Nutrição

Relação sistêmica e INVERSA

Redução na idade do acasalamento aumenta exigência nutricional de novilhas na cria e recria para que atinjam condições reprodutivas

Maria Carolina Muniz de Oliveira1; Sigrid Machado de Paiva2; Andressa Koch Afonso3; Júlio Otávio Jardim Barcellos4

A interface entre a produtividade e a eficiência econômica do sistema de cria depende de um conjunto de fatores que, em especial, são pautados pelo adequado planejamento nutricional e sanitário das fêmeas. Sob olhar sistêmico, a idade ao primeiro acasalamento constitui-se em um dado importante, pois quanto mais jovens forem as novilhas maior será a resposta biológica. Contudo, a premissa precisa ser analisada economicamente, já que a redução na idade de acasalamento exigirá maior aporte nutricional do sistema de produção. Quanto antes as jovens matrizes entrarem na reprodução, maior será a exigência nutricional durante o período de cria e recria para que a meta de peso ao acasalamento seja atingida. Nesse sentido, o manejo alimentar das vacas de cria deve ser realizado por meio da categorização, de acordo com a idade ao primeiro acasalamento e com a fase de gestação. As vacas devem ser separadas em lotes de primíparas (matrizes ao primeiro parto), secundíparas (segunda cria) e multíparas (vacas com três ou mais crias). A recomendação visa beneficiar as primíparas, categoria com maior demanda energética. Objetivo é manejá-las de forma prioritária em relação às multíparas para que voltem a emprenhar, uma das maiores dificuldades do sistema de cria. Isso ocorre porque, ainda sem alcançar o peso maduro, veem-se frente à tarefa de consumir energia suficiente para atender às necessidades de manutenção corporal, crescimento e lactação.

A antecipação da idade ao primeiro acasalamento precoce de 24 meses para entre 13 e 15 meses, somente torna-se viável se os índices de prenhez e de natalidade na estação reprodutiva subsequente forem mantidos (e com resultados satisfatórios). Geralmente, a estratégia só deve ser utilizada por sistemas de produção que atinjam taxas de natalidade superiores a 70%. Também deve ser observada a valorização do produto principal do sistema de cria no mercado, o bezerro. Em períodos de alta valorização do boi gordo, o produtor pode optar por intensificar a recria das fêmeas de reposição e reduzir a idade do primeiro acasalamento para aumentar o número de matrizes e ampliar a produção de bezerros.

Sanidade das novilhas precoces A apartação das fêmeas, conforme se aproxima o parto, deve ocor - rer em piquetes maternidade para garantir sua sanidade preventiva. Devem ser usados “materneiros” treinados para garantir que todos os cuidados pertinentes ao momento do nascimento sejam realizados, como a cura do umbigo do recém- -nascido com iodo e a revisão diária das vacas no período de parição. As práticas são fundamentais para assegurar que as mortes perinatais escapem dos indicadores que apontam perdas de 1% a 3%. É essencial entender que esses cuidados ganham maior importância em se tratando de novilhas precoces com primeiro parto entre os 22 a 24 meses de idade e entre as primíparas jovens. São justamente elas que, com relação às multíparas, apresentam mais problemas com mortalidade embrionária, aborto, perda perinatal de bezerros e debilidade no pós-parto, já que ainda estão em fase de crescimento corporal e com órgãos reprodutivos em desenvolvimento.

A perda neonatal de bezerros por distocia é o fator de maior impacto negativo na eficiência de produção de fêmeas expostas à reprodução entre 13 e 15 meses de idade. Por isso, é necessário que ela tenha peso adequado ao parto e uma cria de peso compatível à sua capacidade corporal. Desse modo, a nutrição deverá suprir suas necessidades enquanto novilha prenha sem gerar excesso ao desenvolvimento do bezerro. Outro fator que também contribui para a redução de problemas dessa ordem é o uso de touros com DEP’s (Diferença Esperada na Progênie) negativas para peso ao nascimento, ou seja, os bezerros filhos destes touros nascem mais leves. É recomendável também que essa vaca entre na estação de monta com escore de condição corporal (ECC) entre 3 e 3,5, incide que, no momento da parição, deve estar entre 2,5 e 3. Um bom manejo sanitário se faz essencial para garantir a eficiência do processo, sendo necessário montar um calendário sanitário adequado de acordo com a região, para cada categoria das fêmeas bovinas, incluindo vacinas reprodutivas como brucelose, campilobacteriose, leptospirose, triconomose, rinotraqueíte infecciosa bovina (IBR) e diarréia viral bovina (BVD) e o controle de ecto e endoparasitas. As infecções causadas por IBR e BVD relacionadas ao domínio da reprodução causa abortos, diminuição da fertilidade e morte de neonato. Em animais jovens pode provocar problemas respiratórios como pneumonias, traqueítes e conjuntivites, prejudicando seu desenvolvimento. Assim, uma vaca bem nutrida com o manejo sanitário correto, terá um bezerro mais vigoroso e com capacidade de resistir a alguma diversidade no momento da concepção.

Cria viável e de qualidade

A seleção das novilhas precoces deve ocorrer no desmame, pois, nesse momento,é possível direcionar o manejo alimentar adequado em função do peso ao acasalamento. Após a seleção, é indicado que as bezerras de descarte sejam vendidas, constituindo uma receita adicional ao sistema. Contudo, muitos produtores questionam a seleção no desmame, preferindo manter todas as bezerras no rebanho e selecioná- las ao sobreano ou, até mesmo, aos dois anos de idade. Assim, aquelas que não foram selecionadas, serão engordadas e vendidas. No entanto, esse manejo pode prejudicar o sistema de produção, pois para abater uma novilha aos 18 ou 24 meses é necessário um manejo nutricional intensivo e prolongado.

A idade ao primeiro parto traz vantagens para o sistema de produção, como a redução do número de novilhas de reposição no rebanho, diminuindo o número de animais improdutivos e aumentando a proporção de vacas. Em sistemas de cria tradicionais, com taxa de natalidade de 64%, em que a idade ao primeiro parto é de quatro anos, o rebanho constitui-se de cerca de 50% de novilhas em estoque. Em sistemas de idade ao primeiro parto aos dois anos, a porcentagem de novilhas em estoque passa a 28,7%, com a mesma taxa de natalidade. Isso proporciona um aumento no número de vacas no rebanho de 24 pontos percentuais. Outra vantagem, de acasalar as novilhas mais cedo é a possibilidade de elas gerarem mais bezerros ao longo de sua vida produtiva em relação a novilhas acasaladas mais tardiamente.

O fator genético também exerce influência na idade à puberdade. As raças zebuínas apresentam puberdade mais tardiamente do que as taurinas. Nas britânicas, a fase chega entre 10 e 12 meses; nas zebuínas, entre 12 e 15 meses. O mesmo ocorre com o peso mínimo para atingir a puberdade. Novilhas de raças taurinas devem possuir entre 56% e 65% do peso de uma vaca adulta, enquanto as zebuínas precisam atingir entre 65% e 72%. A novilha precoce tem que obter o mesmo peso que atingiria no sistema convencional, aos 24 meses de idade, estimando cerca de 60% a 65% do peso vivo adulto de uma vaca de mesmo grupo genético. Para isso, reforçamos que a recria deve oferecer maior aporte nutricional.

1Médica Veterinária e Mestranda em Zootecnia, NESPro/UFRGS; 2Zootecnista e Mestranda em Zootecnia, NESPro/UFRGS; 3Graduanda em Agronomia UFRGS/NESPro; 4Professor no Departamento de Zootecnia da UFRGS e coordenador do NESPro/UFRGS