Capim-Amargoso

 

Um COMPETIDOR desigual e danoso

Estudo com a soja GM tolerante ao glifosato apontou perdas médias de 65% na produtividade em função da competição com o capim-amargoso

Daniel J. Soares e Ramiro López-Ovejero, da Regulamentação da Monsanto do Brasil

O capim-amargoso (Digitaria in sularis, L., Fedde) é descrito na literatura como uma planta daninha nativa de regiões tropicais e subtropicais do continente americano. No Brasil, essa planta pode ser encontrada praticamente em todas as regiões, tanto em áreas agrícolas onde se tem os cultivos anuais e perenes, quanto em áreas não-agrícolas, como em terrenos baldios e áreas adjacentes a rodovias. O capim- amargoso não é de ocorrência exclusiva do Brasil, uma vez que em outros países da América do Sul, da América Central e da América do Norte também é reportada a sua ocorrência.

Essa planta daninha é uma gramínea perene, ereta, que apresenta caule subterrâneo do tipo rizoma e colmos aéreos cilíndricos e caniculados atingindo a altura de até 1,5 metro. Durante seu crescimento e desenvolvimento, forma touceiras e pode se propagar vegetativamente pelo rizoma. Na fase sexuada, as panículas são muito vistosas e apresentam alta produção de sementes que, por serem pilosas, são facilmente transportadas pelo vento e por máquinas agrícolas (Kissmann, 1997; Lorenzi, 2000; Moreira, 2010; Carvalho, 2011). Em uma mesma touceira, ocorrem vários fluxos de florescimento, sendo que um fluxo pode produzir em média de 6,5 mil sementes por planta.

Como muitas gramíneas, é uma planta de ciclo fotossintético C4, cujo aproveitamento da luz solar e resposta fotossintética são maiores em condições ambientais de alta irradiância e temperatura elevada (Kissmann, 1997). Como essas condições são comuns durante a safra agrícola de verão no Brasil, a espécie encontra condições ideais para seu crescimento, desenvolvimento e reprodução. Além disso, as plantas desenvolvem- se bem em solos com alta ou baixa fertilidade, reproduzindo-se o ano todo.

O capim-amargoso apresenta seus principais fluxos de germinação-emergência nos períodos de primavera-verão. Num estudo de monitoramento do fluxo de emergência realizado no município de Santa Cruz das Palmeiras/SP durante o período de setembro de 2010 a maio de 2012, foi observado que 60% de todas plantas que emergiram nesse período ocorreram dentro dos meses de dezembro e janeiro. Outros estudos na literatura demonstraram que 75% das sementes de capim-amargoso emergem quando presentes nas camadas de 1 a 3 centímetros de profundidade do solo e que a máxima germinação ocorre na faixa de 20°C a 35°C de temperatura, independente da presença ou ausência de luz (Martins, et al., 2009; Mondo, et al., 2010).

Interferência nos cultivos — O capim-amargoso, como qualquer outra planta daninha, pode interferir negativamente nas culturas agrícolas de interesse quando compete diretamente por recursos limitados do meio, como água, luz, nutrientes e espaço (Pitelli, 1985). Relatos na literatura mostram que, em termos médios, 30% a 40% de redução da produção agrícola mundial são atribuí- Fotos: Divulgação A GRANJA | 75 dos à interferência das plantas daninhas (Lorenzi, 2006). Em um estudo de campo realizado durante a safra 2010/2011 em Colina/SP na cultura da soja geneticamente modificada tolerante ao glifosato, a perda na produtividade em função da competição do capim-amargoso foi em média de 65%. A interferência do capim-amargoso pode ser mais ou menos intensa, dependendo do seu manejo como planta daninha.

Métodos de controle — Dentre os métodos de controle de plantas daninhas disponíveis atualmente, o controle químico por meio de herbicidas, por uma série de fatores já conhecidos, é o mais utilizado. No mercado, vários herbicidas estão registrados para o controle do capim-amargoso em diversas culturas. São mais de 12 ingredientes ativos distribuídos em pelo menos sete mecanismos de ação diferentes (Ministério da Agricultura, 2012). Para se ter sucesso no controle dessa planta daninha, além de considerar todas as boas práticas agrícolas, alguns aspectos, como o estádio fenológico da planta e a época de aplicação do herbicida, são muito importantes.

No caso do glifosato, algumas pesquisas relataram que, mesmo em áreas onde há uma intensa pressão de seleção pelo herbicida, as plantas originárias de sementes são controladas quando jovens. Contudo, quando elas se desenvolvem e formam rizomas, seu controle é ineficiente. Uma das explicações é que a reserva de amido acumulada nos rizomas do capim-amargoso dificulta a translocação do glifosato e permite uma rápida rebrota da parte aérea após sua aplicação. Dessa forma, o melhor período para controle dessa espécie seria até os 35 dias após a emergência, antes da formação dos rizomas (Machado et al., 2006; Machado et al., 2008; Carvalho, 2011).

Quanto à época de aplicação, em um estudo de campo realizado no município de Santa Cruz das Palmeiras, observou- se que as plantas que emergiram e se desenvolveram na entressafra e foram roçadas no início do verão apresentaram quase o dobro de raízes em relação à parte aérea do que as plantas que não foram roçadas. Em outras palavras, uma situação que propicie o desenvolvimento das touceiras e o crescimento dos rizomas do capim amargoso torna o seu manejo mais difícil, além de permitir o aumento da quantidade de sementes na área.

Como boa prática de manejo, o controle químico com outros mecanismos de ação deve ser utilizado. Dentre os herbicidas registrados, além do glifosato, são citados na literatura com bons resultados os herbicidas graminicidas sistêmicos (cletodim, setoxydim, haloxyfop, fluazifop, cletodim + fenoxafrop, tepraloxydim), os herbicidas com ação de contato (paraquat, diuron + paraquat, amônio-glufosinato) e herbicidas préemergentes com ação residual (alachlor e s-metolachlor) aplicados de acordo com as recomendações dos fabricantes (Adegas et al., 2010; Melo et al., 2011).

Medidas de prevenção — Por fim, as medidas para prevenir a resistência do capim-amargoso aos herbicidas são, na verdade, boas práticas agronômicas e, segundo os órgãos oficiais de pesquisa, podem ser resumidas no seguinte:

- Fazer manejo de pousio;
- Realizar rotação de cultura;
- Realizar dessecações na fase inicial de desenvolvimento, antes da primeira floração, para a fase vegetativa (15 a 20 centímetros de altura), até no máximo quatro perfilhos;
- Utilizar as doses corretas dos herbicidas, utilizando mais de um mecanismo de ação;
- Realizar dessecação antecipada ao plantio na dose correta, viabilizando, no caso de escapes de plantas resistentes, a complementação do controle com outros mecanismos de ação;
- Monitorar as áreas, evitando que as plantas não controladas produzam sementes;
- Manter sempre boa cobertura do solo nas áreas de plantio direto, investindo em culturas de inverno ou culturas de cobertura, visando supressão da germinação de plantas daninhas;
- Utilizar herbicidas com ação residual.

O capim-amargoso é uma gramínea perene, ereta, de caule subterrâneo do tipo rizoma e colmos aéreos cilíndricos e caniculados que atinge até 1,5 metro e, durante seu crescimento e desenvolvimento, forma touceiras