Leite

Momento DECISIVO

Doenças inflamatórias durante o pós-parto são principais causas de falhas no desempenho produtivo e reprodutivo das vacas

Vitor Marcassa 1

As doenças clínicas têm consequências negativas para a rentabilidade das fazendas leiteiras tal como para o bem-estar animal e o desempenho reprodutivo do rebanho. A otimização reprodutiva é um requisito óbvio e claro visando uma mantença da viabilidade econômica das operações leiteiras. No entanto, a perda de gestação em bovinos é substancial e prejudica a eficiência reprodutiva do rebanho como um todo. Embora a taxa de fertilização seja estimada em mais de 80%, até metade desses potenciais zigotos, células formadas pela fusão dos gametas masculino e feminino, deixam de sobreviver ao final da quarta semana de desenvolvimento, demonstrando que a sobrevivência embrionária no primeiro mês pós-fertilização é um ponto crítico do sistema. Embora menos frequente, a mortalidade fetal após o quadragésimo segundo dia de gestação também reduz significativamente a lucratividade das operações leiteiras. Por isso, estratégias de manejo, nutricionais e reprodutivas são necessárias para otimizar o desempenho reprodutivo de vacas leiteiras. Mas, onde será que os meus problemas começam? No início do protocolo reprodutivo?

Com o objetivo de responder tais perguntas, é importante contextualizar que as vacas, durante o período de transição, passam por diversos desafios, também chamados de estressores, ocorrências que as deixam mais suscetíveis em nível imunológico, nutricional e sanitário. Dentre esses desafios, podemos destacar a entrada no lote pré-parto, a queda no consumo de matéria seca (CMS) no pré-parto, o parto em si, a entrada no lote pós-parto e o novo ambiente a nova dieta que a vaca deve lidar. Com a redução na ingestão de nutrientes, os animais entram em balanço energético negativo (BEN), situação em que o requerimento nutricional é maior do que o consumo propriamente dito, levando-o a mobilizar os tecidos corporais que lhe fornecem energia para manter o metabolismo e a produção ativos. Isso, invariavelmente, os predispõe a doenças no período pós-parto que, como veremos a seguir, prejudicam a saúde e o desempenho produtivo e reprodutivo do rebanho. Atualmente, dispomos de tecnologias que podem auxiliar o programa reprodutivo do rebanho, como os protocolos de sincronização e/ ou ovulação com IA em tempo fixo (IATF). Entretanto, vacas detectadas com algum tipo de doença após a gestação (primeiros 21 dias) apresentam 30% menos chance de emprenharem novamente aos 45 dias após o parto (Figura 1). Para elas, a probabilidade de perda da segunda prenhez após o quadragésimo quinto dia da gestação é duas vezes maior, reduzindo em 42% suas chances de parir uma segunda cria com relação às que não adoeceram no referido período.

Doenças inflamatórias

As doenças inflamatórias que acometem as fêmeas logo após o nascimento da cria são as principais causas de falhas reprodutivas do rebanho leiteiro, e suas consequências podem ser percebidas em até quatro meses após a cura. Recentemente, Ribeiro e Carvalho (2017) relataram que, nesse período, cerca de um terço das vacas apresentam, pelo menos, uma ocorrência de doença clínica, principalmente durante as primeiras três semanas de lactação, tais como metrite, mastite, problemas digestivos, respiratórios ou de casco. Vacas com doenças clínicas também apresentam atraso na retomada da ciclicidade estral pós-parto. A situação prolonga o intervalo entre o parto e a primeira inseminação artificial (IA) pós-parto, amplia a ineficiência reprodutiva e onera todo o processo produtivo. Afinal, despesas com diagnóstico, tratamento, mão de obra, infraestrutura e logística para manejar os animais doentes fazem parte do custo direto do negócio, influenciando negativamente a receita.

Um parâmetro a ser observado e correlacionado com a ocorrência das doenças no pós-parto é a produção de leite durante toda a lactação, que, de fato, é o que paga a conta. Recentemente, Carvalho et al. (2019) demonstraram o efeito da ocorrência de doenças no pós-parto com a produção de leite até a semana 14 pós-parto. De maneira geral, animais que não apresentaram nenhuma doença clínica nos primeiros 21 dias após o nascimento da cria produziram 357 quilos e 703 kg a mais de leite do que os que apresentaram um ou dois casos de doenças nesse período, respectivamente (Figura 2). Trazendo a teoria para realidade, se estimarmos um preço de R$ 2,00/litro, podemos concluir que as ocorrências sanitárias registradas durante os primeiros 21 dias pós-parto penaliza o produtor em R$ 714/vaca e R$ 1,4 mil/vaca, respectivamente, até a semana 14 após o parto.

Manejo vacinal

Além do uso da IATF, a eficiência reprodutiva das vacas leiteiras depende um manejo vacinal adequado. Pereira et al. (2013) demonstraram que a vacinação de vacas leiteiras contra patógenos reprodutivos (herpesvírus bovino-1, vírus da diarreia viral bovina e leptospirose), durante o protocolo de IATF, otimizou o desempenho reprodutivo das nunca imunizadas antes contra esses patógenos (Tabela 1). Devido à alta incidência, as doenças inflamatórias (metrite, mastite, hipocalcemia, retenção de placenta) que ocorrem no período de transição (até 21 dias pós-parto) representam um problema importante no manejo produtivo e reprodutivo de bovinos, afetando diretamente a rentabilidade da operação leiteira. Fica cada vez mais evidente que a saúde da vaca leiteira durante o período inicial pós-parto tem implicações importantes para a produção da lactação inteira, reprodução e permanência no rebanho.

Sendo assim, a implementação de estratégias de manejo e nutricionais, durante o período de transição, que reduzam as incidências de doenças clínicas são primordiais para o sucesso da operação leitei- Foto: Shutterstock Figura 2. Impacto das doenças inflamatórias na produção leiteira pós-parto ra. Dentre as estratégias, podemos ressaltar o fornecimento de dietas aniônicas, conforto em nível de ambiência e de camas no composto/ free-stall, manejo nutricional que garanta uma dieta de qualidade e que atenda os requerimentos de energia, proteína, macros e microminerais, assim como de vitaminas. Além disso, é importante salientar que animais que apresentam problemas no período de transição terão problemas na qualidade do colostro a ser oferecido ao bezerro que, invariavelmente pode impactar a saúde e desempenho dessa progênie.

Zootecnista e Coordenador Comercial da Nutricorp