Raça do Mês

BRANGUS eficiência em qualquer campo

As mais importantes características para a moderna pecuária de corte brasileira estão no brangus: rusticidade, precocidade, fertilidade e produção de carne de alta qualidade

Gabriel Bononi
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A s primeiras experiências que deram origem ao programa brangus – cruzamentos entre o angus e o zebu – iniciaram no ano de 1912 no Estado norte-americano de Louisiana. Seu reconhecimento, porém, veio apenas cinco décadas depois e hoje a raça está presente com seus criatórios em oito países. Todos são associados à International Brangus Breeder Association. Sediada no Texas (EUA), foi a primeira organização a obter o reconhecimento e registro do brangus como uma nova raça.

No Brasil, as experiências de cruzamento começaram a ser realizadas por técnicos do Ministério da Agricultura no município de Bagé/RS na década de 40 e, somente no ano de 1978, a raça participou pela primeira vez da Expointer, em Esteio/RS. A raça foi finalmente reconhecida pelo Ministério da Agricultura em 1981, expandindo- se para as outras regiões do País, especialmente Sudeste e Centro- Oeste.

A raça foi desenvolvida para ter um animal que apresentasse altos índices de produtividade, mesmo criado em condições de clima e meio ambiente adversas, típicas das regiões tropicais e subtropicais. O brangus é destinado a sistemas pastoris que respondem de forma excepcional quando em sistemas de cria, recria ou engorda mais intensivos. Isto o torna uma raça versátil, que se adapta muito bem a variados sistemas produtivos com grande capacidade de resposta, através de sua velocidade de crescimento e acabamento, em confinamentos ou pastoreio suplementado. Os rebanhos de cria têm alta capacidade reprodutiva e desmamam produtos com pesos que permitem recriar e engordar em períodos mais curtos que os tradicionais. ‘‘Esses ganhos totais de produtividade requerem algum cuidado maior, quando se intensifica qualquer processo, especialmente com ectoparasitas, pois não há o mesmo comportamento de um zebuíno puro em relação a esse aspecto”, alerta Luis Alberto Müller, médico veterinário.

VANTAGENS

Entre os anos de 1998 e 2002, a raça teve um aumento no número de registros da ordem de 448%, conforme mostram os dados estatísticos da Associação Brasileira de Brangus (ABB). Até hoje foram registrados mais de 290 mil animais no Brasil. “O rebanho tem evoluído de maneira positiva, atualmente o universo de animais 3/8 zebu x 5/8 angus é o que sobressai na emissão de certificados. Isso, em se tratando de animais registrados, pois se for levado em consideração os animais destinados para engorda e abate esse número é muito superior ao universo de matrizes e reprodutores”, afirma Washington Cinel, presidente da Associação Brasileira de Brangus (ABB).

Dessa forma, a raça vem se apresentando como uma das opções mais rentáveis dentro da moderna pecuária mundial. De acordo com Müller, o brangus foi formado para unir a rusticidade dos zebuínos e suas características principais – resistência a parasitas, tolerância ao calor, habilidade materna – com as vantagens do angus – qualidade da carne, precocidade sexual, elevado potencial materno –, o que o torna uma raça completa.

“O importante a considerar é que em algumas regiões, especialmente tropicais, as condições de manejo devem ser adequadas a um animal de maior velocidade de crescimento e de boa, apesar de menor, rusticidade, em comparação aos zebuínos”, diz o veterinário. O brangus tem como principais características a rusticidade, a precocidade, a habilidade materna, a fertilidade e a produção de carne de alta qualidade. “A raça reúne as características mais importantes para o desenvolvimento da pecuária de corte no País. Os bezerros têm um baixo peso ao nascer, evitando assim o problema de parto distócicos. Esse baixo peso ao nascer, porém, é compensado pela rapidez de ganho de peso que os animais possuem ao longo do seu desenvolvimento”, afirma Cinel.

Müller vai além, e diz que brangus são animais com boa rusticidade, o que permite que sejam criados como raça pura ou como agentes de genética angus quando utilizados em cruzamentos com zebuínos através de monta natural, onde touros de raças européias puras teriam dificuldades adaptativas. “O brangus possui grande variabilidade genética, devido às raças originais, que possuem grandes populações e também em função da segregação determinada por serem animais resultados de cruzamento de raças distintas, mesmo em gerações mais avançadas. Essa variabilidade nos apresenta variações de biotipo que possibilitam encontrarmos os animais mais adequados, segundo suas características adaptativas, a ambientes mais ou menos exigentes’’, diz Müller.

Assim, segundo ele, rebanhos bem trabalhados, em programas de seleção que enfoquem avaliações produtivas aliadas às adaptativas, possibilitam o desenvolvimento de animais adequados aos variados sistemas ambientais, de produção e manejo. Reúnem precocidade e adaptação com carcaças de peso e características adequadas para mercados diferenciados e mais exigentes. São animais mochos e apresentam variedade de pelagem preta, vermelha e suas variáveis, decorrentes da fomação através do uso de animais angus ou red angus. Mario Pompeu, presidente do Núcleo Brangus do Centro-Oeste, resume as características da raça numa frase: “O brangus expressa eficiência sob condições mínimas de manejo”.

MACHO X FÊMEA

Os touros têm boa fertilidade libido e perímetro escrotal pela sua precocidade sexual e estão aptos para monta aos 2 anos de idade. Os novilhos, de acordo com o manejo, em sistema pastoril são abatidos entre 18 e 36 meses, entre 16 e [email protected], com bom acabamento. As fêmeas chamam a atenção dos criadores, em função de sua capacidade produtiva total. São muito precoces, adaptadas, com boa produção de leite e habilidade maternal. Por não terem tamanho corporal exagerado, possuem ótimos índices de reconcepção e uma carcaça de bom padrão e peso quando abatidas.

Os rebanhos apresentam expressivos potenciais nas características maternais e de produção de carne, que possui expressiva aceitação pelo mercado especializado. É um animal de porte moderado, com grande amplitude de tipos, podendo encontrar linhagens mais britânicas e de porte menor, indicado para o sistema de criação no extremo sul do País, linhagens mais zebuínas, que vêm construindo sua história em condições mais duras no pantanal sul-mato-grossense e no semi-árido do Nordeste. Já no Brasil-Central, desenvolve-se bem o tipo clássico do brangus 3/8 de sangue zebu e 5/8 de sangue angus, de porte apropriado para o mercado local, que é de bois acabados entre 20 e 30 meses, com 470 a 500 kg, conforme a oferta de pastagem.

Müller afirma que o brangus, como raça sintética, alia três importantes aspectos que determinam características de produção importantíssimas. A primeira é quando reúne dois grupamentos genéticos extremamente complementares, o zebuíno e o taurino angus. Essa complementaridade reúne numa mesma raça características antagônicas e importantes para a produção de carne em regime pastoril nas regiões subtropicais e tropicais: precocidade e rusticidade. O segundo aspecto é que, como raça sintética, mesmo em gerações avançadas, preserva um razoável grau de vigor híbrido, proporcionando ganhos de produção para características como fertilidade, habilidade maternal, sobrevivência dos bezerros e ganho de peso. E a terceira, quando analisada a situação atual do mercado de carnes em âmbito nacional e internacional, é a qualidade de carne e carcaça. “São animais de bom porte e tamanho com facilidade de manejo. As fêmeas têm muita precocidade sexual e alta habilidade materna, aliada à rusticidade e um novilho precoce com carcaças que atendem às exigências no que se refere à idade, ao tamanho, à conformação, ao acabamento e à qualidade dos cortes. Portanto, trata-se de uma raça que reúne os diferenciais das que são as mais criadas no mundo, angus e nelore, nos aspectos p r o d u t i v o s , agregados de resultados superiores da heterose, e com diferenciada qualidade de produto final, o que pode proporcionar agregar valor de acordo com o mercado consumidor”, explica Müller.

PROGRAMAS DE CRUZAMENTO

O presidente da ABB afirma que os touros brangus têm sido utilizados em diversos programas de cruzamento industrial, atingindo excelentes resultados. Nos programas de cruzamento da raça, o processo é simplificado. O produtor utiliza a Inseminação Artificial (IA) para fazer seus animais meio sangue e também o próprio brangus 3/8, sempre utilizando animais com reconhecida performance genética, conhecida através de suas Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) e capacidade reprodutiva, obtida pelos exames andrológicos e sanitários. “Dessa forma, a inseminação nas vacas paridas exige importantes investimentos em alimentação. O touro mantém as condições de produtividade, uma vez que seus descendentes (produtos 3/8 zebu e 5/8 angus) chegam ao abate junto com os produtos meio sangue e muitos antes dos produtos zebuínos”, afirma Pompeu.

MELHORAMENTO GENÉTICO

“Nem tudo é maravilhoso nas raças compostas e bi-mestiças”, diz Pompeu. “As combinações perversas da genética são observadas nesse tipo genético, ou seja, ocorrem consideráveis perdas por segregação gênica, facilmente observadas ao comparar uma safra de animais F1 com F2, F3, onde temos excelentes indivíduos, uma média boa e pode ter aproximadamente 10% de animais desuniformes e inferiores.” Os criadores da raça brangus por conhecerem essa situação, na sua maioria, trabalham com programas de melhoramento genético, onde as matrizes vacas e novilhas inferiores são descartadas e as superiores multiplicadas, sempre buscando acasalar com touros (monta ou IA) de reconhecida performance produtiva.

Dorneles concorda com a dificuldade de se fazer uma boa seleção para melhoramento genético. “É mais difícil ser cabanheiro de raças sintéticas que de raças tradicionais, porque na primeira se tem que efetuar uma tarefa dobrada: estabilizar um novo biotipo e ainda por cima selecioná-lo por produtividade, o que obriga a uma política de ‘refugos’ muito mais intensa e portanto mais onerosa. A raça brangus tomou como premissa número um que seus animais sejam avaliados geneticamente, pois é a única forma de garantir que estejam sendo selecionados os melhores animais e garantir a evolução do rodeio nacional.”

Atualmente, no Brasil, temos dois importantes programas de melhoramento genético. Um está sendo desenvolvido no Rio Grande do Sul, pela empresa Gensys e Consultores. O outro, pela Embrapa Gado de Corte. No caso da Embrapa, o programa recebeu dados de rebanhos da Argentina e por dez anos vem recebendo dados de 30 fazendas localizadas nos Estados de MS, MT, GO e SP. Ao todo, mais de 140 mil animais estão sendo avaliados, quantidade que proporciona confiabilidade nas avaliações genéticas da raça.

LEILÕES

De acordo com Washington Cinel, nos dois últimos anos, os leilões da raça têm obtido médias superiores. “No Leilão Top Brangus, por exemplo, realizado durante a Feicorte 2005, o brangus atingiu média superior a R$ 21.600,00”, explica. “Nos julgamentos, observamos que a qualidade dos animais apresentados se supera a cada ano, evidenciando que a pressão de seleção, pela qual a raça tem passado nesses últimos quatro anos, está servindo para o aprimoramento do brangus, com tendência a melhorar a cada ano.”

Cinel informa ainda que tem sido grande a utilização do brangus em programas de IA, seja em cruzamento industrial, usado em cima de fêmeas meio sangue, como opção de raça para a terminação (engorda e abate), ou em programas de acasalamentos para a formação de plantel. Em 2004, foram comercializadas mais de 112 mil doses, sendo que as perspectivas para este ano são de que as vendas aumentem.

O Brangus expressa eficiência sob condições mínimas de manejo

QUALIDADE DA CARNE

O brangus proporciona, além de uma carcaça com bom peso e grau e acabamento em idade precoce, uma carne macia, por se tratar de um animal precoce. Seus cortes possuem certo grau de marmoreio, que dificilmente será exagerado em função do custo, que concede ao produto mais sabor. Esse diferencial, proporcionado pela predominância de genética angus do sintético brangus, atende ao paladar da maioria dos mercados, internos e externos, que apreciam essas características.

“É importante ressaltar isso, uma vez que essas características são consagradas internacionalmente e agregam valor ao produto final. Vários mercados no País, e principalmente no mercado externo, já exploram esses nichos com sucesso, que é repassado sob forma de preços diferenciados aos produtores”, explica Müller. Isso significa adequar o produto aos mercados que podem remunerar mais, além de trabalhar com uma raça de boa produtividade total. Produzir mais, mais rápido, um produto diferenciado, que possa ter maior valor agregado, é uma vantagem e tanto.