Caprinovinocultura

Controle integrado no combate à VERMINOSE

Ferramenta auxilia produtores na prevenção e no tratamento do principal problema sanitário de caprinos e ovinos

Denise Saueressig
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A ocorrência da verminose é reconhecida por criadores de ovinos e caprinos como o principal desafio sanitário das duas espécies. Os índices de mortalidade são altos entre os pequenos ruminantes, uma média de 30%, informa o médico veterinário Marcel Teixeira, pesquisador da área de Sanidade Animal da Embrapa Caprinos e Ovinos. “Já acompanhei casos em que as perdas no rebanho chegaram até 60%, 70%, um problema que foi agravado pelo aumento da resistência aos medicamentos e pelas poucas opções de tratamento eficaz”, constata. Para ajudar os produtores na prevenção e controle das doenças causadas por parasitas, o especialista idealizou o Paratec, um plano nacional que abrange um conjunto de programas com recomendações direcionadas ao combate de vermes, Foto: Maíra Vergne-Embrapa moscas, carrapatos, sarnas e piolhos das principais espécies de animais de produção. A proposta é oferecer a integração de serviços de pesquisa, educação, comunicação e extensão para produtores e outros profissionais envolvidos na cadeia pecuária. “São informações básicas, mas de um impacto muito grande sobre a sanidade dos rebanhos. O acesso pode ser pelo computador ou pelo celular, e os conhecimentos estão resumidos em uma linguagem bem didática”, detalha o pesquisador.

Uma das motivações para a criação do Paratec é a grande distância que ainda existe entre as instituições de pesquisa e o setor produtivo, ou seja, onde o conhecimento técnico é produzido, e onde ele é aplicado. “Existe uma lacuna em um trabalho que era feito pelas empresas de assistência técnica e extensão que sofrem com falta de recursos no Brasil”, argumenta Teixeira. Hoje a plataforma está hospedada no portal da Embrapa (www.embrapa.br/ paratec-controle-integrado-verminoses), mas a intenção é de que se transforme em uma ferramenta independente, multi- -institucional, com a participação de pesquisadores e técnicos de todas as regiões do País. “Também estamos angariando patrocínio para o site, onde pretendemos ter espaço de cadastro de produtores e de perguntas e respostas. É um sistema em contínuo desenvolvimento, mas que demanda tempo, dedicação e um número significativo de pessoas envolvidas”, ressalta.

Como é um programa integrado de controle de parasitoses, a ideia é que sejam realizados, nos próximos anos, eventos de treinamento com profissionais especializados nas demandas e características de cada região. Por enquanto, está disponível o Paratec Vermes para ovinos e caprinos nos biomas da Caatinga e da Mata Atlântica. Até o final do ano, deve estar acessível o módulo do Cerrado e, no início de 2021, o conteúdo referente ao bioma Pampas. Na sequência, serão publicadas as informações relativas ao Pantanal e à Amazônia. “As condições climáticas impactam na epidemiologia, na época de maior ocorrência das doenças e no ciclo de transmissão dos parasitas. Mesmo entre os biomas, há microclimas e zonas de transição, ou seja, será preciso fazer ajustes em função das variações em determinados locais”, explica o pesquisador da Embrapa.

O desafio da resistência

Os animais variam em susceptibilidade aos parasitas, podendo ser mais ou menos sensíveis dependendo da sua genética e idade. Categorias como cabritos e cordeiros, e fêmeas gestantes e em lactação são mais sensíveis. De forma geral, no entanto, animais bem nutridos são menos afetados por vermes. “Sabemos que não temos como erradicar essas doenças, mas é possível conviver melhor com a presença delas”, acrescenta Teixeira. Um dos grandes desafios e que representa uma preocupação mundial, é conseguir superar a resistência aos medicamentos. O pesquisador da Embrapa lembra que, quando foram lançadas, as drogas se mostraram tão eficientes e seguras, que foram adotadas como principal estratégia de controle. “Partes do manejo e da prevenção foram esquecidas, e uma das grandes dificuldades é mudar essa mentalidade. É um dos objetivos do Paratec, mostrar que a situação é complexa e multifatorial”, frisa. O primeiro passo é fazer a escolha correta do medicamento, por meio do teste de eficácia, que precisa ser supervisionado por um veterinário. A partir desse momento, uma das formas mais indicadas de tratar apenas animais doentes é com a utilização do controle seletivo pelo método Famacha, que se baseia na observação do grau de anemia pela coloração da mucosa ocular. Ao examinar cada animal individualmente, é possível reduzir, em média, 70% as medicações. “Em algumas situações, como os grandes rebanhos, a mão de obra para esse procedimento é muito grande e, aí, o trabalho se torna mais complicado”, ressalva o veterinário.

Em parceria com a Universidade Federal do Maranhão e a Universidade Federal do Ceará, a Embrapa Caprinos e Ovinos está desenvolvendo um aplicativo para facilitar o exame da mucosa ocular. No método digital, quando animais forem selecionados repetidamente para o tratamento, a ferramenta irá emitir um aviso. “Nesse caso, talvez seja o momento de proceder com o descarte. Todo animal que é muito sensível precisa sair do rebanho, chamamos isso de ‘descarte orientado’. Os mais fortes, consequentemente, irão gerar descendentes mais resistentes à verminose. É uma questão básica, de genética”, observa Teixeira. A expectativa, segundo o pesquisador, é de que o método digital esteja disponível em uma versão demo no ano que vem.