Ovinocultura

Raça Crioula: Tripla Aptidão

A rusticidade e as aptidões da raça crioula conquistaram os criadores. Este é um dos rebanhos que mais crescem no País. Os primeiros exemplares começaram a ser criados no Rio Grande do Sul e hoje é possível encontrar animais em vários Estados brasileiros. Quem investe na raça garante que as vantagens são inúmeras

Cristine Pires
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Os criadores renderam-se à ovelha crioula. A raça é uma das que mais crescem no País e a justificativa leva em conta as características dos animais, que se adaptam nas mais diversas condições de clima, solo e vegetação. A rusticidade faz com que os animais se sobressaiam quanto à resistência a doenças. Além do mercado da carne – que tem excelente procura por se tratar de carne magra –, a produção de lã e pele também representa bons negócios. O velo é utilizado para artesanato e tapeçaria industrial. A pele apresenta qualidade industrial superior no que diz respeito à resistência e suavidade. A cor da lã pode variar da branca à preta, incluindo tons intermediários.

A precocidade é outro diferencial da ovelha crioula, com puberdade precoce: as borregas aos sete e, os machos, a partir dos quatro meses, em condições naturais de criação, estão prontos para reprodução. A parição das fêmeas acontece duas vezes Cristine Pires [email protected] por ano e o número de cordeiros desmamados é alto, devido ao elevado vigor e habilidade materna. Este é, aliás, um dos quesitos mais ressaltados por quem investe na raça. As fêmeas cuidam de seus filhotes com dedicação, não deixando qualquer predador se aproximar da cria e reduzindo praticamente a zero o número de cordeiros guaxos (que são rejeitados pela mãe).

A Fazenda Harmonia, em São Martinho da Serra/RS, é prova desse comportamento. Em um rebanho de 500 matrizes, Rui Júnior Godinho nunca registrou o caso de uma fêmea desprezar o filhote. O criador, que se orgulha de ter o maior rebanho em território gaúcho, é um defensor da expansão da raça, que faz parte da história da família. Em 1903, os bisavós de Godinho registravam no livro-caixa da propriedade a primeira compra de ovinos crioulos. “Em 2003, comemoramos um século de ovelhas crioulas na propriedade”, conta ele.

Os negócios ganharam mais força com o registro oficial da raça junto ao Ministério da Agricultura, que aconteceu há apenas quatro anos. “As crioulas hoje são o sustento da fazenda”, diz Godinho, que também investe em ovelhas texel. Entre os benefícios, ele aponta o baixo custo de criação. Por se tratar de um animal rústico, normalmente são criados soltos a pasto, sem necessidade de suplementação alimentar. Nesse caso, os cordeiros ficam prontos para abate entre 120 e 180 dias, com uma média de 60 a 70 kg. A utilização de ração reduz este prazo para algo entre 90 e 120 dias.

Godinho (em pé) possui o maior rebanho de ovelhas crioulas do Rio Grande do Sul

O foco da produção de Godinho é a carne e a pele, mas a lã também tem destino certo: os artesãos. Cada ovelha produz cerca de 2,5 kg de lã por ano, o que ajuda a agregar renda na produção. A intenção de Godinho é inovar e aproveitar o bom momento da ovinocultura. O criador pretende lançar um selo próprio para carne em 2006, quando deverá apresentar também uma novidade no mercado: o hambúrguer de cordeiro.

COMEÇAM A SURGIR OS PRIMEIROS ANIMAIS POs

A raça começou a ganhar força há pouco tempo, com a regularização junto ao Ministério da Agricultura e a participação em feiras importantes, como a Expointer, que acontece em Esteio/RS, e a Coopavel, em Cascavel/ PR. O resultado é o surgimento dos primeiros animais POs (puro de origem) entre os pioneiros na criação da raça. “Estamos caminhando nesse sentido”, diz Luiz Christian Pötter, da Cabanha Paraísos de Navarra, em Viamão/ RS. Pötter, que faz parte da diretoria da Associação Brasileira de Criadores de Ovinos Crioulos (ABCOC), diz que o País conta hoje com 28 rebanhos cadastrados, a grande maioria no Rio Grande do Sul, em função da origem da raça, além de forte representação em Santa Catarina e São Paulo.

A conquista de outras fronteiras já começou. O exemplo vem da própria Cabanha Paraísos de Navarra, que comercializou reprodutores com criadores do Acre, de Goiás, Mato Grosso e de São Paulo. A expectativa é que a exposição nacional da raça, que acontece de 3 a 6 de novembro, em São Francisco de Paula/RS, atraia compradores de todo o Brasil. Segundo Pötter, os ovinos crioulos vêm sendo cada vez mais destinados ao cruzamento industrial. Utilizandose, por exemplo, uma fêmea crioula e um macho ile de france, é possível aumentar a carcaça da crioula e aproveitar os dotes da mãe para cuidar da cria.

De acordo com a classificação internacional, o rebanho de ovelha crioula é considerado como população rara, pois conserva traços dos ovinos primitivos que lhe deram origem. Graças à essa expansão, esses animais deixaram de estar ameaçados de extinção. A Embrapa é uma das grandes responsáveis por esse avanço. A Embrapa Pecuária Sul (Bagé/RS) começou, em 1982, a acompanhar aspectos como conservação e avaliação da raça, que sofria o risco de desaparecer com a ameaça de extinção do último grupo de exemplares. O trabalho não parou por aí. Em 2004, a raça passou a ser preservada por meio de um banco de germoplasma, desenvolvido pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Brasília/DF), que reúne material genético (sêmen e embriões congelados) de animais com características semelhantes para que sejam multiplicados de forma controlada. Também são desenvolvidos estudos das características morfológicas, produtivas, reprodutivas e comportamentais da raça. Os pesquisadores também fazem a caracterização genética dos ovinos crioulos com objetivo de conseguir maior variabilidade genética, impedindo o cruzamento entre parentes. De acordo com os pesquisadores, a raça traz benefícios para muitos produtores, especialmente os de base familiar, em função da aptidão tanto para carne, pele e lã.

Pötter (primeiro,à direita) mostra-se satisfeito com o surgimento dos primeiros animais POs

COMEÇANDO A CRIAÇÃO DO REBANHO

Foram características como essas que chamaram a atenção do casal Gustavo e Francine Pergher, que tem uma pequena propriedade em Gravataí/RS. Criadores de cavalos quarto-de-milha e paint horse, eles viram na criação de ovelhas crioulas a forma de viabilizar a criação de eqüinos. “O retorno é muito mais rápido e o mercado está em franca expansão”, afirma o criador.

O primeiro contato dos Pergher com as ovelhas crioulas foi durante a Expointer de 2004. Impressionados com as características dos animais, decidiram investir. Trouxeram da feira um carneiro e uma fêmea e, logo em seguida, tiveram uma cria no campo. Um ano depois, 20 animais recebem os cuidados diários da dupla, que pretende apostar na genética para oferecer matrizes e reprodutores de qualidade para todo o Brasil.

Os objetivos estão sendo alcançados. Em apenas um ano de atividade, os Pergher conquistaram dois títulos importantes na Expointer 2005: Campeã Borrega e Reservado de Campeão Borrego. O macho já foi vendido lá mesmo, durante leilão da raça, e seguiu rumo ao Paraná. “Foi uma grata surpresa”, comemora Pergher.

A idéia é ter os primeiros animais POs em 2007. Todos os cuidados são adotados para ter os melhores exemplares, a começar pela alimentação. Os animais são criados somente a campo, em pastos de azevém, aveia e campo nativo. “Apenas quando vamos prepará-los para exposições é que usamos suplementação”, conta Francine, que também é médica veterinária. Entre as vantagens da raça, aponta ela, estão a resistência à verminose, uma das doenças que mais preocupam os criadores de ovinos, e também à podridão do casco, que acontece especialmente em animais que ficam em terrenos úmidos. Em um ano de atividade, os Pergher não registraram qualquer tipo de doença no rebanho.

Gustavo e Francine Pergher conheceram a raça na Expointer 2004 e decidiram investir na criação


A origem da raça

A ovelha crioula é considerada uma raça local, com origem dos rebanhos introduzidos pelos jesuítas no Rio Grande do Sul, durante o século XVII, e do cruzamento com outras raças importadas a partir da colonização portuguesa. Estudos conduzidos na Embrapa Pecuária Sul revelam parentesco desses ovinos com a raça hispânica lacha, além de romney marsh e corriedale. Assim, a ascendência da ovelha crioula teria como antecessor mais remoto urial ou carneiro selvagem do Sudoeste Asiático, que originou um ovino primitivo, que se estendeu pela Europa e Oriente Médio, dando origem ao ancestral direto da raça lacha.

A ovelha crioula está classificada como raça rara e conserva traços dos ovinos primitivos que lhe deram origem. Em 1982, começou a ser preservada pela Embrapa Pecuária Sul. Foram identificadas quatro variedades dessa raça: Fronteira, localizada ao sul do Rio Grande do Sul; Serrana ou Crioula Preta, no nordeste gaúcho e planalto catarinense; Crioula Zebura ou Ovelha de Presépio, ao sul do Paraná; e Crioula Comum ou Ovelha Ordinária, localizada acima do Paraná. Atualmente, todas as espécies podem também ser encontradas nos Estados de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre, Goiás, São Paulo e Minas Gerais.

Fonte: Acro