Biodiversidade

A VIDA do solo é primordial aos sistemas de produção

O componente biológico, ao contrário da química e da física do solo, ainda não recebe a atenção devida, apesar de a microbiota dos solos ter relação direta com a produtividade agrícola

Engenheira agrônoma Dorotéia Alves Ferreira, mestre em Agronomia na área de concentração em Produção Vegetal, doutora em Agronomia na área de concentração em Solos e Nutrição de Plantas, e biólogo Armando Cavalcante Franco Dias, mestre em Biotecnologia, Doutorado em Ciências na Agricultura, da Andrios Assessoria e Treinamento em Microbiologia dos Solos

O sistema solo é composto basicamente por três pilares, o químico, o físico e o biológico. Vários estudos já foram desenvolvidos baseados nos dois primeiros, em diversas condições de solo, clima, sob cultivo de diversas espécies vegetais, disponibilidade de nutrientes, metodologias analíticas, entre outros. Esses avanços suportaram em elevado desenvolvimento nas áreas de química e física do solo, com vasto conhecimento que proporcionou um sólido suporte para a apropriada correção e adubação dos solos.

Biodiversidade

Os micro-organismos ou a microbiota do solo são os mais numerosos dentre os seres vivos dos solos, como a fixação biológica do nitrogênio, desempenhada por bactérias fixadoras de nitrogênio

No entanto, o terceiro componente do solo, o biológico, ainda não é explorado na mesma extensão, apesar de esse apresentar intensa relação com os demais componentes e promissor potencial de inovação nos mais variados sistemas de produção, o que o torna crucial para a melhoria tecnológica da agricultura.

A biodiversidade do sistema solo, bem como sua importância, ainda é pouco conhecida. O cenário é agravado se for observado que o conhecimento acumulado está em organismos maléficos, como os nematoides e organismos patogênicos do solo, em detrimento dos organismos benéficos ao solo e a todo o sistema de produção agrícola. Ocorre que o surgimento de problemas causados por componentes vivos do solo está, em sua grande maioria, atrelado ao de desensequilíbrio do componente biológico do solo, causado pelo manejo nas áreas de produção, que em uma busca de maior eficiência produtiva e máximo rendimento das culturas agrícolas, faz-se uso de métodos prejudiciais ao sistema vivo dos solos.

Para exemplificar o manejo conservacionista, podemos citar o plantio direto, extremamente importante para o desenvolvimento da agricultura no cerrado, e solidificado sobre os três componentes do solo (químico, físico e biológico). Em relação à biodiversidade do solo, o plantio direto atua por meio do menor revolvimento do solo, e pela maior variabilidade de culturas, proporcionada pela rotação de diferentes plantas nessas áreas. Em conjunto, essas práticas geram um ambiente naturalmente muito mais propício à manutenção da biodiversidade do que aquele encontrado em monoculturas.

Outras práticas agrícolas vêm ganhando destaque na agricultura brasileira, como o cultivo mínimo, que garante o menor revolvimento da camada superficial do solo na área total de cultivo, e os diversos sistemas de integração, como integração lavoura-pecuária, pecuária-floresta, lavoura-pecuária-floresta, e os sistemas de cultivos consorciados. Teoricamente, estas também afetam a parte viva do solo, mas estudos específicos são ainda necessários para a comprovação desses efeitos.

Desenvolvimento vegetal — A relação entre a microbiota dos solos e as plantas é extremamente íntima, visto que as plantas atuam como um sensor de atração dos organismos que irão colonizá- la, os quais, via processo evolutivo, devem ser benéficos ao desenvolvimento vegetal. Em virtude disso, torna-se necessário que o solo hospede uma elevada biodiversidade, para que o vegetal tenha condições de selecionar os microrganismos que poderão beneficiá-lo. A região próxima às raízes das plantas têm essa função de realizar a seleção e determinar a composição da microbiota, denominada de rizosfera.

Na rizosfera, ocorrem todas as interações entre os microrganismos e as plantas, desde interações benéficas ou interações patogênicas, o que apresenta forte relação com a biodiversidade do solo, a qual é consequência do manejo agrícola.

Em um solo que apresenta adequada biodiversidade, observa-se que a rizosfera abriga microrganismos que realizam diversos processos que beneficiam o desenvolvimento e proteção das plantas (Mendes et al., 2011; Raaijmakers e Mazzola, 2016), compondo o chamado escudo biológico das plantas, que as protege de todos os estresses bióticos ou abióticos. Em sistemas de baixa biodiversidade, esse escudo se torna deficitário, expondo as plantas às intempéries que podem inibir seu desenvolvimento.

Desafios no uso da biologia do solo — A área da biologia dos solos, antes extremamente negligenciada, se insere na atualidade como um importante componente de sistemas agrícolas. Isso ocorre devido ao intenso trabalho de pesquisadores e estudantes de várias instituições e universidades do Brasil, que estão buscando a transformação do que antes era apresentado com organismos pontuais e agora deve ser observado com uma visão altamente sistêmica, complexa e dinâmica, dando origem a um tecido vivo que permeia os solos, e que responde de forma rápida a diferentes estímulos.

Além de todo o conhecimento fornecido por meio da pesquisa, há uma necessidade de fazer com que essa informação seja visualizada e compreendida pelo principal dimensionador de tudo que será implantado nas áreas de cultivo, que é o produtor rural. Visando atingir esse objetivo, torna-se necessário que as características desejadas da fração viva dos solos sejam mais bem determinadas, bem como as avaliações e os resultados de análises sejam de mais fácil interpretação. Assim, os produtores poderão conhecer a biodiversidade de seus solos, e manejálos da melhor forma possível para explorar o potencial desse componente de seu sistema.

A constatação é, portanto, de que o manejo adotado nas áreas de produção influencia diretamente nos componentes do solo, afetando ou auxiliando no seu funcionamento e, consequentemente, atuando de forma indireta no desenvolvimento dos vegetais.

Relação com as práticas de manejo — A biologia do solo é composta de organismos divididos didaticamente em escalas de tamanho: os micro (fungos, bactérias e arqueías), os meso (colêmbolas, ácaros, entre outros) e os macrorganismos (besouros, cupins, minhocas, entre outros), que apresentam funções bastante diversificadas no sistema, desde a fragmentação de materiais orgânicos até sua completa decomposição, ou a degradação de contaminantes ambientais.

Os microrganismos ou a microbiota do solo são os mais numerosos dentre os seres vivos dos solos, e são os responsáveis por intensa atividade biológica no sistema solo. E os mais conhecidos por fomentarem importantes funções nos solos, como a fixação biológica do nitrogênio, desempenhada por bactérias fixadoras de nitrogênio (FBN), ou as micorrizas, que se formam pela associação dos fungos micorrízicos arbusculares com as raízes das plantas.

A obtenção de informações acerca da mensuração da biodiversidade dos solos é ponto de intensa inovação tecnológica, visto que estão se tornando cada vez mais acessíveis, representativos e interpretativos. Espera-se que o uso dos conhecimentos da biologia do solo continue em expansão, e que em um futuro próximo, esses possam fundamentar uma nova revolução na agricultura, baseada na apropriada exploração sustentável dos componentes vivos do solo e associados às plantas.