O Confinador

Terminação intensiva e ESTRATÉGICA

Semiconfinamento garante espessura de gordura necessária para conservar a qualidade da carne durante transformações biológicas realizadas na câmara fria

Fábio Ferrari 1

O desempenho animal durante o ano viaria muito, em função da produção e qualidade das pastagens. No período das chuvas, onde a forragem tem boas condições, o pasto consegue aumentar sua produção e melhorar a qualidade do capim, proporcionando um ganho de peso diário satisfatório. Porém, quando chega o período da seca, o pasto não tem as condições mínimas para produzir, sua qualidade e quantidade caem e, nessas condições, os animais não tem alimentação mínima para a mantença. Com menor desempenho, perdem peso e abrem a porteira para o prejuízo. Outro fator importante que tem grande influencia na produção e na qualidade das pastagensé a baixa fertilidade dos solos. Suas principais características são a baixa reserva de fósforo, pH baixos (solos ácidos), alta saturação por alumínio (toxicidade), bem como baixa concentração de macro e micronutrientes, o que limita produção da forragem e compromete o desempenho animal.

Esses fatores contribuem para que idade média de abate no Brasil, de 48 meses, seja superior à dos Estados Unidos, onde não ultrapassa 24 meses. Claro que não podemos fazer comparações diretas, pois ambos os sistemas produtivos são distintos, mas se pode adotar algumas tecnologias disponíveis para encurtar a terminação. As ações vão desde a correção de solo (calagem e gesso) e adubação até a suplementação durante o período seco do ano, além do uso de cruzamento entre raças complementares. Os benefícios são percebidos da cria até a terminação, com a melhora nos índices reprodutivos das fêmeas, no ganho de peso, na sanidade, etc, influenciando positivamente a rentabilidade do ciclo como um todo. Para diminuirmos os impactos negativos da sazonalidade de produção e qualidade das forrageiras no período seco, é essencial realizar a suplementação alimentar, pricipalmente no Brasil Central, já que a água, o foto período e baixas temperaturas influenciam diretamente a disponibilidade de forrageiras durante esse período. Além disso, o valor nutrional do capim diminui em função do envelhecimento dos seus tecidos, da redução do seu conteúdo celular e do aumento da lignina. Por conta disso, na seca, sua oferta e seu poder nutritivo são baixos mesmo em baixas lotações (Gomes et al,2015), resultando em grande perda de peso corporal aos animais. Suplementar estrategicamente e corretamente, principalmente no período seco, considerado o mais crítico do ano, faz com que possamos reverter a perda de peso para ganhos diários, ou, no mínimo, para manutenção do próprio peso. A intensificação da suplementação deve levar em consideração aspectos econômicos para ser financeiramente interessante e rentável. E vai depender dos objetivos de cada produtor, bem como dos preços praticados pelos frigoríficos e dos insumos que serão usados na dieta (Gomes et al,2015).

Semiconfinamento de F1 Angus

O semiconfinamento de fêmeas meio sangue Nelore/Angus cresceu muito e, hoje, é uma estratégia bastante adotada pelos criadores das regiões tropicais. A preferência deve-se ao ciclo de produção mais curto do que o dos zebuínos e aos custos mais vantajosos em relação aos do confinamento tradicional. Com baixo investimento em infraestrutura e uma dieta relativamente barata, o criador obtém desempenho superior ao da suplementação estratégica e ainda agrega valor ao seu produto, que chega ao frigorífico nas faixas de bonificação. A estratégia de terminá-las intensivamente a pasto pode ser adotada também no período seco, porém com deferimento prévio da pastagem para acumular forragem suficiente para todo o período. Nesse caso, é comum o fornecimento de 0,7% a 2% do peso vivo em concentrado e o pasto diferido no final do período das águas como volumoso. É importante lembrar que a adubação anterior ao diferimento do pasto deve ser adequada em função do número, da raça ou do grupo genético dos animais que será alojada em cada área. Isso porque animais taurinos consomem mais do que os zebuínos, precisam de mais suplementação e maior inclusão de concentrados como efeito substitutivo à pastagem.

O deferimento de pastagem para adoção do semiconfinamento como estratégia nutricional de terminação deve permitir acumulo de forragem em torno de 6 toneladas de matéria seca. O volume será suficiente para um semiconfinamento de, aproximadamente, 60 dias, pois sabemos que, no período seco, há baixo crescimento e perda de qualidade nutricional das pastagens ao longo do tempo. Com isso, a recomendação é que a lotação inicial seja de 1 UA/ha a 2 UA/ ha (Gomes et al,2015).

Para formulação da dieta do semiconfinamento, podemos utilizar produtos e coprodutos disponíveis na região para baratearmos o custo e possamos tornar a estratégia mais atrativa economicamente. Normalmente, utilizamos fontes proteicas e energéticas, ureia pecuária e um núcleo mineral com todos os minerais, vitaminas e aditivos. A inclusão desses ingredientes irá depender do grau de intensificação e o volume de concentrado que será fornecido aos animais.

O que esperar do desempenho dos animais?

O desempenho dos animais com a utilização do semiconfinamento como estratégia de terminação dependerá da raça ou grupo genético, do percentual do peso vivo em concentrado fornecido e do gênero. De maneira geral, o desempenho dos animais no sistema de produção é muito bom, podendo resultar em ganhos de 1,2kg/cab/dia a 1,5kg/cab/dia com inclusões maiores de concentrado (1,5% a 2%).

Nesse sistema, normalmente, o rendimento de carcaça é maior quando comparado à suplementação convencional porque os animais ingerem grande volume de concentrado e pouco de volumoso (fibra). Com isso, há menor distensão e/ ou aumento do trato gastro intestinal (menor volume de visceras), perdendo menos durante a evisceração e incrementando o rendimento de carcaça e, principalmente, a rentabilidade ao pecuarista (Gomes et al,2015).

Tanto para ess a estratégia de suplementação como para as demais, devemos balancear corretamente proteína br uta (PB), nutrientes digestíveis totais (NDT), minerais e aditivos em função do consumo dos animais. Para alcançarmos o ganho diário citados (entre 1,2 kg a 1,5 kg/cab/dia), os animais deverão consumir uma dieta (suplemento) com cerca de 11 a 14 de PB, de 77 a 80 de NDT, 26g/ dia de Cálcio, 17 g/dia de Fósforo, 25 g/ dia de Potássio, 14 g/dia de Enxofre, 10 g/dia de Sódio, 8g/dia de Magnésio, 5 g/ dia de Selênio e 180 mg de aditivo/dia. Esses níveis são aproximados e podem sofrem alteração em função do nivel de suplementação (Tab ela 1).

O manejo nutricional citado aumentará a deposição de tecido muscular e de gordura subcutânea, melhorando o aca- Tabela 1. Exemplo de dieta de semiconfinamento Fonte: Fábio Ferrari bamento de carcaça. Também encurtará as fibras musculares e encontrará um ambiente mais favorável para os processos bioquímicos de transformação do músculo em carne (Gomes et al,2015) que ocorrem após o abate. Caso a carcaça não tenha espessura de gordura mínima de 3 milímetros, sofrerá escurecimento e sua carne ficará mais rígida (dura) durante o tempo em que permanecer na câmara fria, o que pode acarretar rejeição pelos consumidores.

Ácidos Graxos Insaturados

Grande parte do processo bioquímico pelo qual passa a carcaça na câmara fria é facilitado pela ingestão de ácidos graxos insaturados, consumido em abundância no semiconfinamento com suplementação proteico energética, baseada em milho, farelo de soja, minerais e nitrogênio não proteico (NNP). Esse tipo de gordura vai passar pelo trato digestório do animal será absorvida e depositada na musculatura, atuando na diminuição do colesterol total da carne, tornando-a mais saudável e diminuindo problemas com aglomeração de gordura saturada nas artérias. Vale ressaltar que nem todo colesterol é ruim, e que o mesmo é precursor de vários hormônios reguladores do metabolismo. Sendo assim, importante para manutenção das nossas atividades hormonais.

1Doutor em Zootecnia e Especialista de produtos da Mosaic Fertilizantes