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Adubação FOLIAR: é vantajosa?

Muitos são os experimentos de diferentes pesquisadores com esse método de adubação, com diferentes respostas técnicas e econômicas

José Fernando Scaramuzza, professor associado da Universidade Federal do Mato Grosso, [email protected]

A aplicação de nutrientes na forma de fertilizantes foliares tem se tornado comum, sendo tratada de forma muito genérica ou dando uma perspectiva exagerada do efeito (Borkert et al., 1987), pois existem disponíveis no mercado inúmeros produtos comerciais contendo macro e micronutrientes (Staut, 2007). A necessidade da utilização de fertilizantes foliares em plantas deve estar associada à correção de deficiências, à complementação e à suplementação (como estimulante ou auxiliar no estágio reprodutivo) da adubação do solo (Borkert et al., 1987).

Tem-se como vantagens da adubação foliar a rápida absorção do nutriente aplicado, a alta eficiência no aproveitamento (aplicação do nutriente em época de maior necessidade), a economia operacional (pode ser feita juntamente com a aplicação de defensivos) e incrementos na produtividade a custos mais baixos (maior lucro). Já as desvantagens apresentamse como a necessidade de várias aplicações (macronutrientes: alto custo), alta exigência nutricional no início do crescimento (se a concentração do nutriente na solução for alta, poderá ocorrer toxidez) e a área foliar poderá ser insuficiente para a absorção do elemento (resultando em deficiência) e, em muitos casos, só é possível aplicar um produto de cada vez (devido à incompatibilidade,) encarecendo a atividade.

“A adubação no solo ainda deve ser priorizada”, conclui o professor José Fernando Scaramuzza

Segundo Kannan (1986), a viabilidade técnica da adubação foliar depende das características inerentes à própria folha (exemplo: cutícula, incidência de estômatos, estágio fenológico da planta, cultivares), das condições de meio externo (exemplo: temperatura do ar, umidade do solo, luminosidade), das características dos nutrientes utilizados (exemplo: mobilidade, solubilidade, compatibilidade) e das soluções aplicadas (exemplo: pH, composição, concentração dos nutrientes na solução – não deve ultrapassar a 2% de sólidos solúveis). Quanto à viabilidade econômica, Staut citado por Grãos (2014), deve-se analisar o benefício-custo da viabilidade técnica, considerandose o custo do fertilizante foliar, a dose recomendada, o número de aplicações necessárias, o custo da aplicação, a resposta em produtividade e o valor de venda do produto.

A inconsistência dos resultados com fertilizantes foliares em soja foi relatada por Borkert et al. (1987). Coelho et al. (2011) não obtiveram efeitos da pulverização foliar com B (280 g/ha) + Zn (560 g/ ha), nas formas de H3BO3 e ZnSO4.7H2O, na produção de massa seca e nem com B (280 g/ha) + Mg (300 g/ha), nas formas de H3BO3 e MgSO4.5H2O, na produtividade de soja. Pessoa et al. (1999) não obtiveram respostas na produtividade (média de 2.056 kg/ha) de soja com Mo (80 g/ha) via foliar, na forma de molibdato de amônio, aos 25 dias após a emergência das plantas. Staut (2006), avaliando características produtivas de soja, aplicando macro e micronutrientes via foliar, não obteve resultados significativos, apesar do aumento de produtividade em relação à testemunha.

Já Mann et al. (2001), testando Mn na forma de produto comercial Mangan 10 quelatizado (10% Mn) via foliar e diferentes épocas de aplicação, obtiveram as maiores produtividades (3.629 e 3.769 kg/ ha) com aplicações de Mn foliar parcelado (nos estádios V4 e V8, respectivamente, com quatro e oito trifólios com folíolos desdobrados) de 450 e 600 g/ha de Mn, respectivamente. Quando aplicaram o Mn no sulco de plantio, obtiveram a produção máxima de 3.387 kg/ha com a dose estimada de 7 kg/ha de Mn. Dourado Neto et al. (2012), utilizando 80 ml/ha de produto comercial contendo 1,2% Co e 12% Mo via foliar no período V4, obtiveram um incremento de 240 kg/ha de grãos em relação à testemunha, ou seja, quatro sacas por hectare a mais, mas a utilização desses elementos na operação de tratamento de sementes proporcionou o mesmo efeito da aplicação foliar.

Borkert et al. (1987) concluíram que não havia vantagens na aplicação foliar de nutrientes minerais em soja, e que na época a Embrapa Soja não recomendava a adubação foliar para soja. Recentemente, Staut (2007), da Embrapa Agropecuária Oeste, recomendou, quando necessário, a utilização de Mn (350 g/ha em 200 litros de água com 0,5% de ureia) e de Mo (12 a 30 g/ha) e Co (2 a 3 g/ha) aplicados via foliar entre os estádios V3 e V5. Sendo a aplicação foliar de Mo e Co, também, sugerida por Silva et al. (2011), visando reduzir o estresse salino e a ação bactericida dos sais desses elementos sobre as bactérias fixadoras de nitrogênio no tratamento de sementes.

É preciso lembrar que em muitos experimentos os resultados da aplicação de foliar de fertilizantes, em especial dos experimentos realizados em campo, podem não ser verdadeiros, uma vez que nessa situação estão sujeitos à ação do clima, como chuvas que lavam o produto aplicado nas folhas caindo diretamente no solo, onde podem ser absorvidos pelas raízes das plantas. A adubação no solo ainda deve ser priorizada.