Genética

A Genética como dínamo de projetos

O Brasil é o maior exportador de carne do mundo, com cerca de 2,5 milhões de toneladas em 2005, e detém o maior rebanho comercial, com quase 200 milhões de cabeças. Por outro lado, a pecuária perde pelo menos 3 milhões de hectares/ano de área de pastagens para a agricultura, o que exige dos pecuaristas crescente profissionalização e maior eficiência.

A multiplicação dos animais de maior valor comercial é fundamental para acompanhar as necessidades da cadeia produtiva da carne bovina mundial. Hoje, mais importante do que você ter uma grande produção, é ser produtivo. E como aliados fundamentais à pecuária de precisão estão os processos biotecnológicos, ferramentas fundamentais para o fortalecimento na reprodução das raças. As variadas técnicas da genética aplicadas freqüentemente nos projetos pecuários variam desde a inseminação artificial, passando pela transferência de embriões, fertilização in vitro (FIV) e sexagem até a bipartição de embriões, utilizada atualmente em parte do processo genético da Casa Branca Agropastoril.

A transferência de embriões (TE), completamente dominada e já bastante disseminada na pecuária comercial, é a base para a técnica que está sendo estudada e praticada em apenas algumas fazendas no Brasil conhecida como bipartição de embriões. Usada comercialmente há 20 anos no exterior, essa técnica segue os mesmos passos iniciais da TE. No meio do processo, porém, quando os embriões estão com sete dias, vão para o laboratório onde ocorre sua divisão em duas partes. A partir daí cada hemi-embrião desenvolvese sozinho no útero de duas receptoras, que continuarão a gestação. A bipartição de embriões origina indivíduos geneticamente idênticos, gêmeos, como também pode acontecer em monta natural.

Para que esse procedimento proporcione os resultados esperados, é preciso trabalhar com material genético de altíssima qualidade e proveniente de transferência de embriões, não de fertilização in vitro, pois o primeiro tem maior estabilidade e integridade física. A receptora deve ser bastante fértil, com estatura compatível com o tamanho do bezerro e ter habilidade materna.

BIPARTIÇÃO DE EMBRIÕES

A Casa Branca Agropastoril, que trabalha com as raças simental, red angus e brahman, está investindo na bipartição de embriões como alternativa para intensificar a produtividade na pecuária a partir da multiplicação genética dos seus melhores animais. Os primeiros resultados são promissores, com incremento de 33% e 20% (aos 28/31 dias e aos 60/80 dias, respectivamente) na taxa de gestação de vacas receptoras que receberam embrião bipartido em relação às fêmeas com embriões intactos transferidos. A bipartição demonstra ser vantajosa em relação à transferência de embriões. Após a aplicação em animais da Casa Branca, verificamos que um embrião intacto fornece taxa de gestação de 60% a 65%. Quando bipartido, cada hemi-embrião fornece taxa de gestação de cerca de 45% a 50%. Somando a taxa de gestação de ambos, a bipartição oferece índice de concepção até 40% superior à do embrião intacto!

Também é possível fazer gestação gemelar. Efetuamos essa tentativa com o intuito de reduzir o número de receptoras e, por conseqüência, evitar o aumento de custos. Porém, esse tipo de gestação não se mostrou adequada, já que as gestações eram interrompidas próximas do nascimento. A questão da viabilidade econômica também é fundamental para o sucesso da bipartição de embriões, pois é preciso considerar investimentos em equipamentos e em maior número de fêmeas receptoras, uma vez que a técnica gera número maior de embriões.

A bipartição de embriões surge como uma técnica moderna e que se pode provar economicamente viável com escala de produção. Esses processos permitem melhor aproveitamento da genética animal, encurtando o trabalho de seleção. A Casa Branca apóia o projeto de bipartição de embriões porque confia na ciência para aumentar a produtividade. Afinal, o agronegócio brasileiro comprova cada vez mais o seu papel de pilar da economia brasileira.

A pecuária é uma das mais importantes atividades rurais do Brasil. E sua força decorre, também, da utilização das mais modernas tecnologias disponíveis e em desenvolvimento. A bipartição exige custos adicionais com receptoras, mas também gera mais bezerros por safra. Como há expectativa otimista para a valorização do preço do gado ao produtor em futuro próximo, o investimento poderá ser compensador, sem mencionar a crescente valorização dos animais diferenciados.

O sucesso já alcançado pela carne brasileira no mercado externo é o indicador mais visível do trabalho realizado nos bastidores da pecuária e que reflete toda a cobrança por profissionalização e produtividade que invade o campo. Pensar que o meio rural é atrasado, precário em recursos e desqualificado significa virar as costas para um gigante, que representa um terço de tudo o que é produzido no Brasil. Não estamos falando em pouca coisa: são mais de US$ 200 bilhões/ano.

Assim como ocorre no meio urbano, o pecuarista que não administra sua propriedade com foco empresarial não sobrevive às exigências cada vez maiores em termos de produtividade, eficiência, genética e gestão. O primeiro passo nesse sentido é a definição de um programa de qualidade e excelência, que envolva capacitação de mão-de-obra, treinamento constante, bons salários, responsabilidade social e respeito ao meio ambiente. Esses fatores unidos estão na base da produção de qualidade. Além dessa estrutura, há outro fator indispensável nas empresas pecuárias: a tecnologia. Hoje em dia não é viável economicamente a execução das tarefas mais simples até as mais complexas sem o apoio indispensável de um sistema informatizado. É nesse cenário altamente exigente em resultados que surgem técnicas de melhoramento genético com potencial de retorno econômico e aumento da produtividade, como a bipartição de embriões.

Em tempos de baixa remuneração ao produtor, contenção de despesas e diminuição das margens de lucro, buscar a redução de custos é essencial, mas o investimento em genética, por exemplo, precisa ser realizado, sob pena de colocar em risco toda a estrutura, por mais organizada que seja. Afinal, a genética está diretamente ligada à maior produção de bezerros, à evolução do ganho de peso, da fertilidade, da oferta de carne. E isso tudo reverte em melhor remuneração.

Os números de exportação reforçam essa necessidade. O mundo quer consumir carne e o Brasil tem todas as condições de bater novos recordes de venda. Mas, para continuar avançando, é preciso ter oferta de qualidade, o que se consegue apenas com o profissionalismo que invade nossas fazendas e com a indispensável base genética superior.

*Pecuarista, proprietário da Casa Branca Agropastoril, conta com quatro fazendas para seleção, produção e avaliação da genética simental, red angus e brahman