Bem-Estar

Elas só querem SOMBRA E ÁGUA FRESCA

Estresse térmico impacta desempenho reprodutivo das fêmeas, sobrevivência embrionária e imunidade dos recém-nascidos

Henrique Barbosa Hooper 1

Saúde é o estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas ausência de doença. Neste contexto, vacas saudáveis são aquelas que não apresentam doenças e qualquer outro distúrbio corporal e comportamental. A saúde, a performance e o bem-estar das vacas de corte são fortemente afetados pelo clima. Elevadas temperaturas ambientais, umidade do ar, radiação solar direta e indireta são fatores que, conjugados ou isolados, podem retirar os animais da zona de conforto térmico. Nos últimos anos, as imposições climáticas, como, por exemplo, os longos períodos de calor e seca, vêm desafiando, cada vez mais, os animais a se manterem em homeotermia (temperatura constante). Os produtores, por sua vez, são desafiados a buscar soluções para os manterem bem nutridos, com boa reprodução e em conforto, haja vista que a população mundial cresce Elas só querem SOMBRA E ÁGUA FRESCA Estresse térmico impacta desempenho reprodutivo das fêmeas, sobrevivência embrionária e imunidade dos recém-nascidos Henrique Barbosa Hooper 1 Foto: @aloofotos e o planeta necessita de alimentos. Sabe- -se que as mudanças climáticas poderão impactar ainda mais a produção agrícola e pastoril, com redução na disponibilidade de água, bem como na severidade e na distribuição de doenças humanas, animais e vegetais.

O bem-estar de um indivíduo diz respeito às suas tentativas de lidar com o ambiente. Pode ser alcançado com pouco esforço e ser considerado satisfatório, ou pode ser pobre se o indivíduo falhar, gastando muito tempo e energia nesse processo. O bem-estar é o estado de harmonia física e fisiológica entre o organismo e o seu entorno, caracterizado pela ausência de privação, estimulação adversa ou outras condições que afetem a saúde e a produtividade do organismo. Por outro lado, o estresse é o conjunto de alterações comportamentais e fisiológicas desencadeadas por agentes estressores, sejam provenientes do ambiente físico (calor, frio, espaço, fome, sede), do social ou do manejo. Em seu longo processo adaptativo em climas tropicais, as raças indianas foram capazes de regular mais eficientemente sua temperatura retal em resposta ao estresse térmico do que as raças taurinas. Nota-se, assim, que detêm uma habilidade termorregulatória superior pela baixa produção de calor metabólico. Também possuem elevada capacidade de fluxo de calor para o ambiente, principalmente devido à vascularização cutânea, à pelagem lisa e brilhante e à densidade de glândulas sudoríparas. O baixo desempenho produtivo e reprodutivo de bovinos, quando em estresse por calor, deve-se, basicamente, à baixa ingestão de alimento, seguida pela redução da atividade enzimática oxidativa, da taxa metabólica e por alterações ao nível hormonal. Outras alterações inerentes à condição de altas temperaturas são evidentes na elevação da frequência respiratória e cardíaca, no aumento do ofego (aceleração respiratória e audível) e da sudorese, na maior ingestão de água e em mudanças comportamentais.

A zona de termoneutralidade ou zona de conforto térmico (ZCT) é a faixa de temperatura ambiente ótima para a manutenção das funções biológicas (SILVA, 2000). Para bovinos europeus, a ZCT está entre -1°C e 16°C, e, para zebuínos, entre 10°C e 27°C. Porém, os valores variam conforme características como idade, cor da pele, pelagem, glândulas sudoríparas, estágio gestacional, lactação, dentre outros. Os animais respondem ao estresse de acordo com o tipo de desafio térmico. Em eventos agudos, ocorrem reações adaptativas de curto prazo quanto ao comportamento, a respostas fisiológicas e às funções imunológicas. Por outro lado, nos eventos de longo prazo, as respostas são orientadas para o desempenho, sobrevivência, crescimento e reprodução (Figura 1) (NIENABER; HAHN, 2007). Dessa maneira, sabe-se que o estresse térmico afeta, de forma multifatorial, a saúde dos animais por alterar as funções celulares, pela redistribuição do fluxo sanguíneo, por reduzir o consumo de matéria seca e, consequentemente, o desempenho produtivo e reprodutivo.

Desempenho reprodutivo

As funções reprodutivas são particularmente vulneráveis quando as vacas estão em estresse térmico, sendo uma das principais causas de infertilidade e ineficiência reprodutiva, com profunda perda econômica (Tabela 1). O estresse por calor reduz a libido, a fertilidade e a sobrevivência embrionária, bem como favorece a ocorrência de doenças nos neonatos por promover imunossupressão. A fertilidade e o desempenho reprodutivo caem devido às alterações funcionais ao nível do trato reprodutivo, desbalanço hormonal, redução da qualidade oocitária, que, por consequência, prejudica o desenvolvimento e a sobrevivência embrionária. O desempenho reprodutivo é prejudicado devido à ativação do eixo hormonal hipotálamo-hipófise-adrenais, o que culmina na elevação do hormônio do estresse, o cortisol. Esta ativação causa efeito inibitório no trato reprodutivo, reduz a duração e a intensidade do cio, altera a dinâmica folicular e eleva a taxa de morte celular dos folículos. Em condições extremas de calor, pode até haver atrasos na puberdade devido às alterações no crescimento e no desenvolvimento das fêmeas, causada Figura 1. Resposta dos animais a mudanças no ambiente térmico Calor eleva hormônio do estresse, o cortisol, o que inibe o trato reprodutivo das vacas de corte Foto: Arquivo pessoal Henrique Hooper pela redução na ingestão de alimento.

Os hormônios controlam o processo reprodutivo nas fêmeas, porém, sob condições de estresse térmico, sua concentração pode ficar alterada. O estresse por calor reduz o pulso e a frequência do hormônio luteinizante (LH), o que promove atraso na dominância e ovulação. De forma complementar, há redução da manifestação do comportamento de cio pela supressão dos níveis de estradiol (WOLFENSON; ROTH; MEIDAN, 2000). Normalmente, a duração do cio varia entre 14 e 18 horas nas estações mais frias; porém, nos dias quentes, pode cair para de 8 a 10 horas, prejudicando sua correta identificação (CRUZ, 2011). Alterações hormonais relacionadas à dominância folicular e maturação oocitária, em elevadas temperaturas resultam na ovulação de oócitos inférteis ou corpo lúteo subfuncional, com consequências estendidas à implantação embrionária e à baixa taxa de concepção. Caso a temperatura uterina, no dia seguinte à inseminação artificial, encontrar-se 0,5°C acima da temperatura corporal média, pode haver a redução de 6,9% na taxa concepção (CRUZ, 2011). Novilhas superovuladas, mantidas em hipertermia por cinco dias após a manifestação do cio, apresentaram maior incidência de embriões degenerados (BERTIPAGLIA, 2007). Vacas em estresse por calor reduzem a ingestão de alimentos, principalmente com a proximidade do parto. Por consequência, elevam a mobilização de gorduras corporais e a disponibilidade de glicose, o que implica diretamente qualidade oocitária, fertilidade, taxa de clivagem embrionária e desenvolvimento do blastocisto. Em relação ao desenvolvimento fetal, os efeitos mais pronunciados encontram-se no comprometimento do crescimento fetal, na disfunção placentária e no menor peso ao nascer. No verão, há uma redução no peso vivo ao nascer dos bezerros (cerca de 6 quilos a menos), como também no peso seco da placenta. A redução no peso placentário foi associada à alteração na produção de hormônios por esta produzidos, de modo que alterações morfológicas e funcionais da placenta, em decorrência do estresse por calor, interferem diretamente no desenvolvimento fetal, principalmente no terço final de gestação, quando o feto mais cresce e é quando ocorrem alterações ao nível de glândula mamária (BERTIPAGLIA, 2007).

Como driblar os desafios

Para atenuar os desafios ambientais, os sistemas de produção animal deverão se munir de opções gerenciais para reduzir o risco de consequências adversas. Algumas soluções minimizam os efeitos negativos promovidos pelo calor na produção e reprodução de vacas de corte, tendo em vista, as condições extensivas de criação que temos no nosso país. Antes de tudo, é necessário saber se os animais estão em estresse por calor. Para avaliar esta condição, a melhor maneira é mensurar os parâmetros ambientais, temperatura do ar e umidade relativa, e os parâmetros vitais, temperatura retal e frequência respiratória. Para as raças Marchigiana, Nelore e Simental, a condição de conforto se dá com temperaturas entre 22°C e 25°C, e a de estresse, entre 28°C a 35°C (TITTO, 1999). Em relação aos parâmetros vitais, como há grande variação do padrão de normalidade entre as raças, aconselha-se mensurações à sombra e ao sol, e comparar os resultados com valores de normalidade da raça obtidos na literatura.

Algumas estratégias podem ser adotadas para minimizar os efeitos do calor por meio de modificações no ambiente. Para isso, deve-se avaliar a disponibilidade de água - em quantidade e qualidade -, para as vacas no pasto e próximo às áreas de manejo. Outro fator a ser analisado são as áreas de sombra, que devem ter entre 1,5m² e 3 m² por animal. O sombreamento pode ser natural ou artificial. Caso seja artificial, construa no sentido Norte-Sul, permitindo a projeção da sombra para dentro da área de descanso. E, nos períodos chuvosos, para evitar a lama, rotacione a estrutura de local. Evite posicioná-lo próximo de comedouros e bebedouros para evitar aglomerações e disputas.

Caso escolha o sombreamento natural, a arborização traz consigo vantagens, pois, além de proteger contra a radiação solar direta, reduz a temperatura do ar entre 2°C e 3°C. Opte por árvores perenes, de copa elevada que não forme bosque e reduza a proliferação de moscas. Nesse sentido, além de prover conforto térmico, a implementação de um sistema silvipastoril agrega benefícios à produção, pois, de modo geral, reduz a temperatura do ar, assim como a velocidade dos ventos e a radiação solar em comparação ao sistema convencional. Falhas no arranjo espacial das árvores podem reduzir ainda mais a movimentação do ar e prejudicar o conforto térmico dos animais. Quando em estresse por calor, recomenda-se suplementar os animais com 7% a 25% a mais em relação ao requerimento de mantença, melhorando a densidade nutricional, seja por forragens de melhor qualidade ou suplementação com concentrados. É importante lembrar que as gorduras participam ativamente na síntese de hormônios esteroides, essenciais à reprodução. Outra estratégia é a suplementação com vitaminas, como a vitamina E Selênio, principalmente no verão, devido à ação antioxidante. Além disso, preconiza-se associar às condicionantes ambientais, a estratégias de longo prazo, como a seleção genética e a utilização de raças tolerantes ao calor.

Tratamentos hormonais podem minimizar os efeitos do estresse por calor nas vacas de corte, como a administração de GnRH (hormônio liberador de gonadotrofinas) no início do estro para auxiliar no pico de LH (promotor de ovulação) e para melhorar a taxa de concepção (WOLFENSON; ROTH; MEIDAN, 2000). Os programas de Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) também melhoram a fertilidade no verão, pois associam GnRH para induzir o recrutamento folicular. Em conclusão, o cenário mundial das mudanças climáticas afeta - e afetará -, a saúde reprodutiva das vacas de corte, com perdas econômicas nefastas. Porém, e felizmente, pesquisas revelam que há formas de minimizar os efeitos do estresse por calor na reprodução, seja por alterações estruturais nas fazendas, como a maior oferta d como a maior oferta de sombra e água, seja via nutricional ou suplementação hormonal.

1Médico Veterinário – UFU/MG, mestre e doutor em Ciências – FZEA/USP e professor universitário