Entrevista do Mês

Cadeia verticalizada

A Associação Sul-Mato-Grossense de Produtores de Novilho Precoce (ASPNP) inaugurou um novo modelo de fornecimento de matéria-prima ao mercado. Além das parcerias e dos negócios realizados com grandes frigoríficos, agora, também negocia a venda de carne de qualidade e procedência, produzida por seus 300 associados, diretamente com o varejo. Com o novo canal, verticalizou a cadeia produtiva, ampliou a rentabilidade dos criadores e diversificou o leque de clientes, conforme explica o presidente da entidade, Nedson Rodrigues Pereira

Thaise Teixeira
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Revista AG - Em que consiste o projeto de verticalização da pecuária da associação?

Nedson Rodrigues Pereira - A Associação no Novilho Precoce é uma entidade com 300 produtores associados, e seu objetivo é colocar nosso produto no mercado. Temos grandes parcerias com a indústria e o varejo. Atendemos a marca do grupo Carrefour por 17 anos. Tínhamos de conseguir um frigorífico parceiro para comprar o boi, o transformar em carne e comercializá-la à rede supermercadista. Mas, no último Foto: Leonardo de França_Novilho Precoce - MS ano, demos um passo adiante. Criamos uma empresa para comercializar nossa própria carne. O projeto está só começando. A associação recebe a demanda do varejo, compra o gado do associado, terceiriza o abate e entrega o produto.

Revista AG - Quais são os objetivos da associação com o novo modelo de negócio?

Nedson Rodrigues Pereira - Temos parcerias com frigoríficos que pagam bônus, mas, a cada dia, está mais difícil. A ideia da verticalização é de não depender mais 100% da indústria. A gente não imagina que vá pagar muito mais do que ganhamos, hoje, do frigorífico. Talvez sejam valores próximos, porém, o abate é nosso, o que permite ganharmos em outros aspectos, como na venda da carne e nos rendimentos que ficariam com a indústria. E que podem incrementar um pouco mais o ganho do produtor também.

Revista AG – Essa empresa criada pela associação tem marca própria?

Nedson Rodrigues Pereira - Criamos uma empresa fornecedora de carne chamada Novilho Precoce Proteína Animal. Temos uma marca de corte que se chama Primo Corte, mas não a estamos comercializando porque não desossamos as carcaças. Mas o projeto está no radar de 2021, quando pretendemos comercializar nossa própria marca de carne especial. Estamos vendendo, por enquanto, carne com osso. O cliente a desossa e a embala, inserindo no produto a marca que quiser. Quando entrarmos na desossa, ao invés de o frigorífico me entregar a carcaça, entregará a carne desossada e embalada na minha marca ou na marca do cliente. Se for na do cliente, podemos, também, usar um selo como garantia de qualidade, o que também é projeto que espero implementar em 2021. Nas peças da Primo Corte, que é nossa marca, há um selo que garante a excelência do produto através de todo o nosso processo interno de controle de qualidade.

Revista AG – Podemos entender as carnes Primo Corte como certificadas?

Nedson Rodrigues Pereira – Não existe uma certificação oficial dessa carne por um órgão externo. O que temos é o nosso padrão de qualidade, mantido com alto empenho por todos os associados. Nesse negócio, é preciso muita credibilidade. Não posso prometer uma coisa e entregar outra ao cliente. Se isso acontecer, perdemos a fonte de negócios, algo que ninguém quer. Temos a nossa certificação, mas é interna e cumpre todo um checklist (protocolo). E é isso que repassamos ao cliente.

Revista AG – Como funciona o abate terceirizado?

Nedson Rodrigues Pereira – Recebemos a demanda do varejo, fechamos o negócio e, depois, contatamos os criadores para atendê-la. Compramos a boiada, contratamos o caminhão para buscar buscá-la nas propriedades e levá-la ao frigorífico, que realiza o abate e nos entrega as carcaças limpas e resfriadas. Contratamos, então, outro caminhão para buscá-las e entregá- las diretamente ao cliente que as encomendou. Mas os volumes de abate ainda são pequenos. Nossos maiores volumes continuam as parcerias já estabelecidas com o JBS e o Naturafrig. Estamos abrindo mercado. Não é fácil entrar nele.

Revista AG – Os abates são acompanhados?

Nedson Rodrigues Pereira – Internamente, existe um corpo técnico que acompanha os animais desde a fazenda até o abate, e do frigorífico até as entregas. Ao termino de cada abate, eles (os técnicos) fecham um relatório com todas as informações sobre o processo e os produtos, como as carcaças que ganharam bonificações, as que tiveram melhor acabamento de gordura, a idade dos animais, quais classificaram ou não, etc. Em seguida, o repassa aos produtores indicando o que teria faltado para a obtenção de maior bônus, ou se o abate foi muito bom, ou se pode atingir um melhor patamar, etc. Assim, vamos educando os criadores de modo que entendam o tipo de gado que precisam entregar à associação para atender às necessidades dos nossos compradores.

Revista AG – Qual é o padrão de exigência da Novilho Precoce enquanto compradora e vendedora de matéria-prima?

Nedson Rodrigues Pereira – O produtor tem que estar disposto a seguir as regras. Nós vamos cobrar aquele boi de qualidade lá na ponta. Vamos pela dentição dos animais, aceitamos, no máximo, quatro dentes, o que seria um Nelore de 3 anos e um meio sangue Angus de 2 anos em meio no máximo. E daí para baixo. Acima disso, o produtor já perde a bonificação. Tem que ser o acabamento de gordura, no escore de 1 a 5 tem que ter, pelo menos, 3. Com 2 não recebe. E tem de ter os pesos mínimos. Para boi é de [email protected], e para novilha de [email protected]

Revista AG – E como a associação garante a qualidade do produto final?

Nedson Rodrigues Pereira - Então, não entra qualquer produtor na associação. Ao manifestar interesse em integrar o grupo, primeiramente, será realizado um cadastro, seguido de uma visita presencial para verificação do tipo de animal criado, do sistema produtivo adotado, e de tudo que envolva o processo de criação de novilho precoce. Tudo é avaliado criteriosamente de modo a verificar se ele tem condições de atender às exigências mínimas da qualidade de compramos e vendemos. Também lhe é explicado sobre suas obrigações com a associação para que ele, por sua vez, avalie se a adesão lhe é interessante, já que terá de pagar por serviços prestados, mas também terá retorno, pois receberá a mais pela superioridade da boiada. Se o técnico sentir que o produtor não tem como alcançar o patamar mínimo de qualidade exigido, explica-lhe os pontos em que sua criação precisa evoluir para integrar o grupo. Mas acontece muito pouco. Normalmente, os criadores estão muito próximos do patamar mínimo e o técnico já o orienta com relação ao que precisa ser ajustado. O processo sempre é educativo. No momento em que se tornam sócios, eles também têm à disposição essa assessoria técnica constante: se precisam de alguém para avaliar a qualidade do gado, se querem saber se está na hora de abater, se o gado está em peso bom, etc.

Revista AG – Quais as bases da negociação entre a entidade, enquanto vendedora de carne, e seus clientes da indústria ou do varejo?

Nedson Rodrigues Pereira – Volume e padrão. Esse projeto está aberto para qualquer frigorífico abater e, também, para comprar nossa oferta. Fizemos um contrato com JBS e o Naturafrig, que já são nossos parceiros, e montamos, juntos, uma tabela de bonificações de acordo com a qualificação do gado. É uma negociação entre ambos. A associação garante uma oferta de qualidade e em quantidade. E o comprador, uma remuneração diferenciada por ela.

Revista AG – E o que levaria o produtor a vender o gado para a associação e não ao frigorífico?

Nedson Rodrigues Pereira – A garantia de receber uma bonificação de acordo com a qualidade do gado que entrega para abate. O JBS só paga essa bonificação porque garantimos que vamos entregar 100 mil bois ao ano. O que tiver bom – e só vamos mandar bons – será bonificado. É uma troca. Temos os nossos deveres, mas temos os nossos bônus. Neste momento, o JBS trabalha com bônus apenas com Novilho Precoce no Estado.

Revista AG – Como funciona a bonificação com relação à composição racial do gado?

Nedson Rodrigues Pereira – No Mato Grosso do Sul, temos muito Nelore e muito cruzamento industrial com Angus e com Hereford. Então, cada raça dessas tem seus parâmetros para as quais já existem as tabelas de bonificação na indústria. Atendemos a programas, por exemplo, que somente aceitam gado com 50% de sangue europeu. Na empresa, temos dois clientes que só querem comprar carne Angus, e já temos produtores comprometidos em entregá-la. Esses dias, um cliente nosso queria comprar carne certificada Angus. Tivemos que chamar um técnico da associação para acompanhar o abate e certificá-la no frigorífico. A Novilho Precoce não está preocupada com raças, mas, sim, com um padrão de qualidade do seu produto final.

Revista AG – Quanto o produtor desse gado chega a receber a mais?

Nedson Rodrigues Pereira – Pagamos praticamente o mesmo que pagam os programas já existentes. Normalmente, as contas fecham melhor com novilhas, que respondem por 90% dos abates. A classificação da carcaça é individual e chega a render, em bonificação, a mais de R$ 20 se gabaritadas todas as exigências de qualidade. Mas, para chegar lá, o produtor também precisa investir em genética, pastagem, sanidade, etc. Tem carcaças que renderão bonificações menores, vai depender do quanto atingiu aos critérios dos programas de qualidade. No Brasil, temos poucos frigoríficos que pagam bônus pela qualidade. A maioria dos que precisam de carne de qualidade, a negocia pontualmente. Por isso, é importante verticalizarmos nosso negócio.

Revista AG – E como funciona a captação para a carne da empresa Novilho Precoce?

Nedson Rodrigues Pereira – Funciona com base na circulação de informações. Alguma marca qualquer do MS precisa de matéria prima e nós a fornecemos. Entendemos a demanda, consultamos nossa base de fornecimento (associados), fechamos o negócio e enviamos os para uma unidade fabril remunerada pela prestação de serviço (que pode ser paga, inclusive, com os miúdos). Entregamos as carcaças ao cliente, que embala carne e a comercializa como quiser. Temos profissionais constantemente ligados às ofertas da casa para abastecer os frigoríficos. Trocando em miúdos, o pecuarista recebe o bônus por qualidade e o frigorífico paga para garantir escala e constância às suas marcas próprias e de clientes. Essa bonificação, aliás, é a única da rede em todo o Estado.

Revista AG – Os ganhos dos associados se limitam às bonificações e à garantia de comercialização da oferta?

Nedson Rodrigues Pereira – Por enquanto sim, mas vamos ampliar esses ganhos por meio do nosso programa de sustentabilidade, um projeto lançado há quatro anos para fomentar os sistemas produtivos que respeitam o meio ambiente, o bem- -estar animal, que possuam excelência na gestão de recursos humanos e cumpram sua função social. Hoje, dos 300 associados, 50 já possuem o selo de sustentabilidade.

Revista AG – Qual o perfil dos fornecedores de matéria-prima à associação?

Nedson Rodrigues Pereira – Nosso quadro de associados conta com produtores de pequeno, médio e grande porte. Temos desde quem abate 200 bois por ano até quem abate 7 mil bois por ano. Mas é, em maioria, composto pelos que abatem entre 500 e 600 bois ao ano, pelos médios produtores. Os de grande porte preferem negociar de forma individual com a indústria, não gostam – nem precisam -, dos benefícios de uma negociação em grupo, tem volume de produção para atender a grandes negociações sozinho.