O Segredo de Quem Faz

 

PREOCUPAÇÃO no horizonte de 2015/16

Leandro Mariani Mittmann [email protected]

O agronegócio é considerado uma ilha com vida própria (leia-se a salvo) em meio às águas revoltas da crise econômica e política que o País atravessa. Mas não haverá jeito: os efeitos danosos de tantas turbulências vão respingar no setor, lamenta o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso, a Famato, Rui Prado, médico veterinário nascido em Campo Grande e produtor de 5 mil hectares de soja, milho, algodão, girassol, milho-pipoca, feijão e sorgo, além de investir em pecuária de corte e integração lavoura-pecuária em Campo Novo do Parecis/ MT. “Infelizmente, a crise econômica que o País atravessa não nos permite sermos otimistas”, é a primeira consideração nesta entrevista.

Porém, suas análises vão além, assim como seu amplo currículo de trabalhos prestados ao agronegócio: participou da fundação da Aprosoja/MT e é presidente do Conselho Deliberativo do Senar-MT e do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea), além de outras iniciativas.

A Granja — Quais são as suas perspectivas e as dos produtores associados da Famato para a safra de verão 2015/16, tendo em vista a alta dos custos de produção e as atuais cotações embaladas pelo câmbio? Como deverá ser a rentabilidade do produtor mato-grossense?

Rui Prado — Infelizmente, a crise econômica que o País atravessa não nos permite sermos otimistas. A alta dos custos de produção e a alta cambial são justamente os fatores preponderantes para não acreditarmos que teremos mais uma safra recorde como ocorrido nos últimos anos. Aumentou o custo do dinheiro, da produção, o que redunda em menos insumos adotados pelo produtor e, consequentemente, menor plantio e colheita. Além disso, a safra começa a ser plantada agora, temos as incertezas do clima, o que pode trazer ainda mais oscilação. O lucro do produtor, se tiver, vai ser menor. E a produção também tem a tendência de ser menor.

A Granja — Que orientações ou dicas a Famato tem prestado aos seus associados para que eles façam uma safra mais barata, gastando menos, mas sem comprometer a produtividade/rentabilidade?

Prado — Três pontos precisam ser observados e digo isso com base nos estudos do nosso Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea): primeiro, é preciso buscar estratégias agressivas de comercialização dos insumos, como tentar adquirir à vista ou aumentar o volume de compras através de cooperativas ou de pools de empresas, para aumentar o poder de barganha; também é fundamental buscar o uso racional dos insumos e, para isso, mais do que nunca é necessário lançar mão de técnicas de análise de solo e controle de pragas em prol da eficiência.

Para quem puder, recomendo a adoção de técnicas de agricultura de precisão; ainda é necessário tentar o hedge cambial, em virtude do grande perigo das mudanças abruptas de câmbio. Por isso, se os insumos forem comprados em dólar, o produtor tem que tentar vender, no futuro, o produto também em dólar, fazendo o casamento das moedas.

A Granja — E o que o produtor Rui Prado tem feito para reduzir custos na safra de verão? Seja nas lavouras – em questões técnicas e tecnológicas –, assim como na questão gerencial.

Prado — Além de adotar as medidas que recomendamos aos produtores, estou com o pé no freio. Vou minimizar os investimentos para a próxima safra otimizando a utilização dos insumos, como também vou plantar apenas nas áreas propícias, nas áreas boas, nada em área marginal. Estou observando com atenção os preços nos mercados futuros e procurando fazer venda antecipada e casada com a aquisição de insumos. Também vou ficar de olho no clima para realizar o plantio só em condições muito favoráveis, evitando surpresas.

A Granja — Na sua avaliação, quais são os efeitos no campo do atual momento conturbado da política e da economia do País – leia-se Governo Dilma?

Prado — O principal reflexo é o aumento do custo do dinheiro, principalmente. E, pela instabilidade de nossa moeda e pela depreciação do real, o aumento do custo de produção também. A crise econômica é derivada da crise política no Brasil. Os últimos oito meses foram marcados pela instabilidade econômica, um verdadeiro desastre. E o reflexo é o não crescimento do Brasil, o que significa dizer que nós não estamos investindo, o que vai ser ainda mais negativo lá na frente. Eu não vejo ainda o Governo caminhar em uma direção que minimize os danos para o cidadão e, sobretudo, para o produtor rural, mesmo sendo ele o responsável por angariar saldo positivo à balança comercial. Estou vendo é cada dia se deteriorar mais ainda o que depende do Governo. Isso já colocou a perder o rate do risco do Brasil, o que vai ocasionar o aumento dos juros para o produtor.

A Granja — Qual a sua avaliação da gestão da ministra da Agricultura, Kátia Abreu? Ela tem atendido as demandas do produtor rural?

Prado — Ela é uma profunda conhecedora da realidade do produtor rural brasileiro, afinal, advém do setor, como presidente da CNA. E tem se mostrado muito persistente na busca por conquistas para a agropecuária. Ela conseguiu aumentar o crédito rural. Mesmo havendo atraso, o volume de recursos foi maior (apesar de, como são comercializados em dólar, o poder de compra dos insumos diminuir por conta da desvalorização do real). Também tem buscado as relações internacionais para vender as potencialidades agropecuárias do Brasil lá fora. Tem centrado forças para melhorar as condições logísticas no País, inclusive em Mato Grosso. Quando esteve em Lucas do Rio Verde/MT, recentemente, na Abertura da Colheita do Milho, ela anunciou a construção de um instituto federal de ensino voltado para técnicas agropecuárias. Na mesma ocasião, também destacou o trabalho do Governo em prol da implantação da ferrovia que ligará a cidade, centro de nossa região produtora, ao porto de Miritituba, no Pará. Portanto, entendo que seu trabalho tem sido fiel às necessidades do setor do qual se origina.

A Granja — Nessa linha, quais seriam suas sugestões para o ministério ser mais efetivo no apoio ao produtor e ao agronegócio brasileiro como um todo?

Prado — Nesse momento me vem à cabeça a Farm Bill, a lei norte-americana que é um programa de governo muito mais eficiente e duradouro do que o nosso Plano Safra, anunciado todos os anos no Brasil. Nosso País deveria se inspirar nessa lei para tomar as decisões quanto às políticas agropecuárias, pois ela não se limita apenas ao anúncio de valores para crédito e custeio. A Farm Bill é planejada para quatro anos consolidando todos os programas voltados à política agrícola e à questão alimentar do país. Não é à toa que os Estados Unidos ainda são o campeão na produção agrícola mundial, embora a potencialidade brasileira seja do mesmo tamanho. Infelizmente, o setor ainda é tratado como “patinho feio” por quem governa o Brasil.

A Granja — Independentemente do atual momento da economia e do agronegócio, que outros problemas e dificuldades enfrentam os produtores do Mato Grosso? A questão logística, um importante entrave ao desenvolvido do estado, tem sido equacionada?

Prado — Esse é justamente o “calcanhar de Aquiles” da produção agropecuária mato-grossense, fora as questões econômicas, mas com impacto direto nas finanças dos produtores. Porém, esse problema, que a meu ver nunca foi tratado com a merecida perseverança pelos governos em geral, sobretudo o Federal, parece estar ganhando um fôlego com a associação da iniciativa privada. Ainda não na velocidade que deveria, mas já caminhando. Estamos experimentando a concessão da BR 163, por exemplo, principal corredor de escoamento da produção de grãos do estado, a uma empresa que já duplicou parte da rodovia e recuperou outra parte dentro do trecho concedido. A qualidade já melhorou muito. E o produtor não se importa em ter o valor pago em pedágio revertido para o custo, pois a garantia de trafegabilidade é o que importa. A mesma iniciativa está sendo adotada pelo governo estadual em alguns trechos, inclusive com a parceria dos produtores rurais. Porém, não basta apenas recuperar rodovias, temos que, definitivamente, implementar a intermodalidade dos transportes, com as hidrovias e as ferrovias. Isso precisa avançar o quanto antes, precisamos ver o movimento dos governos nesse sentido. Outro problema grave de logística é a capacidade de armazenamento do estado. Como não há armazéns em quantidade suficiente, temos a necessidade de escoar com mais rapidez a produção, o que impacta na maior necessidade de frete e, consequentemente, na qualidade das rodovias. Acaba sendo um círculo vicioso enquanto não há soluções efetivas. A falta de mão de obra qualificada é outro desafio a ser vencido no campo, sobretudo quanto ao emprego de tecnologia. As máquinas hoje são verdadeiros computadores e encontrar profissionais qualificados para tirar todo proveito delas é um problema. Temos uma estimativa de que até 2020 precisaremos de 1 milhão de pessoas capacitadas para atuar nas atividades agropecuárias. Hoje, temos cerca de 600 mil. Isso pelo menos é uma coisa positiva, o campo tem muita oportunidade, enquanto a cidade padece com o desemprego. Basta o interesse em se qualificar e apostar na atividade.

A Granja — Que outras considerações, até apelos, o senhor gostaria de fazer em relação ao Mato Grosso, ao agronegócio brasileiro, nesta arrancada da safra 2015/16?

Prado — Ouvi, recentemente, em uma fala do ex-ministro Roberto Rodrigues, um agricultor convicto, que o Centro-Oeste é “o Maracanã do agronegócio mundial e que aqui será jogada a final do campeonato mundial por alimentação”. Essa frase expõe exatamente o potencial que nosso país e a nossa região detêm para alimentar o mundo. Porém, infelizmente, por adoção de políticas tortas e por mensagens ideológicas desvirtuadas, o setor não consegue ser tratado com a consideração que merece neste país. Estamos vivenciando uma grave crise econômica que advém de uma ainda mais grave crise política, sobretudo de descrédito dos homens de vida pública, e a única atividade que ainda mantém o resultado positivo na balança comercial é o agronegócio. Sendo assim, quero dizer que já basta o tempo de não valorizar esse negócio como precisa ser valorizado. Já não é mais possível tratar a atividade com políticas de segundo plano, pensadas por estrategistas de segundo escalão. Fora isso, destaco a importância do investimento na educação do povo brasileiro. Temos uma deficiência grande na formação básica escolar da população e o campo sofre mais ainda com isso, porque, se na cidade é ruim, no interior a situação é duas vezes pior. Oferecer educação básica de qualidade à população rural brasileira é garantir a ela a oportunidade futura no trabalho no campo mesmo, já que o setor detém uma grande demanda por gente qualificada e que queira viver no campo. E estamos trabalhando, pelo menos fazendo nossa parte, para mudar essa realidade, por meio do Senar-MT, o nosso Serviço Nacional de Aprendizagem Rural. Além de oferecer nossos cursos de qualificação gratuitos a mais de 40 mil pessoas/ ano no estado, a entidade começa a se mexer para tentar melhorar a educação básica da população rural. E esse é o mais eficiente caminho para melhorar a condição de vida do nosso povo, a educação.