O Segredo de Quem Faz

Oportunidades e desafios da soja no EXTREMO NORTE

Denise Saueressig
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A vontade de empreender e a busca por terras com preços mais acessíveis levaram o engenheiro agrônomo gaúcho Alcione Nicoletti até Roraima. Em uma realidade bastante diferente em relação a outras regiões do País, produtores como ele estão investindo no cultivo da soja em lavouras que começam a ser plantadas em abril e são colhidas entre agosto e setembro. Localizadas no Hemisfério Norte, as áreas produtivas do estado somam pouco mais de 30 mil hectares com o grão, mas existe um grande potencial para o incremento. “Há desafios importantes como em qualquer fronteira agrícola, mas as oportunidades são muito boas, com espaço para empresas e pessoas que tenham vocação e experiência no agronegócio”, observa Nicoletti, que fala com entusiasmo sobre os diferenciais da produção em Roraima e os avanços recentes na região. Na entrevista, ele conta mais sobre a sua trajetória que iniciou há cinco anos no extremo Norte do Brasil.

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Granja – Como teve início a sua história como produtor em Roraima?

Alcione Nicoletti – Nasci em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, onde minha família era funcionária de uma fazenda. Em 1980, ocorreu um projeto de reforma agrária, minha família ganhou um lote de terras em Mato Grosso e nós migramos para lá. Na época eu tinha três anos. No final da década de 1990, fiz o curso de técnico agrícola e depois cursei Agronomia na Universidade Federal do Mato Grosso do Sul. Então, voltei a Lucas do Rio Verde/MT, que é onde meus pais moram e plantam soja e milho. Lá trabalhei durante 13 anos como consultor de vendas na empresa Fiagril, que me deu toda a experiência que tenho hoje nas áreas técnica e comercial. Trabalhava diretamente com os produtores, mas ao longo desse tempo, nunca deixei de sonhar em ser também um produtor. Por isso, resolvi percorrer o Brasil para encontrar terras com preço acessível e começar meu próprio negócio. Roraima se encaixou nesse perfil. Encontrei no estado áreas com solo muito parecido com o do Mato Grosso e clima bem definido. Pedi demissão na empresa em que eu trabalhava e, em parceria com meu colega de trabalho que tinha objetivos parecidos, Geison Nicaretta, compramos áreas, iniciamos a plantação e, assim, já estamos há cinco anos em Roraima.

A Granja – Em que municípios estão suas áreas e qual é a estrutura dos seus negócios?

Nicoletti – As terras da Agropecuária Mato Grosso, que somam 4,2 mil hectares, estão em Alto Alegre. Essa foi a primeira propriedade que adquiri, em sociedade com o Geison. Recentemente, eu e minha esposa, Ana Paula Barreto, adquirimos a Agropecuária Integração, com 1,2 mil hectares, em Boa Vista, que é a capital do estado. Dois anos depois que chegamos aqui, iniciamos também o trabalho com a Granterra Insumos Agrícolas, que hoje financia em torno de 70% dos produtores que cultivam soja no estado. Na empresa, além do Geison, também temos como sócio o James Franz Klein. A cultura principal nas nossas propriedades é a soja e, na safrinha, plantamos feijão-caupi em 10% a 20% da área, dependendo do clima e do mercado. Também iniciei no ano passado a integração lavoura-pecuária, atividade em que faço apenas a terminação de animais, por meio de parcerias com outros criadores. Para a alimentação do gado, venho formando a pastagem depois da colheita da soja com o plantio de Brachiaria ruziziensis, Panicum maximum e milheto, além da complementação com resíduos de soja. Por enquanto, como ainda estamos trabalhando na abertura de áreas, não sobra muito tempo na entressafra para trabalhar com outras culturas.

A Granja – Quais foram as grandes mudanças percebidas desde que você começou suas atividades em Roraima?

Nicoletti – O estado plantava em torno de 4,5 mil hectares quando chegamos. Eram seis pessoas que cultivavam soja, e hoje são mais de 50. Fazemos um trabalho de marketing para que as pessoas venham conhecer as oportunidades de negócio que existem no estado. Desde que chegamos, amigos nossos também começaram a vir, assim como conhecidos desses amigos. A maioria são pessoas do Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Paraná e Paraguai. Na última safra, Roraima cultivou em torno de 32 mil hectares de soja, e no que vem estimamos entre 42 mil e 48 mil hectares. Fizemos um trabalho bastante forte com produtividade, pesquisa, assistência técnica e compra futura de soja. Vendemos um pacote tecnológico para os clientes em troca de soja. Acredito que essa operação ajudou a impulsionar a agricultura no estado, porque havia carência de empresas que fizessem o negócio completo, desde o fornecimento de insumos até a compra da soja. Quando chegamos, os custos eram pelo menos 30% mais altos em comparação com os praticados em Mato Grosso, mas aos poucos estamos conseguindo reduzir esses números, porque estamos dominando melhor a logística e a compra de sementes, fertilizantes e de defensivos. Hoje estamos conseguindo custos parecidos com os de Mato Grosso, Goiás e Paraná.

A Granja – E qual foi a evolução no preço da terra nesses últimos cinco anos?

Nicoletti – Há cinco anos, o preço da terra em Roraima era dez vezes mais baixo em relação ao Mato Grosso. Nós compramos áreas com valores entre R$ 1,5 mil e R$ 1,6 mil por hectare. Hoje se fala em preços em torno de R$ 3 mil o hectare.

A Granja – Como é conduzida a questão ambiental nas novas áreas?

Nicoletti – Levamos muito a sério a questão ambiental. Antes de abrir qualquer área ou financiar um cliente, precisamos de um projeto ambiental bem feito, seguindo todas as normas do Código Florestal Brasileiro. Estamos dentro do Bioma Amazônia, apesar da vegetação de Cerrado em algumas áreas. Já vimos muitas regiões regredirem no crescimento econômico quando foram contra as leis ambientais. Então, trabalhamos em 100% das áreas com licenciamento ambiental. E nisso o estado de Roraima faz um trabalho bom. Quando o projeto é bem feito, em um período entre seis e oito meses, o produtor consegue todo o licenciamento, que é a autorização da supressão vegetal quando a mesma existe, recebe a LI, que é a Licença de Instalação, e a LO, que é a Licença de Operação e uso do solo. Então, tudo isso o estado faz em uma velocidade razoável quando existe um projeto que atenda à lei ambiental. Cultivamos apenas soja convencional que é destinada à exportação, principalmente para a Europa. Temos um valor agregado diferenciado em comparação com a soja geneticamente modificada, mas em contrapartida os clientes finais querem saber a origem dessa soja e a adequação às normas ambientais. Como empresa, a Granterra também só atende clientes que estejam 100% legalizados ambientalmente.

A Granja – Qual é o período de cultivo da soja, considerando que parte do estado está localizada no Hemisfério Norte?

Nicoletti – A região agrícola do estado fica entre os paralelos 2 e 4 Norte. É uma região completamente diferente e desafiadora. O plantio começa no final de abril e segue até o final de maio, que é a janela ideal. A cada ano que passa conseguimos antecipar essa janela para melhorar as condições da palhada, viabilizar uma segunda cultura ou a integração lavoura-pecuária. Os meses que mais chove, com precipitações entre 300 mm e 350 mm são abril, maio, junho e julho. Nos outros meses, a chuva varia entre 50 e 80 mm. Agora (início de outubro) já finalizamos a colheita e em torno de 80% da soja estão no porto para exportação. Atualmente, o preço gira em torno de R$ 65 a R$ 68 a saca em Boa Vista, dependendo da variação do câmbio. Nossa soja acaba mais valorizada pela diferenciação da época da colheita, já que normalmente os prêmios pagos pelo mercado em novembro são maiores.

A Granja – E como estão as médias de produtividade na soja?

Nicoletti – Percebemos que as melhores produtividades vêm ocorrendo quando o plantio é feito até 15 de maio. A média nas minhas áreas esse ano foi de 52 sacas por hectare, e há dois anos venho obtendo médias próximas a esse volume trabalhando com cultivares que têm entre 90 e 100 dias de ciclo. A média do estado fica entre 45 e 48 sacas por hectare, mas acredito que há grande potencial para incremento, pois já chegamos a 60 sacas em alguns talhões. Esse aumento da produtividade está atrelado à incorporação de tecnologias e ao tempo de cultivo, que vão nos dizer quais são as melhores cultivares, as melhores formas de adubação, a melhor época de plantio. Estamos descobrindo isso tudo agora, porque os nossos desafios são muito recentes.

A Granja – Qual é a perspectiva para o incremento da área plantada?

Nicoletti – Acreditamos que a área plantada possa alcançar entre 500 mil e 600 mil hectares de soja nos próximos dez anos. São áreas de Cerrado e de pastagens degradadas. A safrinha também será naturalmente incorporada ao sistema. Poderíamos fazer três safras irrigadas, por exemplo, porque a região tem grande disponibilidade de água e luminosidade alta, com média de 12 horas ao dia. Em contrapartida, não estamos interligados com o Brasil em energia elétrica, e esse é um desafio importante a ser superado. Nossa energia vem de termelétricas e da Venezuela, país que está passando por uma crise sem precedentes.

A Granja – Além da agricultura, também há incremento de investimentos na pecuária?

Nicoletti – Roraima tem tradição na pecuária, e os criadores estão percebendo que é interessante investir na integração da soja com o gado. Muitas áreas estão sendo reformadas, porque em torno de 1 milhão de hectares entre pastagens nativas e cultivadas enfrentam algum estágio de degradação. Os criadores também vêm melhorando a parte genética. Existe uma planta de abates, que é um frigorífico do estado, e mais recentemente foi inaugurada uma indústria particular. Foram dez grandes produtores que se reuniram e construíram uma planta moderna com altíssima tecnologia.

A Granja – Quais são os diferenciais competitivos e os desafios para o crescimento da produção agrícola no estado?

Nicoletti – Há desafios importantes como em qualquer fronteira agrícola, mas as oportunidades para os negócios são muito boas, com espaço para empresas e pessoas que tenham vocação e experiência no agronegócio. A logística é uma das grandes vantagens competitivas da região. A BR-174, que faz a ligação entre Boa Vista e Itacoatiara/AM, é bem conservada, tem pouco movimento e não tem pedágio. Rodamos 1 mil quilômetros pela rodovia e estamos direto no porto.

E hoje praticamente toda a soja produzida no estado é exportada via Itacoatiara. A parte do licenciamento ambiental funciona bem. O clima é bem definido e as terras têm um valor bastante competitivo. Roraima vem recebendo empresários e empreendedores do Brasil todo e ninguém está esperando o poder público agir, a iniciativa privada vem trabalhando para que as coisas aconteçam. O estado tem uma infraestrutura básica para o início da agricultura, coisa que o Mato Grosso, por exemplo, não tinha quando a atividade iniciou por lá. Tem um asfalto de boa qualidade, as fazendas têm acesso facilitado. Boa Vista é uma capital bonita e bem organizada. Atualmente existe a questão da vinda dos venezuelanos, que tem gerado alguns problemas, mas também há imigrantes que conseguem trabalhar na cidade.

A Granja – Já existe uma organização de produtores, por meio de uma associação, por exemplo?

Nicoletti – Ainda não temos uma associação de produtores, mas já pensamos sobre a questão Aprosoja (Associação dos Produtores de Soja). Realizamos todos os anos um evento de abertura oficial da colheita da soja. É uma iniciativa que já está no quinto ano e existe para atrair investidores ao estado e para mostrar ao público urbano as nossas dificuldades e a importância do setor na geração de empregos e de divisas. Queremos despertar o interesse da sociedade para conhecer o trabalho da agricultura e também chamar a atenção da classe política para as nossas demandas.