Na Varanda

Como vão suas COMPRAS?

Francisco Vila
Economista e consultor internacional
[email protected]

Antigamente, dizia-se que o lucro está na compra! Considerando o distanciamento geográfico (não tem nada a ver com a atual pandemia, mas com o custo e o tempo de passar de um ponto a outro) entre o campo e a cidade, é compreensível que o produtor passe de loja em loja para comparar qualidade e preços, tome um café em todos os estabelecimentos antes de decidir de quem comprar. Como isso será no futuro? Vai continuar assim?

Com a atual confusão entre a explosão do valor da arroba e o aumento do custo do bezerro, perdemos um pouco a visão sobre a estrutura do nosso custo de produção. Mas, historicamente, dois terços foram para a compra do boi magro, e o resto, conforme o grau de tecnificação de cada propriedade, para alimento a pasto, vacinação, sal mineral ou proteico. Também foi na depreciação das estruturas da fazenda e, finalmente, em despesas com pessoal.

Esse ritual de vender duas ou três vezes por ano o gado para o frigorífico, e de ir uma vez por semana para a cidade para comprar insumos, visitar os primos, comprar um presentinho para a esposa e perguntar, na escola, como andam os estudos do filho, parece fazer parte do passado. Tanto o processo de venda como a prática das compras mudaram de forma drástica. Aqui, um exemplo. Alguns meses antes da pandemia, vi, numa fazenda em Mato Grosso, uma placa na saída da estrada para dentro da propriedade com a seguinte informação: “Não recebemos vendedores”.

Como assim? Não precisa saber o que há de novidades no mercado? Não seria bom continuar o papo com jovens técnicos bem formados sobre as experiências e os números dos vizinhos? O proprietário me explicou. Hoje, tudo está na internet. Meu filho acompanha diariamente a cotação do boi, do milho e da soja. As empresas líderes de mercado publicam vídeos com explicação didática sobre novos produtos ou processos. Por meio de um aplicativo simples, o dono compara preços, fretes e eventuais ofertas especiais para saber quando, onde e quanto comprar. No momento da compra, e comparando o custo do insumo com a variação do preço da arroba que o filho ao lado pode informar, outro aplicativo calcula, no mesmo momento, em quanto essa aquisição impactará no lucro programado para o ano.

Essa brincadeira séria tem nome: compra e venda “figital”. A gente já não comprou bezerros num leilão virtual na TV? Bom, é isso, apenas ampliado para todas as esferas do complexo negócio que chamamos de bovinocultura. Antes de mexer com o trator ou a colheitadeira, consultamos, num programa pago, se aquela nuvem preta no horizonte vai passar (ou não) em cima da plantação de milho que usamos para fazer silagem. Vai chover muito, mas o aparelho diz que isso ocorrerá apenas na propriedade do vizinho. Outro exemplo são aqueles pecuaristas que já migraram, em escala, para a agricultura e podem usar a sala de controle (não da Nasa, nos Estados Unidos), mas sim do seu revendedor, na cidade, para obter todas as informações numa tela sobre o andamento da máquina, seu consumo de combustível, a intensidade de colocação de sementes ou defensivos daquela outra fazenda que têm juntamente com o cunhado, mas que está a 2 mil quilômetros de distância de casa.

Não existe mais (muita) diferença entre o físico e o virtual. Vocês devem lembrar do meu relato sobre o Tinder do boi, no qual expliquei como nosso boi pode encontrar a vaca do seu sonho na Inglaterra. Se ela aceitar, o sêmen vem depois por Sedex. Talvez um pouco exagerado para ser prático. Porém devemos nos preparar, pois tudo será diferente, tanto no físico como no virtual. E, voltando para as compras, não está distante o tempo em que cada boi sinalizará ao armazém “o quê”, “quando” e “quanto” quer comer na próxima semana, alertando que precisará reforçar seu estoque. O próprio aplicativo dirá onde comprar, por qual preço e quem vai entregar. Muita visão do futuro? Acho que não, pois a pandemia deu algumas lições bem interessantes para nós. Resolvemos, assim, o nosso problema. Mas cada um tem um irmão, cunhado ou primo que é dono de uma loja ou de um restaurante na cidade. Como você pode ajudá-lo na reformulação do seu negócio? Nessas realidades, o sistema da compra “figital” será confuso.

Suponhamos que você queira comprar uma camisa. Há três opções para fazer isso. A primeira é entrar no site da loja, escolher a cor, o tamanho, o preço e clicar “enter”. Dentro de dois ou três dias, você a receberá na fazenda. Não precisará, para isso, ir ao shopping ou pagar estacionamento. A segunda opção é ir à loja e experimentar o produto. Sempre bom, pois, conversar um pouco com o dono ou a vendedora. Decide, toma um café e volta para a casa sem a compra, que chega no dia seguinte, com pagamento na entrega. A terceira opção é entrar no site, escolher e comprar o produto sem a influência dos vendedores físicos, pagar por ele e buscá-lo pessoalmente no dia seguinte na loja física, já que uma conversinha não faz mal a ninguém. Quer mais? Esse novo mundo não é uma maravilha? Seja para o boi, seja para nós, tudo está evoluindo. E quem sabe onde isso, um dia, vai parar? Enquanto isso, vamos avançar com a “figitalização” da nossa propriedade, pois a crescente concorrência dos pecuaristas de ponta nos obriga.