TE/FIV

PECUÁRIA COM PRECISÃO

Técnicas de reprodução animal, além de agilizarem a produção do rebanho, transferem aos animais características desejáveis para quem busca alta genética na pecuária

Adriana Ferreira

O melhoramento genético de rebanhos e o rápido aumento da produção proporcionados pelo uso da transferência de embriões (TE) e da fertilização in vitro (FIV) fizeram com que essas técnicas da biogenética se disseminassem entre os produtores brasileiros. O cenário globalizado e competitivo do mercado, em que apenas os criadores com alta produtividade e qualidade se mantêm, certamente justifica essa adesão. O Brasil é hoje o segundo País, juntamente com o Japão, quanto ao número de transferências de embriões, sendo precedidos, apenas, pelos Estados Unidos. Em 2004, foram transferidos mais de 110 mil embriões bovinos produzidos in vivo por ano, de acordo com dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Tecnologia de Embriões (SBTE). Esse número representa em média 50% dos embriões coletados in vivo e transferidos no mundo (aproximadamente 260 mil por ano).

São feitas, no País, mais de 110 mil transferências de embriões por ano (83 mil produzidos in vitro), que representam 62,5% do total de 260 mil embriões produzidos in vivo e in vitro, mundialmente, conforme informações da SBTE. As raças mais reproduzidas no País são as zebuínas, sendo 90% nelore, pois ele se adapta muito bem às características climáticas do Brasil, explica Jorge Nicolau Neto, da empresa Embrionic. Quando se fala em transferência de embriões, não se trata de algo recém-descoberto, pois a primeira transferência ocorrida com sucesso em um bovino ocorreu em 1951, nos Estados Unidos. Com a revolução tecnológica da engenharia genética ocorrida no início dos anos 70, a TE consolidou-se em todo o mundo, chegando ao Brasil em 1977, realizada em Sorocaba/SP, pela equipe do dr. Jorge Nicolau Neto.

MAS O QUE É TE?

O método consiste em superovular uma fêmea doadora, por meio da utilização de hormônios, para que os óvulos sejam fecundados, naturalmente (cruzamento) ou artificialmente (inseminação) e transferidos para as fêmeas receptoras que apenas emprestam sua barriga para gestar o futuro feto. A técnica permite com grande eficiência e velocidade o crescimento e a produtividade dos plantéis, aumentando o número de crias de uma vaca com grande potencial genético, num curto espaço de tempo. Ou seja, uma vaca que, no processo normal de reprodução teria um bezerro por ano, passa a ter uma cria por mês. “Com a vantagem de obter filhotes da melhor fêmea com o melhor macho”, ressalta o pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Maurício Machaim Franco.

Entretanto, ele faz uma ressalva: “Em princípio, tanto a TE quanto a FIV somente devem ser empregadas em animais que possuam alto valor genético e conseqüentemente alto valor comercial. A rápida multiplicação das crias desses animais barateia o seu custo e dilui o investimento feito com o uso das técnicas”. Outro fator determinante para o sucesso dos resultados é que o pecuarista tenha clareza sobre os objetivos que pretende atingir quando busca esses recursos, adverte Nicolau.

As necessidades são diferentes: o criador de gado de corte deseja aumentar a precocidade dos animais, já o produtor de gado de leite quer basear sua seleção em animais que tenham maior potencial leiteiro, enquanto os criadores de elite perseguem o ganho genético que, com o uso bem orientado das biotecnologias, pode ser acelerado. Em todos os casos, torna-se essencial a orientação de profissionais qualificados e a adesão do pecuarista a programas de melhoramento genético, para que o processo seja bem conduzido. “Quem certifica a capacidade de uma matriz em transmitir para seus descendentes as características que o criador deseja é o programa de melhoramento”, afirma Franco. Os animais gerados por esses métodos podem ser futuros doadores de embrião e reprodutores ou ainda podem alcançar valores altíssimos em feiras e leilões.

BIOGENÉTICA NÃO É PANACÉIA

Os especialistas alertam para o fato de que esses recursos da biogenética não podem obter êxito isoladamente. Existem condições prévias para se iniciar qualquer programa de melhoramento genético e reprodução do rebanho. “É preciso haver na propriedade um bom sistema de manejo nutricional, um programa sanitário adequado e ainda, no caso da adoção da TE, a fazenda deve ter uma estrutura física mínima, como um bom curral, um brete de contenção e um laboratório com condições sanitárias básicas, além, é claro, de uma mão-de-obra qualificada”, ensina o pesquisador da Embrapa.

Por isso, o primeiro passo, quando se pretende iniciar um programa de TE ou de FIV, é buscar a orientação de um especialista, pois só ele poderá avaliar as condições existentes na propriedade e as medidas a serem implantadas. Nicolau Neto afirma que, apesar de todo o avanço ocorrido na pecuária nacional, ainda há sérios problemas sanitários a serem vencidos. “A brucelose e a tuberculose, por exemplo, têm crescido.” Segundo ele, isso é um reflexo de uma tendência entre os produtores em economizar com mãode- obra, dispensando muitas vezes a orientação de veterinários e profissionais qualificados.

Na seqüência, o estágio mais importante do processo é a seleção das doadoras, que podem ser vacas ou novilhas, devendo ser os melhores animais da criação. O melhor é optar, sempre que possível, por novilhas. Mas se a escolha for por vacas, que estas tenham um histórico reprodutivo onde não conste nenhum problema. Esses animais devem possuir as características que se quer transmitir aos descendentes. A doadora não pode estar prenha, deve ter cios regulares e normais.

A escolha das receptoras também merece atenção especial, pois são elas que farão com que o embrião se desenvolva durante o período da gestação e devem ter um parto sem complicações, além de amamentar bem o bezerro, propiciando o máximo de desenvolvimento do animal nessa fase. A receptora precisa ser dócil, ter capacidade de produzir leite e de preferência ter uma estrutura grande para facilitar o parto. Geralmente, são usadas como receptoras as girolandas e os animais meio sangue, resultantes do cruzamento do nelore com alguma outra raça, como as meio sangue simental e as fêmeas pardo-suíço.

Todas as receptoras devem apresentar exame negativo de tuberculose e brucelose, e serem regularmente vacinadas contra leptospirose e IBR, dependendo do esquema de vacinação adotado na região. O mais indicado é comprar novilhas vazias e de preferência que ainda não estejam apresentando cio, evitando assim a compra de “descarte” – animais que não emprenharam no criatório de origem e por isso estão sendo vendidos. Em relação ao número de receptoras, é importante ter uma quantidade razoável para poder escolher as melhores no dia da transferência. Um bom número seria de 10 a 15 receptoras para cada doadora.

Segundo cálculos de Carlos Fernando Marins Rodrigues, proprietário da Gertec Embriões, uma coleta de embriões tem um custo médio de R$ 600,00. “Se dividirmos esse valor por 7,2 embriões gerados, temos R$ 83,00 por embrião. Considerando um índice de 60% de viabilidade dos mesmos, obtemos cerca de quatro prenhezes a um custo de R$ 150,00 cada”, exemplifica.

DESMISTIFICANDO A TE

Como em qualquer outra técnica, a TE apresenta algumas limitações que o pecuarista deve discutir com a empresa ou o profissional responsável pelo serviço a fim de equacionar o custobenefício da operação. A TE não permite a produção de animais em larga escala. Eventualmente, também podem surgir problemas com incidência de gêmeos, seguido de distocias (problemas no parto). Nicolau Neto afirma que a incidência do problema é pequena e ocorre principalmente com embriões congelados. “Por algum descuido no manejo e transporte dos embriões congelados, eles podem quebrar-se dentro do frasco, fazendo surgir os gêmeos.” Outro risco existente é aumento da endogamia no plantel (animais com o mesmo sangue).

Equipe da Vitrogen com Daniel Dayan (centro) mercado de biotecnologia possui uma cadeia produtiva extensa

A primeira etapa da TE consiste em provocar a superovulação na vaca. O veterinário utiliza o hormônio folículo estimulante FSH (hormônio hipofisário). Normalmente, uma vaca produz apenas um óvulo, mas com esse estímulo o animal produz cinco ou mais óvulos. Porém existe uma variação individual muito grande quanto ao número de embriões produzidos por cada doadora. Nessa fase, a doadora apresenta cio (devido à aplicação de prostaglandina), sendo inseminada em horários predeterminados, utilizando dois, três ou quatro inseminações, de acordo com a qualidade do sêmen, que foi previamente avaliado. A coleta acontece após sete dias das inseminações. Faz-se a coleta utilizando um cateter transvaginal e meios específicos que proporcionam a manutenção e o desenvolvimento embrionário mesmo fora do útero. O meio resultante da coleta é processado em laboratório e com um microscópio estereoscópico “lupa” e as estruturas são classificadas em: embriões viáveis, aptos à TE ou ao congelamento; embriões degenerados, não viáveis, e óvulos não fecundados.

Técnicas de biogenética estão se disseminando na pecuárioa brasileira

A coleta é feita com a infusão de um líquido chamado PBS, dentro do útero da doadora. Esse líquido é, então, retirado por meio de massagens no útero e vai para um filtro desenvolvido para este fim e que retém os embriões. Esse procedimento é realizado diversas vezes, até que não restem mais embriões no útero. O filtro é levado ao laboratório, onde com o auxílio de um estereomicroscópio procuram-se os embriões no material retirado do útero e após encontrados são recolhidos e depositados em uma placa de petri. Feita a separação entre degenerados e os óvulos, restam os embriões vivos, (viáveis), que são classificados quanto a sua qualidade e estágio de desenvolvimento. Depois dessa etapa, os embriões são transferidos para as receptoras e após 45 dias é realizada a confirmação da prenhez.

Os animais que tiverem prenhez positiva irão para o lote de prenhas e as receptoras que não emprenharam voltam ao lote de vazias para receber outro embrião. A operação de coleta na doadora pode ser repetida a cada 60 dias, podendo ser feita por um ano ou mais, dependendo das condições do animal. Caso não haja um número suficiente de receptoras, são congelados os embriões excedentes.

Entre 20 e 25 dias, o veterinário retornará ao local para verificar se os processos deram certo. O exame é feito com aparelho de ultra-sonografia. A tela mostra o útero e a presença de um, dois ou mais fetos. Uma fêmea pode produzir de 10 até 50 filhos num único ano. Isso porque uma boa matriz pode passar por quatro coletas no ano, rendendo entre 10-15 produtos viáveis por coleta. O normal, no entanto, em operações de rotina, é obter de quatro a dez produtos por coleta. Pode-se ter como parâmetros médios que cada coleta resulte em seis embriões viáveis (50% do total) e 70% a 75% de prenhez.

DESVENDANDO A FIV

Diferentemente da TE, na FIV o embrião é produzido in vitro, em laboratório. Em vez de estimular a ovulação da vaca, para que ela produza os embriões naturalmente, o profissional acessa o ovário do animal e aspira os oócitos (óvulos imaturos). O material coletado da vaca e do touro segue para o laboratório, onde passa por um processo de maturação, capacitação espermática, fecundação dos oócitos e cultivo de embriões, até que atinja o estágio de blastócisto (fase em que os embriões estão prontos para serem transferidos para as receptoras). Exatamente por isso o método é muito utilizado em doadoras com problemas reprodutivos, que não respondem aos processos normais de superovulação, e animais gestantes.

No Brasil, atualmente são transferidos cerca de 41 mil embriões, oriundos de FIV, isso equivale a 50% dos embriões de FIV no mundo. A FIV também é uma técnica fundamental para o uso de todas as novas biotécnicas da reprodução animal, pois através dela é possível produzir embriões pré-sexados e embriões ou zigotos em vários estágios de desenvolvimento, para os estudos de transgênese e clonagem. Também tem sido sugerido o uso da FIV para analisar o potencial reprodutivo de touros, avaliando com mais precisão a fertilidade de um reprodutor, segundo informa o professor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp/ Botucatu/SP

É possível obter um grande avanço genético quando se utiliza essa técnica, através da coleta em animais prépúberes, pela diminuição do intervalo entre gerações. “Pode-se resgatar os óvulos de uma mesma doadora até duas vezes por semana”, destaca Franco, da Embrapa. “Uma vaca pode dar um bezerro por ano, na TE ela dá um bezerro por mês e na FIV é um bezerro por semana”, exemplifica.

Assim como na TE, as vacas doadoras devem ter uma genética muito melhor que o resto do rebanho, por isso devem cruzar com touros de altíssimo valor genético. “Uma dose de sêmen de um touro de elite custa em média R$ 600. Entretanto, com uma única dose de sêmen pode-se produzir 50 bezerros com a aplicação da FIV. Portanto, o custo é pulverizado pela quantidade de bezerros altamente qualificados que se consegue”, enfatiza o pesquisador.

Os ganhos com a FIV para o produtor, segundo André Dayan, presidente da Vitrogen, empresa especializada em desenvolver biotecnologias da reprodução bovina, podem ser medidos em tonelada de carne por matriz multiplicada. “Por exemplo: se você tem animais que geram uma arroba a mais no abate, todos os filhos deles também vão ganhar uma arroba a mais a cada geração”.

Ganhos com TE e FIV são inúmeros, desde que conduzidos de forma correta

O custo de uma FIV, em média, é três a quatro vezes mais alto que o de uma TE. O investimento total numa FIV, com uma média de três prenhezes efetuadas, sai por aproximadamente R$ 1.200,00. “Mas para o produtor que, por exemplo, fez um investimento alto numa vaca e necessita de um retorno rápido, o custo-benefício fica equilibrado”, explica Rodrigues, da Gertec Embriões.

O NEGÓCIO DOS EMBRIÕES

A disseminação das ferramentas da engenharia genética nas últimas décadas abriu novos mercados no País e fez surgir uma infinidade de empresas e de profissões que, dentre outras coisas, contribuem para a geração de trabalho e renda e conseqüentemente o crescimento da economia.

André Dayan, presidente da Vitrogen, diz que, há seis anos quando a empresa iniciou suas atividades, eram produzidos muitos embriões e não havia barriga de aluguel suficiente para recebê-los. Isso fez surgir uma série de centrais de receptoras. O mercado da biotecnologia possui uma cadeia produtiva extensa que engloba serviços de transferência, manejo nutricional, manejo sanitário que dão trabalho a muitos médicos veterinários e técnicos. E envolve também a indústria de hormônios, empresas que produzem materiais de consumo (descartáveis) para FIV, aparelhos para transportar embriões e óvulos, equipamentos de laboratório e centrais de doadoras, entre outros.

Existem algumas peculiaridades nesse segmento. Dayan conta que há um interesse muito maior do mercado de elite pelas fêmeas e isso aumenta a oferta de touros machos para a cadeia de produção. Esse fato certamente corroborou para que os negócios no setor sofressem uma retração no último ano. Aliado a esse desequilíbrio entre oferta e demanda, há ainda o alto custo de produção da carne. “Uma desmama de nelore no ano passado saía por R$ 2.500,00, este ano não se vende por mais de R$ 1.200,00. Não estamos conseguindo baixar o nosso custo de produção que inclui ração, adubação de pastagens, medicamento, vacinação, insumos, combustível. Com a arroba sendo negociada aos valores atuais , fica difícil obter lucro”, afirma Rodrigues, da Gertec Embriões.