Matéria de Capa

ENGRENAGEM ajustada

Gestão sanitária e nutricional sob o foco do Bem-Estar eleva eficiência reprodutiva das matrizes e estabelece círculo virtuoso contínuo entre evolução zootécnica e lucratividade

Ivaris Júnior

Para muitos, pensar na saúde do rebanho ainda significa apenas obedecer a um calendário de manejo e vacinação. Contudo, essa visão tornou-se mais abrangente e detalhista, principalmente com as crescentes exigências dos consumidores por segurança alimentar, bem-estar animal, sustentabilidade e qualidade do produto final. Hoje, a sanidade constitui-se numa peça fundamental da engrenagem pecuária, composta também por nutrição, genética, manejo e meio ambiente. E tem como base a leitura meticulosa do potencial e o perfil de cada negócio para que funcione a pleno - e na potencia máxima - para atender o conceito, que visa, sobretudo, à saúde do campo à mesa. O desafio do pecuarista está, justamente, em conectar essas peças para que, juntas e interdependentes, realizem um ciclo mais produtivo e rápido, sem que uma comprometa o desempenho da outra. Na prática, é disponibilizar comida ao rebanho, com qualidade e quantidade compatíveis com o perfil de criação, é oferecer um ambiente favorável ao gado, com instalações adequadas, pastagens cultivadas, oferta abundante de água e sombra. É adotar um manejo racional, vacinar, vermifugar, adotar ações veterinárias pontuais. É utilizar uma genética capaz de melhorar o rebanho e dar competitividade à atividade, e lembrar que o bom e velho capital humano sempre impactará no resultado final desejado.

É nesse cenário que a saúde das fêmeas ganha destaque, principalmente porque elas trazem no ventre uma moeda, por ora, rara e muito valorizada no mercado. Em tempo de reposição apertada, as matrizes se configuram no motor de uma máquina que está em reinício de ciclo e sob a impiedosa peneira da profissionalização. Com a arroba ultrapassando barreiras inimagináveis até pouco tempo - em 21 de outubro, a R$ 268,20 (Cepea/B3) e a R$ 290,45 no mercado futuro para dezembro (Scot Consultoria) -, atentar à saúde dessas mães é mais do que obrigação e custo a quem pretende sobreviver no mercado. É, mais do que nunca, um investimento.

Cuidados iniciam antes da concepção

Todas as ações realizadas durante o processo reprodutivo têm seu momento exato de execução de modo a conferir mais saúde ao animal e ampliar a lucratividade do criador. O trabalho deve começar antes da cobertura, por meio dos exames ginecológicos e até andrológicos (para o touro destinado ao serviço). As ações continuam após a fecundação, vão até a parição, seguem no pós-parto e chegam à reconcepção, e, assim, sucessivamente. Trata-se de um círculo virtuoso contínuo para promover saúde a cada geração. Para as bezerras nascidas para reposição, também existe um protocolo de saúde por meio de vermifugação e da vacinação contra doenças de interesse. Uma estação de monta bem planejada, nos mínimos detalhes, faz com que as ações sanitárias sejam realizadas de forma a maximizar os índices de prenhez e/ou ampliar a chance de sucesso em nova manifestação de cio, independentemente do intervalo de tempo do anestro e dos recursos de assistência para Inseminação Artificial (IA) ou Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), do número de protocolos, de repasses etc.

Em uma propriedade onde o calendário vacinal é cumprido, as fêmeas já chegam à estação de monta vermifugadas e imunizadas contra doenças reprodutivas como Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR), Diarreia Viral Bovina (BVD) e leptospirose, além de outras como brucelose e clostridioses. Contudo, no período de gestação, aos 60 e 30 dias que antecedem o parto, é recomendável vaciná-las contra diarreia neonatal, doença provocada por vários patógenos (vírus e bactérias), visando à proteção da cria.

Após a segunda dose dessa vacina, as fêmeas devem seguir para a maternidade, uma área com pastagem limpa, sem arames, pedras e carrapatos em excesso, próxima dos olhos dos tratadores. É preciso ter em mente que o espaço vai receber seres vivos recém-nascidos, saídos de um ambiente estéril (útero da mãe) para entrar em outro totalmente inóspito, pelo menos inicialmente. Conforme destaca Vanessa Felipe de Souza, pesquisadora da Embrapa Gado de Corte, mestra e doutora em Virologia com ênfase em Doenças Infecciosas, medicina preventiva e uma das autoras do calendário de manejo sanitário e zootécnico da instituição, o local deve oferecer os menores riscos possíveis. “Quanto menos contaminado, maiores são as chances de sobrevida dos bezerros que, logo após o nascimento, terão amamentação de colostro (fonte de imunidade adquirida apenas da mãe) e seus umbigos tratados”. Na fase jovem da vida de um bovino, há outro protocolo de vacinas, especialmente para que as fêmeas cheguem à reprodução com saúde plena como suas mães.

A pesquisadora atenta, ainda, para a qualidade dos insumos. Em função do contrabando de vacinas e medicamentos, o produtor deve somente utilizar aqueles com a devida validação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), todos relacionados no site da pasta, cumprindo acertadamente o recomendado nas bulas dos produtos. “Esses, com certeza, vão funcionar e não trarão prejuízos nem causarão efeitos adversos. Atenção também a profissionais que não agem em conformidade. Eles estão sujeitos a processos éticos. O produtor não deve pensar somente em prejuízos, mas vislumbrar o montante que deixará de ganhar com a omissão de fazer o correto. Saúde é investimento e não custo”, declara Vanessa de Souza. Nos machos em serviço na estação de monta, deve-se verificar como está a produção espermática no que diz respeito à qualidade e à quantidade de espermatozoides, seja na cobertura a campo ou mesmo nas doses de sêmen em IA. As condições corporais gerais e o sistema reprodutivo das fêmeas são avaliados pelo toque somente após o processo de descarte, que varia de acordo com a estratégia de cada fazenda. Algumas as descartam após ficarem vazias em duas estações de monta consecutivas. Outras, imediatamente à primeira falha, até mesmo quando se trata de primeira oportunidade de alcançar prenhez. Essas, no entanto, podem ganhar uma segunda oportunidade, principalmente quando suas propriedades forem pequenas e houver dificuldade na reposição. “E aqui não há julgamento de valor, apenas ponderação dos critérios que envolvem a produção de crias”, explica Vanessa de Souza.

Fêmeas precoces em reprodução

Para os modelos que emprenham fêmeas zebuínas precoces (entre 12 e 15 meses), a sanidade requer atenção especial. Embora produzam um bezerro a mais do que as criadas no ciclo tradicional, elas trazem a problemática de uma prenhez realizada ainda durante a fase de desenvolvimento. Por serem muito jovens, desafiadas a reproduzir e reconceber na estação de monta seguinte, elas exigem nutrição diferenciada, ambiente favorável, genética específica e manejo de ponta. “Sem tais condições não adianta tentar. De que adianta investir em uma novilha de pais com Diferenças Esperadas de Progênie (DEPs) indicativas de precocidade se, na fazenda, ela vai passar fome e não terá condições de produzir, em seu metabolismo, os devidos hormônios para responder positivamente ao desafio?” questiona professor da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS), Gustavo Guerino Macedo, veterinário com mestrado em Ciência Animal e doutorado em Reprodução. Para o especialista, o manejo exerce papel determinante na saúde das novilhas precoces zebuínas, especialmente na estação de monta subsequente das paridas até 24 meses. O mestre cita como exemplo um estudo sobre reprodução superprecoce, realizado por Bruno Gonçalo Freitas, técnico da Ourofino Saúde Animal e orientado do professor da Universidade de São Paulo (USP) Pietro Baruselli, em propriedade no município de Três Lagoas (MS). A pesquisa, envolvendo 24 mil fêmeas criadas com tecnificação e procedimento sanitário cumprido na íntegra, mostrou primíparas precoces com escore corporal “3” e 60% positivas em IATF, mais efetivas do que as multíparas (50% positivas) por terem condições corporais superiores. As inferiores ficaram vazias, sem exceção.

O contexto demonstra, segundo Macedo, que se o manejo e a dieta conseguissem levar mais fêmeas ao escore corporal citado, a resposta seria ainda melhor. “O rebanho que almejar produzir bezerros já a partir de fêmeas Nelore precoces precisa de um outro planejamento e estrutura. Mas é um caminho sem volta, dado o nível superior de exigências que o rebanho passará a ter. Essas fêmeas estarão em um hotel com diária mais alta”, explica o professor da UFMS. “Mas, colocando tudo na ponta do lápis, em conta simples de padaria, os bezerros nascidos a mais pagam a conta e ainda geram mais recursos no caixa e ampliam as margens”, pontua. Uma vez identificadas as bezerras precoces, seja por DEPs, avaliações visuais ou ultrassonográficas do aparelho reprodutivo, com o objetivo de emprenhá- las até os 15 meses (peso em torno de 300 kg), automaticamente a recria tradicional estará banida. Caberá ao novo manejo e dieta estimularem seu desenvolvimento, tanto pela oferta de volumoso e suplementação quanto pela genética empregada. Tudo isso partindo do princípio de que a cartilha da saúde animal, incluindo as doenças reprodutivas, foi rezada. Vale ressaltar que as precocinhas estão mais suscetíveis às perdas embrionárias, principalmente no terço inicial e no final da gestação. “É verdade que vacas também estão mais suscetíveis a isso. Mas, em função desse fenômeno, muito se estuda sobre a eficácia das vacinas quanto ao seu nível de imunização na categoria precoce. Há estudos para estabelecer o melhor protocolo de tempo (90 ou 45 dias antes da estação de monta) na indução dessas bezerras à puberdade. De qualquer forma, mesmo em evolução, a estratégia já se mostra rentável”, esclarece o docente.

Ponto cego

A sanidade das fêmeas que passam por processos de IA ou IATF é um dos fatores primordiais para o sucesso, mas pode, de forma silenciosa, interferir negativamente no índice de prenhez. A situação decorre quando, por falta de controle, o ambiente uterino das matrizes é afetado por fatores metabólicos, hormonais e, consequentemente, sanitários. O resultado, muitas vezes, só é percebido quando o animal está apartado do grupo e, até mesmo, deitado. E, equivocadamente, leva criadores a colocar a eficiência de ambos os procedimentos em xeque. Segundo Macedo, o produtor questiona por quais motivos obtém maior índice de prenhez com IA do que com IATF, mas não contabiliza as rodadas seguintes. “Com IA, ao final de 30 dias, tem-se 80% das fêmeas prenhas, enquanto que, na IATF, apenas 60%. Vale a pena?”, exemplifica. E ele mesmo explica: “Muitas vezes, vemos que nessa IA de 80%, após 45 a 60 dias, o índice caiu para 50% e até para 30%”, diz. Para diminuir a possibilidade de perdas decorrentes da sanidade durante ambos os processos, o controle deve ser o mais rígido possível. Somente assim, o investimento também aplicado em estrutura, mão de obra, medicamentos e matéria-prima não se perderá. Os animais precisam estar identificados, constar em planilhas, ter históricos registrados individualmente e capacidade de entrar em reprodução identificada. Deve-se administrar um novo protocolo de hormônios ou encaminhar as fêmeas ao repasse, com segurança, somente após a confirmação de prenhez. “A IATF trouxe ajustes finos na ciclagem das fêmeas, principalmente para tirá-las do anestro, evitando que tudo dependa dos olhos dos peões, que, agora, podem ter folga aos domingos”, explica Macedo. A IATF manipula a ciclicidade e a concentra estabelecendo uma rotina muito mais ágil e menos traumática para os animais, além de garantir o melhoramento genético, uma vez que o sêmen utilizado pode ser de animais realmente provados nas características desejadas.

GENÉTICA, NUTRIÇÃO E MEIO AMBIENTE

Para atingirem o máximo potencial produtivo e reprodutivo, as matrizes devem estar em ambientes adequados às suas características genéticas. Por isso, raças taurinas, zebuínas e sintéticas apresentam respostas distintas de acordo com as condições climáticas a que são submetidas. “Devemos olhar muito bem para o ambiente e sua capacidade de gerar bem-estar animal, visando ao lucro. Quem enxergar diferente estará fora do negócio pecuário da mesma forma que os que derem as costas ao conhecimento e às tecnologias disponíveis”, ressalta Gustavo Macedo, da UFMS. “Lutar contra isso é sempre mais dispendioso. Paixão, nessa hora, impede a construção de uma atividade competitiva e rentável”, completa. A manifestação do máximo potencial genético das fêmeas, porém, inexiste sem um bom regime alimentar, constatação sabida por muitos, mas aplicada por poucos. “Pensando em uma pirâmide, na base, temos a dieta adequada para que o indivíduo possa expressar todo o seu potencial genético, que é, no caso, a ponta da pirâmide”, compara Vanessa de Souza, da Embrapa Gado de Corte. De acordo com ela, a dieta de uma fêmea começa antes mesmo de ela nascer, através da alimentação da sua mãe, o que irá, também, interferir na segurança alimentar como um todo. “Uma mãe bem alimentada produzirá crias bem nutridas. Se não formos capazes nutri-las com uma dieta com qualidade e quantidade alimentar, inevitavelmente, teremos prejuízos, seja no volume de carne ou no de leite”, explica. A consequência também recairá sobre o consumidor, que não terá a garantia de um alimento saudável. “Se o animal é sadio, seu produto final também o será”, compara.

Um adequado regime alimentar também é regido pelo meio ambiente em que o animal é criado, fator de grande diversidade no Brasil. “Vale lembrar que esses biomas, em suas características e peculiaridades, podem ser ou não mais exigentes e também modificados pelo homem em função da sua capacidade de investimento (retorno financeiro da atividade)”, lembra a pesquisadora. Nesse cenário, um dos itens mais importantes é a temperatura. O Sul do Brasil, por exemplo, apresenta extremos de frio, ambiente propício às raças britânicas e europeias. Quando as baixas temperaturas alcançam a região central do País, caracterizada pelo calor, os bovinos predominantemente Bos indicus sofrem demasiadamente. Logo, em ambas as faixas da pirâmide – nutrição e ambiente –, encontramos a ação do homem e suas interferências para gerar conforto e melhor desempenho zootécnico. Criar áreas de descanso, por exemplo, para proteção de extremos de temperatura, representa proporcionar ou não maior conforto ao bovino, independentemente de sua maior ou menor capacidade de adaptação. “Tudo isso vislumbra o bem-estar animal, parâmetros de respeito à vida e de alta produtividade no sistema (maior lucro)”, salienta Vanessa.

Suplementação estratégica e manejo

O meio ambiente também será determinante para a suplementação proteico- energética mineral estratégica das fêmeas e deverá ser feita de acordo com cada categoria e com as exigências de cada fase de vida e do objetivo de cada animal. Também deverá ocorrer de forma a driblar as deficiências alimentares provocadas pelas condições naturais, como o regime de chuvas. O clima determinará ainda a utilização de diferentes estratégias de manejo, como o confinamento para abolição da recria - definitivamente ou em anos muito secos. A intensificação é usada, inclusive, para bezerras e novilhas destinadas à reprodução, principalmente se o objetivo for um acasalamento precoce, conforme orienta o coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Júlio Otávio Jardim Barcellos.

Para ele, o manejo alimentar das vacas de cria deve ser realizado por meio da categorização, de acordo com a idade ao primeiro acasalamento e a fase de gestação. “As vacas devem ser separadas em lotes de primíparas (matrizes ao primeiro parto), secundíparas (segunda cria) e multíparas (vacas com três ou mais crias)”, recomenda. A sugestão visa beneficiar as primíparas, categoria com maior demanda energética e prioritária no sistema de cria para que volte a emprenhar. “Isso ocorre porque essa vaca ainda não alcançou o seu peso maduro e, muitas vezes, se vê frente à tarefa de consumir energia suficiente para atender às suas necessidades de mantença corporal, crescimento e lactação”, pontua.


Principais doenças REPRODUTIVAS

• Brucelose: Doença bacteriana pouco diagnosticada, mas muito prevalente. Apenas uma pequena parcela do rebanho nacional é examinada adequadamente. Seu acometimento requer cuidados trabalhosos. Transmitida via oral e genital, provoca abortos e problemas de parto, além de produzir bezerros fracos, com baixa viabilidade.

• Leptospirose Bovina: Doença bem comum no território nacional. Embora seja uma bactéria amplamente disseminada, é mais frequente em locais ou períodos de maior umidade, podendo persistir no ambiente por até 180 dias. Após a contaminação, o agente leptospira possui várias cepas e causa a doença que atinge o trato reprodutivo, provocando aborto, natimorto e nascimento de bezerros fracos.

• Rinotraqueíte Infecciosa Bovina (IBR): Doença causada por um vírus (herpesvírus) que traz não só problemas reprodutivos, como também lesões em outros locais do organismo. O nível de várias lesões tende a acontecer principalmente em animais jovens, que foram contaminados por suas mães, enquanto que, em adultos, a contaminação ocorre principalmente via cópula.

• Diarreia Viral Bovina (BVD): Doença provocada por um vírus da família Pestivírus, parecido com aquele da Peste Suína. Em bovinos cronicamente infectados, o Pestivírus pode causar um quadro chamado de Doença das Mucosas. Na BVD, a infecção pode ser transmitida por inalação, via oral ou transplacentária (da mãe para o feto).

• Neosporose: Doença causada por um protozoário cujo hospedeiro definitivo é o cão, sendo o responsável pelo maior número das transmissões para bovinos. Há duas possibilidades de contaminação: vertical e horizontal. Na horizontal, o bovino ingere oocistos de Neospora. Na vertical, ocorre por transmissão transplacentária. Sua importância econômica é atribuída principalmente aos custos associados ao aborto, à diminuição da produção de leite e ao aumento do descarte e da reposição dos animais.

• Tricomoníase: Doença que, nas fêmeas, pode provocar inflamações na vagina, no cérvix e no útero, causando aborto nas fases iniciais da gestação ou apenas repetição de cio. Quando a fêmea se contamina, abortando ou não, elimina o agente por um período de cerca de oito semanas no muco cervical. Nesse período, elas raramente ficam gestantes. Já nos touros, geralmente, não são apresentadas lesões decorrentes, fazendo com que se tornem portadores assintomáticos e disseminadores do agente.

• Campilobacteriose: Doença que pode atingir machos e fêmeas. Nas fêmeas, a Campilobacteriose geralmente causa danos nas fases iniciais de gestação. Os principais efeitos estão relacionados à alteração do ambiente uterino, ao desenvolvimento embrionário, à dificuldade de implantação, à morte e à reabsorção embrionária.


Fêmeas superiores GENETICAMENTE

O rigor nas ferramentas de controle também é primordial para garantir a sanidade das fêmeas de alto valor genético. Por se enquadrarem em uma pecuária seletiva e gerarem maior receita do que comercial, também precisam de insumos de qualidade e prontidão no atendimento a pequenos traumas ou problemas, como nos cascos, por exemplo. É o que explica a professora da Faculdades Associadas de Uberaba (FAZU), Amanda Pifano Neto, doutora em Imunologia e Parasitologia Aplicadas.

O importante, nesse trabalho, é se valer da maior disponibilidade de recursos e fazer um monitoramento mais efetivo por meio de exames laboratoriais e de imagens. Dessa forma, segunda ela, “garante-se ao animal uma vida útil mais longa, até mesmo aos envolvidos na produção de embriões”. Do ponto de vista de manejo, as doadoras ainda devem contar com instrumentos estéreis, inibindo contaminação por agentes indesejáveis. Se o monitoramento sanitário for mais severo e a instrumentalização, mais requintada, a formação e a capacitação dos profissionais envolvidos no processo deverão, igualmente, ser mais qualificadas para garantir uma rotina eficiente ao rebanho. Os cuidados com o sêmen manipulado devem ser redobrados, pois sua produção e seu armazenamento podem comprometer a sanidade do produto e ameaçar a saúde das fêmeas.

Também não se deve perder de vista o conforto animal, reservando o melhor da fazenda, inclusive em instalações, para a categoria. A professora da FAZU chama a atenção, também, para os excessos da nutrição, da oferta de volumoso à suplementação proteica energética mineral. “Deposição de gorduras indesejadas comprometem a saúde do aparelho reprodutivo e o vigor das matrizes. A atenção de um nutricionista especializado resolve com facilidade tal problema”, conclui.


Agricultor de CAPIM

Conforme o especialista Cezar Vilella Gazola, engenheiro agrônomo e titular do laboratório Bio Farmer Bioanálises de Solos, em uma visão moderna, a sanidade do rebanho começa com a saúde da terra. Então, aqui, vale retomar outro jargão: o pecuarista é, antes de mais nada, um agricultor do capim. Ele defende que “cuidar da saúde do solo é aumentar a lucratividade da terra. Saudável, ele requer cada vez menos insumos para produzir mais e melhor”. E fêmeas mais bem alimentadas reproduzirão com mais saúde e eficiência.

Gazola afirma que uma única propriedade pode demandar várias investigações antes de o criador determinar o tipo de manejo que devolverá a qualidade à terra. Com ela bem manejada, o pensamento seguinte é o de fazer a melhor escolha das variedades de gramíneas e das sementes, partindo do ambiente e dos objetivos de produção. “Descompactação para aerar é sempre uma boa medida, assim como para melhorar a drenagem da água de chuva. Apesar de exigirem investigações mais profundas, ILP e ILPF – assim como o plantio direto – são grandes ferramentas na devolução de saúde ao solo”, conclui.

Por fim, a sanidade das fêmeas em reprodução é fundamental não apenas apontar os prejuízos na produção de carne ou leite, mas, também, para trazer à tona o que o produtor menos quer ver: o quanto deixou de lucrar por não promover a saúde no seu rebanho. Logo, passou da hora de a sanidade animal ser vista como custo, mas, efetivamente, como uma fonte de renda e, portanto, merecedora de todos os investimentos possíveis.