Nutrição

Na Era do Boi

Suplementação alimentar é tendência para manter qualidade nutricional e ganhar precocidade na criação de gado

Carolina Jardine

A necessidade de acabamento do gado para abate cada vez mais precoce está mudando a rotina da alimentação animal no País. Depois de anos vendendo o rebanho brasileiro no exterior com o título de “boi verde”, os pecuaristas resolveram mudar o slogan e ofertar o chamado “boi verde e amarelo”. A alimentação a pasto ganha nas rações à base de milho um aliado para acabar as carcaças e atender às exigências do mercado internacional. “Os importadores exigem animais mais jovens, e só com pasto não conseguimos chegar ao peso adequado em 30 meses. Claro que o boi ainda é mais verde, mas tem um pouco de amarelo”, compara o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Luiz S. Thiago, lembrando que os suplementos são de extrema importância para a terminação e cria.

Contudo, é o uso do pasto que torna a produção brasileira tão atrativa e competitiva, estratégia que vem dando certo. Prova disso é que o Brasil hoje tem um rebanho comercial de 185 milhões de cabeças e é o maior exportador mundial de carne, com 1,8 milhão de toneladas embarcadas em 2004. “A carne confinada da forma como é feita no Brasil obtém um preço diferenciado, tem uma ótima competitividade e um mercado forte no exterior”, ressalta o professor do departamento de Zootecnia da Esalq/ USP, Luiz Gustavo Nussio. Segundo ele, apesar do confinamento abrir espaço para elevar a produtividade da área de campo, é empregado em menos de 15% do gado produzido hoje pelo País.

Os compostos ganham ainda mais importância em épocas de crise, quando é preciso aumentar a lotação para ganhar em escala e a queda na qualidade nutricional é inevitável. “Quando se aumenta a lotação em sistemas rotacionados, o gado acaba não podendo selecionar o que irá comer e a nutrição individual acaba sendo pior”, constata o consultor da Boviplan Consultoria Agropecuária, Rodrigo Paniago. Por isso, a suplementação proteinada surge como saída para o acabamento desses animais. Sem falar nos sais minerais, que já são apontados como grandes aliados dos criadores, repondo necessidades básicas do rebanho, como fósforo, cálcio e iodo.

Quanto maior for o percentual de concentrado em uma dieta, melhor vai ser o desempenho animal e mais elevado o gasto com alimentação. Uma maneira de reduzir o investimento em suplemento é usar ingredientes alternativos. Por exemplo, para substituir uma fonte energética tradicional como o grão de milho, pode-se optar pelo grão de sorgo, milheto, aveia, polpa cítrica, casca de soja ou o caroço de algodão. O mesmo pode ser feito com o componente protéico, incluindo a possibilidade de substituir parte do nitrogênio protéico (farelos em geral) pelo nitrogênio não-protéico (uréia) ou farelos tradicionais, como o de soja, por outros, como o de milho, girassol e algodão.

OLHOS NA CALCULADORA

Apesar do poder inegável da suplementação alimentar, o criador não pode tirar os olhos da calculadora. A viabilidade econômica da atividade pode ser comprometida se o aumento da população na propriedade trouxer menos receitas do que os gastos com tais compostos. A média histórica de competitividade do setor é de 80/100 arrobas por hectare ao ano. “Se faltar pasto, alimentar gado com concentrado não é econômico”, adverte Paniago. Ele ainda destaca que o uso de suplementos para manter a produção em terras pequenas e muito valorizadas nem sempre torna a atividade lucrativa. Por isso, é necessário atenção na hora de decidir por manter ou desalojar os animais no final das águas (novembro a maio), quando pesam de 320 kg a 360 kg. A opção pela venda nem sempre é a mais apropriada na medida em que a grande oferta de gado reduz o preço médio da arroba. Em muitos casos, o pecuarista opta por confinar o gado na seca para vender mais adiante a preços melhores. Claro que isso implica gastos maiores com alimentação nesse período o que, teoricamente, não compensaria o ganho de arrobas conquistado. Mas a alta na cotação pode trazer ganhos significativos sobre os quilos obtidos ainda a pasto. A decisão sobre o destino do rebanho fica mais difícil em um ano de crise, em que o preço do quilo vivo chega a um dos patamares mais baixos dos últimos anos. A arroba do boi em Campo Grande/MS, que em 2004 valia R$ 65,00, hoje está por R$ 47,00. “O milho está muito caro e ainda mais se comparado ao preço do boi. Mas é preciso arcar com algum prejuízo neste momento. A pecuária está no fundo do poço. A tendência é só melhorar”, alerta o pesquisador da Embrapa. O professor da Esalq acrescenta que, apesar da queda da cotação do gado, os pecuaristas também estão sendo favorecidos pelo preço baixo dos bezerros e do boi magro. “Estamos em um ciclo de baixa”, resume.

Uma questão é unanimidade entre os pecuaristas brasileiros. O pasto é a opção mais barata e viável ao criador. Por isso, adotar técnicas apropriadas de manejo pode ser uma forma de tornar a pecuária mais lucrativa. Isso porque há formas de maximizar o poder nutricional de pastagens insuficientes para elevar, ao menos um pouco, o nível populacional da propriedade. Experimentos realizados na Embrapa Gado de Corte, usando o capim Marandu (Brachiaria brizantha), mostraram que, com uma taxa de lotação média de 1,5 UA/ha ano, foi possível manter uma disponibilidade de matéria seca foliar variando de 1.600 quilos/ha (águas) a 450 kg/ha (seca), usando uma adubação estratégica de manutenção em fevereiro, mas sem a necessidade de vedar pasto. “A aparente sobra de pasto nas águas permite o bom estabelecimento das plantas, garantindo uma melhor disponibilidade de pasto na seca”, aponta o pesquisador da Embrapa.

A receita é investir na elaboração de pastagens e adubá-las de forma a fazer um bom estoque no campo. “Pastagens duram 20 ou 30 anos e se forem mal implantadas podem significar alimentação ruim”, diz Thiago. Vale lembrar que antes de adubar é vital conferir o grau de nutrientes já existentes no solo para evitar desperdícios e investimentos desnecessários. Para isso, o melhor é captar amostras em duas camadas distintas: de 0 a 20 cm e de 20 a 40 cm de profundidade.

Qualidade da pastagem tem relação direta com o investimneto que será feito com suplementação

A qualidade da pastagem que se oferece ao gado também implica diretamente investimento que se terá de fazer em suplementação. Uma opção interessante é o consórcio entre lavoura de verão e o plantio de pastagens braquiárias no caso do Centro-Oeste ou com azevém e aveia no Sul. “Com isso, se tem pasto novo, se reduz o gasto com concentrado e ainda se deixa respostas para a lavoura do ano seguinte”, alerta Thiago.

Outra estratégia importante para elevar ganhos e reduzir custos é a forma de manejo do gado na propriedade. A rotação dos animais pelas áreas de pasto também deve ser cuidadosamente estudada de forma que se dê tempo para a recuperação da massa verde. Em geral, os bovinos ficam de três a quatro dias na mesma área, que, após esse período, fica em descanso de 21 a 45 dias. Isso porque uma planta fraca – desfolhada permanentemente pelo animal – não consegue utilizar com eficiência a irradiação solar, o solo, a água, e, por isso, o resultado em produção foliar é decrescente, e oferta irregular de nutrientes para o animal em pastejo. Essa situação piora no período da seca, reduzindo ainda mais o ganho de peso e alongando a idade de abate. “O contínuo ajuste ao longo do ano entre a demanda e a oferta de nutrientes para os bovinos em pastejo é a base para uma pecuária eficiente. O manejo correto das pastagens consiste basicamente em manter uma harmonia entre a boca do boi e o pasto”, diz o pesquisador da Embrapa.

SUPLEMENTOS

Hoje, no mercado, existem basicamente dois tipos de suplemento. O sal proteinado busca atender a um déficit de nitrogênio no rúmen. Já os suplementos energéticos visam o ganho de peso, independentemente da época do ano.

O uso do sal proteinado (também denominado sal protéico ou mistura múltipla) está associado com uma baixa oferta/animal e, por isso, com custo relativamente baixo. A exigência protéica do animal não pode ser atendida exclusivamente com uréia. É preciso também fontes de proteína natural. Na situação de pastagens secas, pelo menos 25% da exigência de nitrogênio no rúmen deveria ser atendida via proteína natural. Além desse cuidado, é necessário também que exista na dieta uma quantidade adequada de carboidratos solúveis, recomenda Thiago. O uso do sal proteinado é comum no período em que as pastagens estão maduras e secas (inverno), mas seu emprego também no verão vem crescendo a cada ano.

Na primevera, deve-se planejar o volume de matéria verde que será utilizada como silagem


Volume reserva

Com a chegada da primavera, é hora de definir os parâmetros para a produção de silagem que atenderá ao rebanho no inverno de 2006. Na hora de fazer o cálculo sobre qual a quantidade necessária de matéria verde para elaboração das silagens, e adiantar as compras de complementos, é preciso definir quantos animais serão submetidos à engorda e qual a média de ganho de peso necessária para tal confinamento.

Em um exemplo hipotético, criado pelo professor do Departamento de Zootecnia da Esalq/USP, Luiz Gustavo Nussio, um dado criador pretende engordar 100 animais. Levando em conta que cada um deles tem cerca de 400 kg e que se deseja obter ganho de peso de 800 gramas a 1.000 gramas/ dia, o ideal seria confinar os animais com uma silagem de 10 kg de matéria seca ao dia, sendo 5 kg de matéria seca de silagem (ou seja, cerca de 18 kg de silagem úmida) mais 5 kg de concentrado (5,7 kg de concentrado úmido). Levando em conta perdas médias de 20% na lavoura, seria preciso produzir 3.240 quilos de matéria verde de milho picado para alimentar cada cabeça no período.

Se a produtividade média na propriedade é de 40 toneladas de “massa” por hectare, seria necessário cultivar 8 hectares para atender a 100 animais, sendo que cada hectare alimentaria 12,3 bois, num total de 320 toneladas de silagem. Na conta do produtor, também deverá estar os gastos com a dose de complementos necessária. Os mesmos animais demandariam nos 150 dias 855 kg/cada, num total de 85,5 toneladas. Além de garantir o confinamento, guardar matéria verde significar estar preparado para possíveis imprevistos, como descuidos na taxa de lotação, distribuição irregular de chuvas ou incidência de geadas e acidentes com fogo.

A matéria verde deve ser bem protegida para evitar perdas. Para manter as condições ideais, recomenda-se vedação para evitar a presença de ar e a conseqüente decomposição dos materiais. “Essa matéria fica picada e bem compactada nos silos, fermentando sem contato com o ar”, recomenda o pesquisador da Embrapa Gado de Corte, Luiz S. Thiago. A qualidade da silagem também depende do momento de corte da planta, do tamanho de partícula e da boa compactação da massa ensilada, o que deve ocorrer num prazo de até quatro dias. O momento para o corte deve estar baseado no teor de carboidratos solúveis e de umidade da planta. Para o milho, o corte deve iniciar após o “ponto de pamonha”, quando o teor de matéria seca estiver entre 30% e 35% e a planta com 95 e 115 dias de crescimento (rendimento médio de 30 toneladas/ ha de massa fresca). No caso do sorgo, o momento do corte é quando os grãos do meio da panícula estiverem no ponto pastoso-farináceo, coincidindo com 90 e 110 dias de crescimento (rendimento médio de 40 toneladas/ha de massa fresca). O silo pode ser aberto 30 dias após seu fechamento.

Além da silagem, há outras opções de volumosos, como o feno e as capineiras. O processo de fenação consiste na rápida secagem da forragem no campo, logo após o seu corte, baixando o seu teor de umidade de 80%-70% para 12%-15%. Entre as capineiras, o capim-elefante é bastante utilizado como reserva de forragem para corte diário, principalmente na pecuária de leite, mas grande parte de sua produção anual concentra-se no período chuvoso e o seu crescimento acumulado resulta em queda acentuada no valor nutricional.

Assim, seu potencial forrageiro para a época de seca é bastante reduzido, mas sua alta produção no período das águas pode contribuir no manejo alimentar de uma propriedade rural. Outra opção seria a cana-de-açúcar, que vem sendo, a cada dia, mais utilizada na alimentação de bovinos de corte. Segundo o pesquisador da Embrapa, um hectare de cana permite alimentação de 50 cabeças de gado, entretanto é um alimento desbalanceado, com baixos teores de proteína e altos teores de açúcar, não sendo aconselhável o seu uso como alimento exclusivo.