Fêmea

Seleção Rigorosa

Conheça os principais critérios que devem ser adotados para que a seleção de fêmeas na propriedade não seja motivo de dor de cabeça

Gabriel Bononi
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Uma boa seleção de fêmeas é extremamente importante para o bom andamento da propriedade e, conseqüentemente, dos negócios. Essa afirmação é unânime entre os pesquisadores e pecuaristas ligados ao gado de corte e de leite. Mas como fazer uma boa seleção de fêmeas? Em que, de fato, isso pode influenciar nos negócios?

De acordo com Juliana Cristina Sesana, zootecnista da Agropecuária Jacarezinho, uma das maiores empresas selecionadoras de fêmeas do País, uma boa seleção para fêmeas influenciará na taxa de desfrute do rebanho, ou seja, no faturamento da empresa. “Há um benefício em todas as categorias do rebanho: matrizes mais férteis, mais bezerros por uma mesma quantidade de matrizes e, conseqüentemente, e ao longo do tempo, machos melhores e mais precoces”, afirma a zootecnista.

Para Thais Basso Amaral, veterinária com mestrado em Produção Animal pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, o produtor deve ter em mente que se os índices reprodutivos forem baixos, todo o sistema de produção estará comprometido. “O bom gerenciamento, associado às práticas de manejo adequadas e uma boa seleção das matrizes, proporcionará ganhos econômicos ao produtor.”

Juliana afirma que primeiramente a propriedade deve ter uma estação de monta. “Sem a estação não há como saber quais são as fêmeas que dão cria a um bezerro por ano ou não. Se houver fêmeas que não estão conseguindo vencer esse objetivo, devemos descartá-las, pois elas estão ocupando o lugar de animais mais produtivos. Menos vacas parindo significa menor quantidade de bezerros, conseqüentemente menor desfrute.” Juliana afirma ainda que expor mais cedo as fêmeas também é uma boa opção, pois os animais mais precoces são também os mais férteis.

De acordo com Thais, o processo de seleção deve ocorrer em duas fases. Em vacas adultas, com mais de uma cria, a escolha precisa ser feita no momento do diagnóstico de gestação, que muitas vezes coincide com a desmama dos bezerros. Os descartes devem ser feitos em fêmeas vazias, que apresentem problemas de peito perdido, que rejeitaram os bezerros, em fêmeas que desmamaram um bezerro muito leve e em animais cujo resultado deu positivo para o exame de brucelose.

“É claro que esse descarte deve ser gradual e contínuo. Em caso de uma natalidade muito baixa, não se pode descartar todas as fêmeas vazias e mais aquelas pouco produtivas, pois provavelmente o problema que ocasionou a baixa natalidade seja de manejo e não de baixa produtividade de uma fêmea isoladamente. Portanto, primeiro, os problemas de manejo devem ser identificados e corrigidos antes de se realizar um descarte muito alto”, alerta Thais.

Em novilhas que entrarão na estação de monta, em se tratando de um rebanho estabilizado, com uma taxa de natalidade de 80%, poderão ser selecionadas 50% das fêmeas. A primeira etapa da seleção pode ser feita à desmama. Em torno de 10% a 20% das fêmeas mais leves tendem a ser descartadas. A próxima etapa é antes do início da estação de monta. Fêmeas abaixo de 280 kg, no caso da raça nelore, podem ser descartadas. Também é recomendado que se faça uma avaliação ginecológica, e aquelas que apresentarem aparelho reprodutor pouco desenvolvido para a idade também podem ser descartadas.

De acordo com o professor Ed Hoffmann Madureira, da USP de Pirassununga/ SP, os índices de reprodução são os que mais influenciam o resultado econômico da exploração de bovinos, seja de leite ou corte. A seleção das fêmeas que devem compor um rebanho é um dos principais pontos que permite ajustar a produtividade. Segundo o professor, são características importantes de uma boa matriz a precocidade sexual, a capacidade de apresentar estros regularmente e conceber quando inseminadas natural ou artificialmente, a boa habilidade materna, a rusticidade e a resistência a endo e ectoparasitas, além da capacidade de apresentar bom desempenho apesar das altas temperaturas ambientais e capacidade de possuir e transmitir características produtivas desejáveis, como padrão da raça, ganho de peso, qualidade de carcaça.

A ESCOLHA DA RAÇA INFLUENCIA?

Há situações nas quais a escolha de uma raça pode ser a melhor alternativa para obter uma boa seleção de fêmeas. Animais com maior potencial de desempenho devem ser empregados nos sistemas de produção com maior capacidade de atendimento de suas exigências nutricionais. O professor Ed Madureira afirma que, no Brasil, onde os sistemas de criação ocorrem em regimes exclusivos de pastagens formadas, predominantemente por gramíneas tropicais, havendo grande influência sazonal na produção de forragens, o tamanho das vacas passa a ser importante na determinação da eficiência biológica e econômica dos sistemas.

Para a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, a raça deve ser escolhida em função da capacidade de adaptação ao ambiente no qual ela será criada. “Por exemplo, em regiões de clima mais quente, deve-se optar por raças zebuínas ou cruzamentos, pois nesses locais, rebanhos puros europeus terão seu desenvolvimento prejudicado em função do estresse térmico”, informa. Portanto, é fundamental observar as condições onde esses animais serão criados. Raças mais exigentes em termos de alimentação deverão ter acesso a pastagens de alta qualidade ou então à suplementação alimentar, caso contrário, o resultado que se terá com esses animais ficará muito aquém do esperado.

GERENCIAMENTO É TUDO

Um fator determinante na boa seleção de fêmeas é ter um bom gerenciamento da propriedade. Esse fator é essencial para que se obtenha bons resultados. O pecuarista precisa ter um sistema que permita identificar os pontos críticos e, conseqüentemente, tomar as decisões necessárias. Ele deve poder identificar quais fêmeas desmamam bezerros abaixo do peso recomendado, quais as fêmeas vazias, quais as que rejeitam os bezerros, além de controlar a idade média das vacas do rebanho, pois manter vacas muito velhas no rebanho também reduz a produtividade do sistema.

Thais afirma que o índice que deve ser utilizado para monitorar o bom andamento de um sistema de cria é a taxa de nascimento de bezerros. “Não adianta obter uma boa taxa de prenhez se na época dos nascimentos o número de bezerros nascidos for menor do que o esperado. Portanto, uma boa forma de avaliar o desempenho reprodutivo do rebanho é o número de bezerros nascidos sobre o total de fêmeas que entraram em reprodução.”

Porém, nem todas as características desejáveis em uma matriz poderão ser selecionadas geneticamente. Muitas características reprodutivas possuem baixa herdabilidade, o que significa que não respondem bem à seleção, pois são muito influenciadas pelo manejo.

“Uma vez escolhidos os grupos genéticos que farão parte do sistema de criação, há que ser fazer uma seleção dentro do rebanho. Ela também deve levar em consideração aspectos genéticos e econômicos. A substituição de matrizes menos produtivas por novilhas ou por matrizes com maior potencial representa uma grande vantagem ao pecuarista”, diz o professor Madureira. “Vacas que apresentam intervalo entre partos em torno de 12 meses são bastante desejáveis. Entretanto, eliminar fêmeas vazias ao final da estação de monta, embora seja essencial do ponto de vista econômico, não é garantia de que ocorrerá significativo melhoramento genético para essa característica com o passar dos anos”, explica.

Em rebanhos com o número de animais já estabilizado, é viável uma taxa de renovação em torno de 20%. Se a taxa de prenhez na estação de monta for superior a 85%, além das vacas vazias deverão ser descartadas outras que porventura não apresentem o desempenho desejado, levando em consideração a idade, a habilidade materna e outras características de importância zootécnica. Em propriedades com taxa de prenhez inferior a 85%, quase toda oportunidade de descarte de matrizes será consumida com o descarte de vacas de baixa eficiência reprodutiva (descarte involuntário). “Se é pretensão do criador obter ganho genético para características de alta herdabilidade, como idade à puberdade, ganho de peso, qualidade de carcaça, é essencial que as taxas de prenhez sejam de no mínimo 85%”, afirma o professor.

Vacas zebuínas são bastantes longevas e podem atingir o máximo de seu desempenho reprodutivo ao redor dos 8 anos de idade, mantendo-se em níveis aceitáveis até aproximadamente os 15 anos. Entretanto, manter animais de idade avançada no rebanho atrasa o melhoramento genético por aumentar o intervalo entre gerações. Além disso, se as taxas de prenhez são superiores a 85% e o programa de melhoramento genético é bem direcionado, todo ano haverá fêmeas jovens melhoradas para substituir matrizes mais velhas.


Escolha de vacas pré-estação de monta em programas de IATF

A Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) tem sido uma ferramenta cada vez mais empregada nos sistemas de produção de gado de corte. A inseminação artificial (IA) é uma ferramenta muito valiosa, tanto nos rebanhos de elite como nos comerciais, com a possibilidade de cruzamento de fêmeas bovinas com touros taurinos, dado a incapacidade de o taurino manter aceitável desempenho reprodutivo, em monta natural, em condições tropicais. O principal problema da IA é a detecção do estro, geralmente praticada com eficiência inferior a 60% e que traz prejuízos enormes à taxa de prenhez na estação de monta.

A IATF possibilita a IA, sem a necessidade de se detectar o estro, desde que os protocolos hormonais sejam adequados. Assim, as vacas devem estar paridas há pelo menos 40 dias, apresentar escore de condição corporal maior ou igual a 5 (escala de 1-9; Tabela 1) e condição ovariana 1 ou 2 (escala 1-3; Tabela 2).

As vacas selecionadas seguindo esses critérios deverão apresentar uma taxa de prenhez ao redor de 50%, já no primeiro dia da estação de monta, com IATF. Após a IATF, pode-se introduzir os touros para dar continuidade à estação de monta. Ao final da mesma, poderá ocorrer um incremento da taxa de prenhez da ordem de 8%, sendo que, em média, os bezerros serão 22 dias mais velhos do que os nascidos no lote submetido apenas à monta natural.