Sanidade

Mais Benefícios do que custos

Qualquer atividade pecuária exige investimento e um adequado manejo sanitário. Fazer uso de técnicas de caráter preventivo ainda é a melhor opção para garantir uma ótima relação custo/benefício na propriedade

Gabriel Bononi
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Desde 2003, quando o Brasil atingiu a marca dos 180 milhões de cabeças de gado, e passou a ter o maior rebanho comercial do mundo, a preocupação com qualidade do rebanho começou a ganhar mais espaço. Para conquistar e garantir mercado internacional, é necessário atender às exigências dos países compradores, que têm grande preocupação com a saúde dos animais.

Para atender essas necessidades, a produção pecuária deve estar amparada por ações que promovam a sanidade no meio pecuário. De acordo com o professor Paulo Francisco Domingues, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Unesp de Botucatu/SP, a saúde animal, o melhoramento genético e a alimentação adequada constituem a base que serve de apoio ao desenvolvimento de qualquer sistema de exploração de bovinos. “É importante que esses três fatores sejam fortalecidos progressiva e harmoniosamente, havendo a necessidade de se manter um equilíbrio entre eles, que representam o tripé da cadeia da produtividade animal”, afirmou.

Segundo Domingues, a genética é o ponto de partida para o desempenho de toda e qualquer função. “Esse conceito nos dá a idéia de que, além da genética, outras variáveis são imprescindíveis para o êxito da exploração. A higiene e o manejo zoosanitário fornecem, ao lado da genética, as condições necessárias à criação animal, tornando a produção economicamente viável, pois caso contrário o animal reduz o seu rendimento, deixa de produzir economicamente ou simplesmente não produz, mesmo sob condições ambientais favoráveis e adequada tecnologia zootécnica. Portanto, a saúde constitui a base para qualquer programa de produção animal e, para obtê-la, são necessárias várias observações e medidas”, informa o professor.

Maurício Palma Nogueira, engenheiro agrônomo, diretor da Scot Consultoria, diz que qualquer técnica de produção, não acompanhada de um programa sanitário criterioso, pode representar um prejuízo oculto. “Esse prejuízo pode ser até muitas vezes superior ao que se imagina. Não é o que o produtor perde, mas sim o que deixa de ganhar.”

MANEJO SANITÁRIO

Manejo sanitário nada mais é do que um conjunto de medidas para proporcionar aos animais ótimas condições de saúde, reduzindo ao máximo a incidência de doenças nos rebanhos. Dessa forma, permite que o produtor obtenha maior proveito do melhoramento genético e, assim, boa lucratividade. De acordo com Domingues, o manejo sanitário é fundamental para os resultados econômicos quando se tratar de qualquer atividade relacionada com a pecuária, pois ela depende do estado de saúde de cada um dos animais que compõem o rebanho. “Na pecuária, a prática do manejo sanitário usado adequadamente deve resultar em três índices: melhor conversão alimentar, maior taxa de crescimento e menor taxa de mortalidade de animais”, diz.

Na pecuária de leite, o controle eficiente de mastite é o diferencial entre lucro e prejuízo. Já na pecuária de corte, a diferença entre bons programas sanitários e programas usuais pode representar cerca de dois pontos porcentuais na rentabilidade final da atividade. Segundo Nogueira, rentabilidade é a divisão do lucro operacional do ano pelo patrimônio total da empresa. “Na pecuária, em 2004, a rentabilidade de empresas pesquisadas pela Scot Consultoria variou de 0,4% (cria) a 6,5% (recria e engorda). Portanto, dois pontos porcentuais representam muito, em termos de lucro numa empresa rural”, conclui.

PROCEDIMENTOS SANITÁRIOS PREVENTIVOS E CURATIVOS

Domingues, da Unesp, sugere estabelecer um cronograma de práticas sanitárias

Os procedimentos preventivos são relacionados à aplicação de medidas profiláticas. São aqueles que evitam o aparecimento ou a introdução de enfermidades no rebanho. Nestes estão incluídas as vacinações e vermifugações (desverminações) sistemáticas; medidas de higiene e assepsia (castração); uso de quarentena para novos animais que serão introduzidos na propriedade; isolamento de animais doentes; proteção dos animais contra possíveis vetores transmissores de doenças, como o controle sistemático de moscas e carrapatos, testes sorológicos de diagnóstico para controle e monitoramento de doenças, como a brucelose e leptospirose, teste intradérmico de tuberculina, para o diagnóstico da tuberculose, e exame de fezes, entre outras medidas.

Já os procedimentos curativos estão relacionados às medidas a serem tomadas imediatamente à constatação de problemas, tais como: traumatismos, doenças (afecções), infestações, deficiências nutricionais e intoxicações. “O ideal é se trabalhar preventivamente, evitandose a ocorrência de agravos à saúde dos animais de interesse zootécnico, pois é menos oneroso investir em profilaxia, do que quando o problema já está instalado, especialmente quando se trata de enfermidades infecto-contagiosas”, alerta o professor da Unesp.

Quando se trabalha curativamente, deve-se contabilizar, além dos custos com medicamentos, os honorários profissionais e o quanto que deixa de se produzir com o animal doente, além dos riscos da sua morte. Relevante ainda é a possibilidade de manutenção do agente causador da doença sob a forma de reservatório, após a recuperação do animal, e também a transmissão para os outros animais do rebanho. Vale ressaltar que o criador deve ter em mente que os custos para medidas preventivas são bem menores se comparados ao tratamento de qualquer doença.

Nogueira diz que qualquer técnica de produçãi exige programa sanitário criterioso

ESQUEMA SANITÁRIO

Paulo Domingues sugere estabelecer um calendário ou cronograma de práticas sanitárias, segundo as categorias animais exploradas, e de acordo com as necessidades da propriedade

Deve-se adequar, segundo a possibilidade de incidência de doenças, na região onde está instalada a propriedade. Nogueira, da Scot Consultoria, diz que as empresas fabricantes também recomendam um calendário sanitário. “Nos manejos, além das vacinas, os produtores precisam controlar diversas outras moléstias e parasitas que trazem diversos prejuízos. É preciso estar atento e prevenir, não apenas remediar.” Ele faz outro alerta sobre os cuidados com o manejo sanitário. Enquanto a recomendação dos fabricantes de produtos leva a um controle mais criterioso, muitos pecuaristas ainda buscam soluções baratas, porém ineficazes. “Ora usam produtos em subdosagem sem critério técnico algum, ora usam produtos não registrados para a pecuária”, explica.

Para evitar qualquer tipo de dor de cabeça, Nogueira resume a solução (ou parte dela) em duas frases: “adquirir produtos com qualidade de origem, de empresas idôneas e cumprir todas as recomendações técnicas do produto, seja em periodicidade de aplicação, seja em dose a ser aplicada”.

Higiene e manejo sanitário fornecem as condições necessárias à criação animal

MEDIDAS EFICAZES

Saneamento do ambiente — O procedimento no sentido de higienizar o meio ambiente tem revelado resultados favoráveis na prevenção de diversas doenças transmissíveis, com proteção da saúde animal e da saúde pública. Esta ação reveste-se de importância, principalmente quando aplicada aos sistemas de criações na forma de confinamento. Entre as medidas de saneamento, recomendase manter as condições higiênicas da água de consumo, destino adequado dos dejetos dos animais, controle da qualidade dos alimentos, destino adequado do lixo, controle de vetores e instalações adequadas.

Quarentena — A quarentena é uma das medidas mais eficazes que pode ser utilizada, objetivando-se a não introdução de doenças no rebanho. Consiste em manter os animais isolados em local apropriado para este fim, observando-os por um período mínimo de 30 a 60 dias, de maneira a evitar o contato imediato com outros animais da criação. Portanto, se os animais estiverem no período de incubação de alguma doença serão identificados quando manifestarem os sintomas. Nesse período, também se pode colher material para exames laboratoriais, tais como fezes, sangue, entre outros. A quarentena é mais recomendada quando se pretende introduzir novos animais no País ou na propriedade.

Vacinação — Esta medida tem por objetivo obter um elevado nível de imunidade em determinada população. Procura-se alcançar de acordo com o tipo de vacina o grau de proteção mais próximo a 100%, que é influenciado pela infecciosidade do agente, suscetibilidade dos animais e condições do meio ambiente.

Isolamento — Os animais doentes deverão ser separados dos sadios, para diminuir o risco de transmissão da doença. Essa segregação deve ser realizada em local adequado durante todo o período de transmissibilidade da doença

Destruição de cadáveres e fetos abortados — Os animais mortos podem funcionar como fontes de infecção. Portanto, a destruição dos mesmos é uma prática importante. A eliminação de animais mortos pode ser realizada pelo enterramento e pela incineração.

SANIDADE: A ARMA DO SUCESSO

O Brasil tem enorme potencial de produção e exportação de carnes, mas diante da proliferação de medidas sanitárias no comércio internacional deve reforçar a confiança junto aos importadores, para garantir a segurança das relações comerciais. Para fazer valer a confiabilidade da carne, vale a pena os produtores investirem num programa de fiscalização sanitária mais eficiente e investimentos em estrutura. Esses elementos são indispensáveis para a conquista de novos mercados e o fortalecimento do produto nacional naqueles já conquistados.

“Bons programas sanitários não fazem o animal ganhar mais peso. Porém, a falta deles não permite que os animais ganhem o que deveriam estar ganhando. Este é o raciocínio”, explica Nogueira. Assim, a melhoria da eficiência, qualidade e produtividade animal e o controle e a erradicação das principais doenças que acometem o rebanho são fundamentais para diminuir custos de produção e aumentar a competitividade dos produtos brasileiros nos mercados mais exigentes, seja dentro ou fora do País.

Os procedimentos preventivos garantem uma boa relação custo/benefício na propiedade


Atenção redobrada

- Evitar o uso de produtos tóxicos nas habitações dos animais. O combate aos insetos, roedores, entre outros, deve ser feito com produtos seguros e nas dosagens corretas.

- Corte e desinfecção do umbigo dos recém-nascidos com tintura de iodo.

- Fornecimento do colostro aos recém- nascidos, nas primeiras seis horas após o parto. Após o parto, verificar se a mãe expulsou a placenta.

-Verificar periodicamente o estado de saúde dos animais (qualidade da pele, o olhar, o estado geral, as fezes, corrimentos, diarréia, ferimentos, fraturas e comportamento).

- Mantenha instalações, equipamentos, recipientes para comida e água sempre limpos e desinfetados.

- Isolar os animais doentes.

- Quarentena para animais que serão introduzidos na propriedade por período mínimo de 30 a 60 dias de observação.

- Certificar-se quanto à qualidade e à quantidade de água fornecida aos animais.

- Realizar exames preventivos.