Braford chega ao Maranhão e expande horizonte para o sangue Hereford

O trabalho das raças taurinas nos trópicos é estratégico e expansivo no atual processo de tecnificação da bovinocultura de corte, não só no Brasil, como em toda a América Latina. Em meio a tantos dotes, quase sempre visando o casamento com alguma raça zebuína, elas conferem produtividade e rentabilidade a inúmeros modelos de exploração. Muitos são os agentes concluindo que, sem elas, a carne brasileira não deixará para trás o perfil de commodity com a rapidez que o mercado demanda, principalmente o internacional.
Neste contexto, Hereford e Braford trabalham com esmero, passo a passo, rumo a uma posição de protagonistas. Pelo cruzamento industrial, seguem popularizando atributos e ganhando cada vez mais espaço na produção nacional de proteína vermelha de excelência. Por exemplo, elas contam com grande incentivo por meio do Programa Carne Pampa, a primeira a ser lançada entre todas as raças, com mais de 20 anos de existência. Em 2018, abateu mais de 50 mil bovinos, registrando crescimento na casa dos 20% em relação a 2017.

Para entender o salto, primeiro é preciso compreender este cenário de oportunidades. Os zebuínos têm a rusticidade para a criação nos trópicos, mas faltam-lhes genes em volume para replicar na produção de carne de qualidade. Isso nem os zebuinocultores discutem até as últimas consequências. Mas a chamada por rusticidade é condição indispensável para a produção econômica. Conscientes disso, os fomentadores das raças Hereford e Braford encontram seus pontos comuns de interesse, acima dos individuais e promovem o gado com os pés no chão. Os frutos estão maduros e a colheita está em andamento.

As raças crescem sem grandes percentuais nos seus quadros de registros, destaque para o Braford com mais de 10% de incremento. Ao todo são quase 50 mil animais registrados (números de 2018). A expansão modesta, próxima da estabilidade, principalmente na criação do Hereford, deve-se ao fato de que “os produtores comerciais não se utilizam sistematicamente dos benefícios da Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB) como associados”, segundo análise de Zilah Cheiuiche, superintendente de registro genealógico das raças. Fato é que elas crescem até memso em um Estado como o Maranhão, uma fronteira recente de prosperidade no agronegócio nacional, ainda sem a devida visibilidade na mídia eletrônica.

O caminho das pedras

Para o presidente da Associação Brasileira do Hereford e Braford (ABHB), Luciano Dornelles de Dorneles, “é sempre importante salientar a importância do cruzamento industrial para a bovinocultura de corte, uma vez que o encontro de zebuínos e taurinos gera um fenômeno conhecido como heterose, um choque de sangue e encontro de complementariedades que incrementam de 15 a 20%, em média, o resultado econômico da atividade”. Segundo entendimento unânime de técnicos do setor, é maior a produtividade e, consequentemente, a rentabilidade, por meio do aumento da taxa de desfrute dos animais com mais precocidade e peso, além de eficiência nos quesitos alimentar e fertilidade. Trata-se de uma sequência de características positivas a favor da estratégia.

Uma delas é o temperamento do Hereford, de alta herdabilidade e, por isso, também um atributo do Braford. Mansidão é fundamental na lida do campo e no seu desempenho, pois animais menos agitados ganham mais peso e são imbatíveis na terminação em confinamento. Outro ponto importante é que a docilidade deposita mais qualidade no produto final: a carne. Estudos mostram que a reserva de glicogênio nas células dos músculos é vital para um pH abaixo de 5,5 na câmara frigorífica. No abate, a adrenalina gerada por todo o processo reduz a presença da substância e impede que o pH caia para os níveis necessários à maciez e coloração. Logo, quanto mais manso o animal, menos adrenalina ele vai distribuir no sangue e na musculatura.

Dorneles entende que, “as raças se encaixam muito bem, uma vez que trazem os benefícios produtivos dos taurinos acrescidos da consagrada qualidade da carne selecionada na ilha britânica. Além disso, a Braford ainda contribui com a rusticidade necessária, preservando grande parte dessas virtudes para serem difundidas no Brasil, além da região Sul, validada pelos resultados na cobertura a campo. É em função do desempenho que as duas raças têm se destacado entre os pecuaristas que se tecnificam no País”, explica o dirigente.

Miguel Ferreira, inspetor técnico da ABHB em SP, MG, SC, RS e SE cumpre uma rotina bem definida em termos de parâmetros. Saindo do Sul, o uso do Hereford é por meio de inseminação artificial, para a produção de carne de qualidade já na F1. Com fêmeas hábeis e precoces, indica Braford ou Brangus para uma F2 (tricross) totalmente terminal. “Neste desenho, a heterose é máxima e garante continuidade da estratégia”, explica, lembrando que a cobertura a campo, na segunda etapa é bastante indicada.

Ferreira, porém, não é muito condescendente com modelos de exploração que não entendam que a produção de forragens nas fazendas deve ser tratada como cultura agrícola. “Sei que existem uma infinidade de pastagens degradas e das limitações que envolvem grande parte dos produtores, mas é preciso trabalhar para combater esses modelos, levando recursos para tecnificação e um intenso trabalho de transferência de tecnologia. Como técnico faço isso o tempo todo. Tudo depende mais de planejamento e boa vontade”, garante.

Cruzamento industrial

Celso Jaloto Ávila Júnior, vice-presidente de Promoção das Raças constrói um cenário dessa prática tão controversa e que os pecuaristas brasileiros, antropofagicamente, tentam escrever novas linhas. Para ele, nos últimos dez anos, o cruzamento industrial retomou com muita força, depois do fiasco de 20 anos atrás. Porém, algumas dúvidas permanecem, como o grau de sangue necessário para produzir uma carne diferenciada e como prosseguir com uma base sólida e produtiva de fêmeas que garantam a sequência do projeto. “Quem não responde a essas questões, inevitavelmente, tem problemas, principalmente do Brasil Central para cima”, explica.

Para Jaloto, o primeiro erro é fazer cruzamento industrial sem comida. Sem nutrição adequada, o animal cruzado vira “tucura” ou “gabiru”, como se define animais sem pelagens identificáveis e com o desenvolvimento comprometido. Aliás, nenhum animal conhecido produz com deficiência alimentar. Outro entrave é o que fazer com as fêmeas meio-sangue. Hoje, há inúmeras fórmulas produzidas e promovidas por diversos agentes, das mais variadas procedências e vínculos. Mesmo assim, a pergunta ainda é difícil de responder.

Data: 09/09/2019
Fonte: Revista AG

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