Gargalos competitivos da cadeia produtiva da carne bovina brasileira

A cadeia produtiva de carne bovina conecta sistemas produtivos, fornecedores de
serviços e insumos, indústrias de processamento e transformação, distribuição e
comercialização de produtos e subprodutos, e seus respectivos consumidores finais. Os agentes que compõem essa cadeia diferem muito entre si, de pecuaristas altamente capitalizados a pequenos produtores empobrecidos; de frigoríficos com alto padrão tecnológico, capazes de atender demandas exigentes, a abatedouros que não cumprem o mínimo da legislação sanitária. A seguir, são elencados os principais gargalos de cada etapa da cadeia da carne bovina.

Pecuaristas:

- Incerteza sobre a venda: a falta de clareza na definição do rendimento de
carcaça e do valor pago.
- Cisticercose e carrapatos: parcela significativa da carne é descartada por conta
de cisticercos. Carrapatos são o problema sanitário mais comum no país e também
geram perdas significativas.
- Retorno sobre investimento: pecuaristas não são habituados ao cálculo do
retorno sobre o investimento, o que fica claro nos ciclos produtivos que são os mais
longos do mundo.
- Desinteresse em rastreabilidade: não há estímulo para implantar a rastreabilidade.
- Assimetria de informação: a sanidade da maioria dos animais somente se revela
no momento do abate (saúde, dieta hídrica, prazo de carência pós vacinação).
- Qualidade da cobertura (sêmen): baixa utilização de material genético
melhorador de rebanhos.
- Falta de referência de acabamento: animais na sua maioria oriundos de sistemas
extensivos com pouca capa de gordura. Raramente há um período de acabamento.
- Animais não castrados: a prática comumente usada para aumento de peso de
machos é deixar o animal inteiro, não castrado, abatido com 4 anos em média e com
problema chamado “carne escura”, o qual tem grande incidência.

Transportadores de animais vivos:

- Altos índices de lesões ou stress: pela não aplicação das boas práticas de transporte, prejudicando a percepção de qualidade dos consumidores sobre o processo como um todo.
- Longas distâncias percorridas: A escassez de animais em determinadas localidades aumenta as distâncias percorridas entre a fazenda e o frigorífico, em um sistema rodoviário mal conservado.
- Trabalhadores mal treinados: trabalhadores mal treinados e que não dão importância ao seu trabalho contribuem para a incidência de lesões durante o transporte.
- Equipamentos antigos: caminhões boiadeiros antigos, carrocerias defeituosas e inadequadas e rampas sem as adequações necessárias geram stress e lesões aos animais.

Frigoríficos:

- Faltam animais para o abate: os longos ciclos de produção inviabilizam a operação de muitas plantas frigoríficas no país pois geram grande ociosidade.
- Carne escura: carne de animais inteiros e mais velhos, com mais enzimas e com data de validade menor, pouco apreciada pelos consumidores e de baixo valor agregado.
- Falta de previsibilidade do setor: existe uma dificuldade de antever acontecimentos que podem impactar o fluxo de suprimentos e distribuição.

Armazéns:

- Sazonalidade de ocupação: a ocupação dos armazéns está muito ligada aos períodos de safra e entressafra.
- Segurança e práticas de PEPS: tratando-se de um produto altamente perecível e de alto valor agregado, é necessário que o controle de entrada e saída seja rigorosamente executado.
- Insegurança de investimentos: o negócio é altamente dependente das operações dos frigoríficos.
- Tempo aguardando no pátio: caminhões e carretas passam dias ocupando áreas de manobra ou entorno dos supermercados incorrendo em perdas de tempo e produto.
- Problemas nas docas ou falta delas: a vedação das docas é inadequada ou inexistente, fazendo com que os custos com energia sejam elevados.
Perda de produtos por falta de frio ou roubo: perdas de produto por falta de frio no caminhão ainda é uma realidade da logística de carne no Brasil, assim como o alto volume de cargas roubadas.
Falta de infraestrutura viária: A falta de infraestrutura onera a matriz de custos logísticos sendo que caminhões estragados são um dos grandes motivos para perda de cargas.

Transporte de carne:

- Expositores defasados e sem práticas de economia de energia: grande parte das instalações dos supermercados está obsoleta.
- Volume de devoluções: os índices de devolução são altos, relacionados a manuseio, pois falta orientação aos consumidores sobre como manusear as embalagens de carne.

Supermercados:

- Falta de percepção de qualidade: a comunicação é feita de maneira ineficaz com os consumidores, pois não entrega o conjunto de informações que capturam valor, contribuindo para a falta da percepção de qualidade.
- Falta de atributos de diferenciação: são poucas as iniciativas de diferenciação de cortes de carne e baixa industrialização do produto visando a atender os consumidores que buscam praticidade e preparo rápido e fácil.
- Faltam informações de manuseio: faltam informações sobre o manuseio da carne e orientações de preparo.

Consumidores:

- Falta de percepção de qualidade: a comunicação é feita de maneira ineficaz com os consumidores, pois não entrega o conjunto de informações que capturam valor, contribuindo para a falta da percepção de qualidade.
- Falta de atributos de diferenciação: são poucas as iniciativas de diferenciação de cortes de carne e baixa industrialização do produto visando a atender os consumidores que buscam praticidade e preparo rápido e fácil.
- Faltam informações de manuseio: faltam informações sobre o manuseio da carne e orientações de preparo.

Posto isso, é de fundamental importância a criação e fortalecimento dos diálogos entre os agentes envolvidos na cadeia produtiva da carne bovina. A integração e coordenação do setor é extremamente necessária e estratégica para a solução de problemas de causa e efeito que perpassam toda a cadeia de valor. É preciso romper a cultura demarcada pela falta de relacionamentos sistêmicos e avançar em modelos colaborativos em rede.

Data: 14/09/2020
Fonte: Embrapa

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