. Carência nos cargos gerenciais e ligados à coordenação de operações nas fazendas também é percebida com frequência, de acordo com o dirigente.

A Aprosoja tem uma preocupação especial com as novas gerações de profissionais do agro. E para aproximar estudantes de temas relevantes e até polêmicos, a associação realiza o Circuito Universitário, que leva palestrantes até instituições de ensino superior em diferentes municípios do Mato Grosso. Este ano, na quarta edição da iniciativa, foram realizadas 14 palestras durante o mês de outubro.

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Professor Luis Eduardo Camargo, da Esalq/USP: tecnologias da informação e biotecnologia são as grandes novas áreas que prometem elevar os índices de produtividade. Conhecimento sobre esses temas é fundamental

O tema abordado foi como a tecnologia e a sociedade conectada podem influenciar a vida profissional, mas a reflexão é ainda mais profunda, observa Dalcin. “Além de levar aos jovens informações relacionadas ao presente e ao futuro do setor, nossa proposta é provocar a observação sobre temas em que ainda constatamos viés ideológico e visões distorcidas sobre a atuação da agropecuária, como é o caso da questão ambiental”, descreve.

Adequações no ensino — Diante dos novos desafios propostos, o agronegócio demanda um profissional com formação transdisciplinar, ou seja, aquele que vê entre, através e além das disciplinas, define o professor Luis Eduardo Camargo, da Esalq. “Nos últimos anos, tecnologias da informação e biotecnologia são as grandes novas áreas que prometem elevar os índices de produtividade. Conhecimento sobre esses temas é fundamental, além, é claro, de experiência internacional e domínio de língua estrangeira, principalmente o inglês”, salienta.

Para aproximar os estudantes do mercado de trabalho, a Esalq mantém uma série de atividades, como estágios obrigatórios que, na maioria das vezes, são realizados em empresas conveniadas. Nos últimos cinco anos, mais de 1,5 mil alunos estagiaram em empresas amparados por mais de 400 convênios. Segundo Camargo, a maior demanda percebida atualmente vem da área dos agroquímicos. “Cerca de 25% de nossos egressos iniciam suas carreiras nos setores de representações e pesquisa e desenvolvimento de produtos”, cita o professor.

A Esalq oferece formação em sete cursos de bacharelado: Administração, Ciências Biológicas, Ciências dos Alimentos, Ciências Econômicas, Engenharia Agronômica, Engenharia Florestal e Gestão Ambiental. Também há dois cursos de licenciatura (Ciências Agrárias e Ciências Biológicas) e 18 cursos na pós-graduação. Na década de 1960, quando foi criado, o programa de pósgraduação oferecia apenas três cursos. “Algumas transformações foram determinantes para a criação de cursos como o de Bioenergia e o de Engenharia de Sistemas Agrícolas”, enumera Camargo. Em 116 anos de história, mais de 15 mil alunos foram graduados pela escola, que também já formou 5.322 mestres e 3.320 doutores.

Conhecimento além da formação — As oportunidades de trabalho vão muito além das profissões tradicionais do setor, como Agronomia, Zootecnia ou Veterinária. Tanto que está em crescimento no País a oferta de cursos com enfoque na interdisciplinaridade. Na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), o Centro de Estudos e Pesquisas em Agronegócios (Cepan) abriga o Programa de Pós-Graduação (PPG) em Agronegócios.

Com mestrado desde 1999 e doutorado iniciado dois anos depois, o programa é aberto a estudantes de diferentes áreas, além das formações clássicas do campo. Podem se inscrever na seleção anual do Cepan graduados em cursos completamente distintos, como por exemplo Nutrição, Administração, Comunicação Social, Biologia, Geografia, Estatística, Engenharia de Produção, Direito, Turismo, entre outras.

Para o professor Edson Talamini, coordenador do PPG, essa diversidade favorece a concepção conjunta da consciência dos limites da solução de problemas complexos a partir de uma perspectiva disciplinar. “Buscamos formar profissionais com uma postura crítica frente às demandas da sociedade e das organizações, com visão holística na busca por respostas aos desafios e com capacidade de diálogo com pessoas de diferentes áreas do conhecimento”, destaca o professor.

Como recebe alunos provenientes de variados cursos de graduação, incluindo alguns que têm relação mais distante com o agronegócio, o Cepan realiza atividades que aproximam os estudantes da realidade do mercado, como disciplinas específicas e um simpósio anual com temática vigente. “A troca de experiências com profissionais que tenham vínculos mais fortes com o mercado podem revelar aspectos e problemáticas eventualmente despercebidos pela academia. Além das disciplinas e do simpósio, o corpo docente mantém professores que têm interações com cadeias do agronegócio, assim como o desenvolvimento das dissertações e teses permite aos alunos, em muitos casos, o contato com pessoas e realidades de diferentes segmentos”, analisa Talamini.

Qualificação e disciplina — Os diferentes perfis de profissionais trabalhando no setor confirmam essa pluralidade preconizada pela academia. O engenheiro mecânico Guilherme Pinto tem 40 anos de idade e há 20 anos trabalha na AGCO. Quando ingressou na empresa, pouco sabia sobre o agronegócio e a representatividade do setor na economia nacional. “Fui me surpreendendo positivamente, e fazer parte disso é motivo de fascínio e orgulho”, salienta.

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Guilherme Pinto, diretor de Manufatura da AGCO: carreira na multinacional teve início há 20 anos, como estagiário. Atualmente, o engenheiro coordena uma equipe de cerca de 600 funcionários

Diretor de Manufatura da unidade da AGCO em Canoas/RS, onde coordena o trabalho de cerca de 600 funcionários, Pinto iniciou como estagiário na área de Logística. Depois de contratado, a qualificação foi o diferencial para as promoções dentro da companhia. O ensino médio cursado nos Estados Unidos foi fundamental para a fluência na língua inglesa, diferencial que fez com que o engenheiro fosse escalado para muitas viagens ao exterior e negociações estratégicas para a expansão da atuação da empresa mundialmente.

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Novas exigências provocaram adequações no ensino, e oportunidades no mercado de trabalho também vão além das profissões tradicionais do setor

Hoje o engenheiro coordena todos os processos que envolvem a fabricação de equipamentos da AGCO em Canoas. “Desde uma pequena peça até o produto final. Desde a segurança dos colaboradores até a qualidade e a competitividade do equipamento”, enumera.

Entre as capacitações realizadas ao longo da carreira, um MBA em negócios internacionais e um curso de gestão de pessoas também colaboraram para o crescimento profissional. “Pretendo continuar me aperfeiçoando e sinto necessidade de conhecer mais de perto a realidade do produtor rural, até para entender sobre as suas necessidades”, declara. Quando vai falar com estudantes em palestras que realiza em universidades, o engenheiro gosta de enfatizar aos mais jovens que o mercado de trabalho busca profissionais com habilidade e conhecimento, mas principalmente com atitude e disciplina.

O apelo para trabalhar no agronegócio é forte, afinal, é o setor responsável por gerar o alimento que todos precisam consumir diariamente, argumenta a diretora de Recursos Humanos da AGCO na América do Sul, Sheila Fonseca. “O mercado vem passando por muitas transformações, com incorporação de tecnologia e mudanças no perfil do cliente, o que significa que precisamos de profissionais conectados e de alta performance”, menciona.

Embora em algumas posições seja imprescindível atuar com colaboradores de habilidades técnicas específicas, Sheila considera que a diversidade de perfis é saudável na configuração do quadro de pessoal da empresa. Com formação em Psicologia, a diretora de RH afirma que sempre gostou de estudar áreas como Liderança e Marketing. Na AGCO, ela atua com 3,9 mil funcionários, sendo que 3,65 mil estão no Brasil e, o restante, na Argentina. “Trabalho para buscar, desenvolver e reter pessoas. Entre os nossos diferenciais estão a possibilidade de mobilidade, já que nossa atuação é mundial, a relação de qualidade com as entidades de classe e as inúmeras oportunidades de aprendizado e de crescimento que são oferecidas”, pontua.

Construção de lideranças — Embora não tenha estudado na área das Ciências Agrárias, Manoela Armbrust Araujo conta que desde muito jovem se interessa pelos assuntos do agro. Com origem no interior de Minas Gerais e parte da família envolvida com o campo, a administradora de empresas de 26 anos naturalmente direcionou sua carreira para o setor. “O agronegócio é o motor da economia brasileira e precisa ser mais valorizado pela sociedade. Acredito que a nova geração de profissionais que está chegando ao mercado pode colaborar muito com esse trabalho”, opina.

Ainda durante a graduação na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Manoela teve contato com disciplinas que abordaram assuntos relacionados à área e, no ano passado, decidiu se inscrever no Programa de Trainee da Yara Brasil. O trabalho iniciou em janeiro deste ano com dois meses de viagens para conhecer unidades da empresa pelo País. Ao longo de um ano e meio de programa, os trainees são envolvidos em diferentes projetos dentro da companhia. Manoela integra a área de Experiência ao Cliente, que envolve, entre outras atividades, processos de melhoria do relacionamento da empresa com revendas, cooperativas e produtores.

Durante a graduação, a administradora teve a oportunidade de realizar intercâmbios na Alemanha, em um total de dois anos de permanência no país europeu. Hoje ela fala inglês e alemão, e considera que a experiência no exterior ajuda a atestar a sua flexibilidade e capacidade de adaptação a diferentes realidades. “Grande parte das empresas do setor é formada por multinacionais, e por isso, acho importante que um profissional da área possa lidar bem com culturas diversas”, frisa.

Em torno de 60% dos trainees acabam permanecendo na Yara após o término do programa, segundo a coordenadora de Recursos Humanos da empresa, Fernanda Ferreira. “Há casos bem interessantes de colaboradores que entraram na companhia como trainees e hoje ocupam cargos de direção inclusive em outros países, o que demonstra a nossa capacidade de formar lideranças”, relata a executiva.

A Yara tem 5 mil colaboradores no Brasil e um total de 15 mil em todo o mundo. Além do projeto de contratação de trainees, a empresa mantém os programas de Estágio e o Jovens Agrônomos. Este último teve início em 2017 para admitir analistas técnicos comerciais, principalmente para atuação nos Programas Nutricionais da companhia.

A busca, nas diferentes vagas disponibilizadas, é por pessoas com perfil colaborativo, capazes de liderar processos de mudança e com identificação com os valores internos. “Pregamos a colaboração, a ambição, a curiosidade e a responsabilidade, além, é claro, do foco no cliente. Precisamos expandir o conhecimento sobre as necessidades do nosso público para desenvolvermos as soluções de que ele precisa”, acrescenta Fernanda.


CAPACITAÇÃO ATUALIZADA PARA REALIDADES DIVERSAS

No contexto atual do agronegócio, perdem espaço a mão de obra meramente operacional e automática e os profissionais de bagagem somente técnica e ganham terreno funções de caráter estratégico, com visão gerencial e mercadológica em cada uma das escalas de produção, analisa a coordenadora da Área de Formação Inicial e Continuada do Senar, Fabiana Márcia de Rezende Yehia.

Com atuação em todos os estados do País, a instituição procura atualizar permanentemente seu portfólio de programas e ações educativas gratuitas para atender às novas habilidades e competências exigidas pelo mercado. “Entendemos que somente em profunda sintonia com o mundo do trabalho será possível formar cidadãos competentes e com reais chances de progressão profissional”, justifica.

Em 2016, o Senar atendeu 3,4 milhões de pessoas. As áreas de atuação incluem Formação Profissional Rural, Formação Técnica, Promoção Social e Assistência Técnica e Gerencial. Os cursos de educação formal técnica, por exemplo, são treinamentos de nível médio que pretendem capacitar o aluno com conhecimentos teóricos e práticos. “Acesso imediato ao mercado de trabalho é um dos propósitos daqueles que buscam esses cursos, além da perspectiva de requalificação ou mesmo a reinserção no setor”, detalha Fabiana.

Outro projeto do Senar corresponde aos Programas Especiais, que oferecem capacitação diferenciada para os instrutores e procuram suprir necessidades específicas identificadas no setor. Entre os exemplos estão os programas Empreendedor Rural, Negócio Certo Rural, Com Licença Vou à Luta, que é voltado para mulheres, e Agricultura de Precisão. Este último, mais recentemente, vem incorporando ao conteúdo a utilização de drones, abordando os conceitos, a legislação, as formas de utilização e a regulamentação.

Desde 2010, o Senar também oferece aulas a distância. Nessa modalidade, são oito programas em um total de 52 cursos. Em 2015, foi instituído o Curso Técnico em Agronegócio, com dois anos de duração. São conteúdos multidisciplinares que abrangem áreas como Administração, Agronomia e Contabilidade. Do total de 1.230 horas do curso, 20% são presenciais e ocorrem nos polos de apoio e em visitas técnicas a propriedades e agroindústrias. Em 2017 foram mais de 10 mil matrículas no programa.

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