Pastagem

Sinal de ALERTA

Baixa fertilidade do solo é maior problema para o desenvolvimento da pecuária no Brasil

Bruno Santos e Thaise Teixeira
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Até a década de 1980, a pecuária de corte brasileira contava com grandes áreas de pastagens e era marcada pela produção extensiva, com uso de pastejo contínuo na maioria das propriedades. Porém, com a intensificação da atividade, os solos perderam gradativamente sua fertilidade e a grande maioria ainda carece de recuperação. Tanto que, hoje, o item é apontado por 42% dos criadores como o maior problema no desenvolvimento da atividade pecuária brasileira. O dado provém de recente pesquisa realizada, pela Embrapa, com 712 produtores para identificar os maiores gargalos na produção de pasto no País. E variou de acordo com os diferentes ecossistemas brasileiros. No bioma Amazônia, por exemplo, a menor tolerância ou a resistência às cigarrinhas e a elevada infestação de invasoras foram apontadas como problemas relevantes para 34% dos criadores. No bioma Cerrado, as invasoras preocupam 20% dos pecuaristas, e, no Pampa, 19%.

Segundo a pesquisadora da Embrapa Pecuária Sudeste e uma das responsáveis pela consulta, Patrícia Menezes Santos, a baixa fertilidade Bruno Santos e Thaise Teixeira Foto: Eveline Drescher do solo foi um dos 20 itens listados na pesquisa de livre escolha, na qual também se destacaram os custos para substituição e implantação do pasto, além de dificuldades de manejo. São itens que, para ela, podem justificar o fato de as pastagens ocuparem espaços “marginais” nas propriedades, lugares em que, normalmente, a prática da agricultura encontra limitações, ou por questões de tamanho, ou de clima, ou de solo, ou de infraestrutura. “Por isso, mesmo com todo o avanço da cana-de-açúcar no estado de São Paulo, por exemplo, ainda continuamos com muitas áreas de pastagens, inclusive, dentro de áreas de usina. São locais em que, por algum motivo, a cultura não dá certo”, cita.

O próximo passo do trabalho da Embrapa é afinar e cruzar informações sobre as especificidades de cada bioma. O objetivo é direcionar pesquisas e desenvolver produtos e serviços que possam, de fato, auxiliar o criador na tarefa de recuperar e nutrir o solo na produção de pasto. “Algumas soluções já existem, mas, muitas vezes, não estão acessíveis. Outras precisam de ajustes. Agora, conseguiremos trabalhar de forma muito mais assertiva”, explica Patrícia. O leque de novas soluções pode estar, por exemplo, no desenvolvimento de novas técnicas para fertilização do solo, mais acessíveis economicamente e operacionalmente ao produtor. Também pode apontar para fertilizantes específicos para as pastagens naturais ou cultivadas em cada ecossistema. Pode, também, servir de base para a criação de novos métodos e estratégias de manejo e adubação. E, da mesma forma, servir de base afinar pesquisas já realizadas ou em andamento.

Segundo Patrícia, é importante lembrar que os aspectos apontados na pesquisa precisam ser bem compreendidos e relativizados, pois não retratam conservadorismo ou falta de vontade de empenho do pecuarista. Mas, sim, que há um grande e complexo cenário no qual ele está inserido. “A gente precisa conseguir enxergar as soluções e a tecnologia dentro do contexto de cada sistema de produção para entender as reais dificuldades dos produtores para, então, oferecer a solução mais adequada aos problemas deles”.

Ambiente determina o manejo do solo e do gado

A falta de conhecimento sobre o ambiente culmina na adoção de estratégias e de manejos inadequados ao solo e ao pasto, resultando na perda de dinheiro e de tempo. Se a área estiver localizada em regiões de pastagens nativas, a informação torna-se ainda mais relevante, já que apresentam características naturais peculiares, como de temperatura, de volume hídrico e de espécies vegetais. “Aprender a lidar com essas áreas e garantir sua sustentabilidade é mais desafiador do que plantar capim”, destaca Patrícia.

De acordo com a pesquisadora, que também é agrônoma e mestra em Ciência Animal pela Universidade de São Paulo (USP), os cenários mais comuns são de criadores que começam intensificar a produção de pasto sem estruturar o negócio. “Frequentemente, vemos pessoas começarem a adubar sem terem a fazenda preparada para isso. É preciso ter divisão de pasto, ter caixa para comprar mais animais a partir do momento em que se aduba mais intensivamente”, exemplifica. Assim, reforça que, para o produtor ter um sistema produtivo eficiente e rentável, é preciso ter informações integradas, afinal, a todo tempo, o solo, a planta, o animal e o clima interagem e em constante mudança.

Para o zootecnista da Sementes Oeste Paulista (Soesp), empresa integrante da Associação Rede ILPF, Diogo Rodrigues, é imprescindível respeitar os limites do solo e da planta para um correto manejo do pasto a fim de melhorar a nutrição do rebanho para aumentar seus índices produtivos, reprodutivos e sanitários. Para isso, indica a realização de uma “orçamentação” forrageira, por meio da qual será possível o criador saber exatamente a quantidade de capim que terá disponível tanto no período das águas como durante a seca. A Rede ILPF tem como objetivo acelerar a adoção das tecnologias de integração lavoura- pecuária-floresta para intensificação sustentável da agricultura brasileira.


Ecossistema e produção em equilíbrio

O sistema de produção de gado a pasto deve funcionar como uma balança, na qual se deve, sempre, buscar o equilíbrio. De um lado há a produção animal (representada pela taxa de lotação), do outro, a produção vegetal (representada pela taxa de acúmulo). Quando um dos lados é priorizado, o outro, inevitavelmente, é prejudicado. A falta desse equilíbrio é frequentemente vista no uso de pastejo rotacionado, técnica que, de acordo com Diogo Rodrigues, apresenta maiores índices produtividade do que o pastejo contínuo tradicional frente á necessidade de o criador ampliar a produção por hectare para continuar vivo no mercado. De acordo com o nível de tecnificação da propriedade, o sistema é capaz de proporcionar um incremento de produtividade de menos de 1 UA/ha (média nacional), para até 15 UA/ha. Atente para as dicas abaixo:

O primeiro passo para encontrar esse equilíbrio é, a partir do diagnóstico das condições ambientais, planejar a produção e o consumo de capim de modo a garantir alimentação para o gado durante os 12 meses do ano. Afinal de nada adianta aumentar a taxa de lotação no verão, na época das chuvas, se, quando chegar a seca, o criador não tiver como alimentar o rebanho.

Antes de intensificar a produção a pasto, o criador precisará melhorar infraestrutura da fazenda e certificar-se de que terá capacidade financeira para aplicar nas novas necessidades que surgirão com a aceleração do ciclo, cercas, bebedouros, etc.

O conhecimento de um profissional especializado é imprescindível e influenciará no resultado sobre o investimento desde a escolha da espécie forrageira mais adequada ao sistema e à região até o manejo do gado para o melhor aproveitamento dos nutrientes da planta.

O consultor também auxiliará quando ocorrerem situações não planejadas, que exigirão decisões rápidas e de impacto á produção. Por exemplo, quando o pasto passar do ponto de entrada do gado no piquete porque ocorreram mais chuvas do que o esperado, ele poderá orientar se a melhor saída é roçar o capim ou colocá-lo à disposição de animais menos exigentes. Ele também poderá indicar qual a melhor taxa de lotação para cada tipo de criação para evitar, no curto e médio prazo, a degradação o pasto e do solo. Por outro lado, se a taxa de acúmulo de forragem for muito superior à demanda dos animais, ele ajudará o criador a evitar o aumento de colmo e de material morto, garantindo qualidade à alimentação animal e, consequentemente, à sanidade e à reprodução.

Quando o manejo é bem realizado e as características das plantas são respeitadas, todo tipo de forrageira pode ser utilizada em pastejos rotacionados. Contudo, Rodrigues destaca os capins do gênero Panicum por apresentarem alta produtividade de matéria seca e alta qualidade da forragem. “Esse tipo de pastejo favorece a boa produção e a colheita desse material, porém, por ser de porte alto, pode, eventualmente, produzir bastante talo (colmo) se não for manejado corretamente”, alerta. Para o gênero Panicum, a altura do pasto é uma estratégia amplamente utilizada para nortear o manejo de pastagens, permitindo maior eficiência produtiva do sistema como um todo. Mas, para isso, é preciso que seja sempre verificada frequentemente pela equipe de manejo da propriedade.