Leite

DESAFIOS DA eficiência

Tecnologia e estratégias genéticas como o cruzamento melhoram produtividade e baixa performance reprodutiva do rebanho leiteiro

Por Anna Luiza Belli 1

A pecuária leiteira do Brasil vem se desenvolvendo rapidamente nos últimos anos. Um grande avanço que pôde ser percebido é o melhoramento genético das raças fruto de cruzamentos, também conhecidas como mestiças, a exemplo da Girolando, principal cruzamento utilizado nos rebanhos leiteiros brasileiros. Apesar do crescente movimento de concentração da produção leiteira em um menor número de fazendas, que, em,maioria, trabalha com animais da raça Holandês, os mestiços são bastante encontrados, têm produtividades cada vez mais altas e, com isso, encontram mais desafios para manter a eficiência produtiva.

O cruzamento é uma estratégia que possibilita à fazenda se beneficiar da heterose, otimizando o mérito genético aditivo e a complementariedade de acordo com o objetivo estabelecido para o rebanho. E deve levar em consideração as condições ambientais e as metas de cada sistema de produção.

A raça Girolando é considerada uma raça sintética. As diretrizes para sua formação foram estabelecidas ao final da década de 1980, e a raça foi oficialmente reconhecida pelo Ministério da Agricultura em 1996. Produzida a partir do cruzamento das raças Gir e Holandês, resultou em animais que associaram características desejáveis de ambas as raças, como a rusticidade do Gir e a produtividade do Holandês.

Desde 1997 estabeleceu-se o programa oficial de melhoramento genético da raça, coordenado pela Associação Brasileira dos Criadores de Girolando e pela Embrapa. Hoje são claras as formas de se atingir animais 5/8, considerados os animais puro sintéticos Girolando, que podem ser feitas com o acasalamento de animais de diferentes graus de sangue aceitos pela associação. Muitos desses animais já têm exemplares de touros provados e disponíveis em centrais de sêmen.

A raça Holandês é a mais tradicional e mais utilizada nos sistemas de produção em todo o mundo. Seu tempo de seleção e de melhoramento genético é superior a cem anos. Dentre os anos de 1930 e 1970 a seleção da raça objetivou, principalmente, aumento de produção. Depois, parâmetros como produção de sólidos, estrutura racial, fertilidade e longevidade ganharam peso dentro das estratégias reprodutivas e, consequentemente, das provas dos reprodutores.

Órgãos americanos como o USDA (United States Department of Agriculture) e a Holstein Association (Associação dos criadores da raça Holandês dos Estados Unidos) participam ativamente do estabelecimento dos critérios de seleção, como o PTA (desempenho esperado na produção de leite das filhas), por exemplo, que é um parâmetro avaliado em todas as raças. Os animais da raça Gir Leiteiro por sua vez, vem sendo selecionados em um programa de melhoramento genético há cerca de 35 anos. Desde então, a raça passou por mudanças intensas, principalmente no que diz respeito à produção diária e à persistência da lactação.

No Brasil podemos encontrar ainda outros cruzamentos, como o acasalamento entre animais da raça Jersey e Holandês, resultando no localmente chamado “Jersolando”. Esse cruzamento, também conhecido como Kiwicross, originário e bastante difundido na Nova Zelândia, foi inicialmente feito em países de clima temperado que buscavam um incremento na produção dos sólidos do leite, sem comprometimento do volume total produzido. A estratégia de acasalamento foi muito utilizada, na década de 90, para produção com animais de média estatura e boa eficiência alimentar. Hoje, ainda encontramos frutos desse cruzamento nas propriedades, mas são poucas as que trabalham apenas com animais Jersolando. Em algumas, podemos encontrar ainda o cruzamento entre animais Guzerá Leiteiro e Holandês, produzindo o chamado “Guzolando”. Esses cruzamentos são menos difundidos, porém, segundo criadores, pode viabilizar a produção de leite a pasto em climas adversos, garantindo longevidade ao rebanho.

Reprodução

Apesar de ganharmos muito com a heterose, é importante lembrar que os animais produtos de cruzamentos trazem consigo toda a carga da seleção genética de suas raças originais. Isso significa que, além da rusticidade e, muitas vezes, da maior tolerância ao estresse térmico, os animais produzidos a partir de cruzamentos também serão cada vez mais produtivos. Não é incomum encontrarmos rebanhos Girolando com altas médias de produção, na casa dos 50 litros de leite/dia, mesmo em um manejo desafiador.

A reprodução é um dos pilares da atividade leiteira e impacta de forma muito objetiva nos índices produtivos de uma fazenda. Independente do cruzamento ou da raça utilizada, os produtores de leite que trabalham de forma mais intensiva percebem, há mais de 50 anos, uma queda da performance reprodutiva dos rebanhos. Vários fatores são atribuídos a essa realidade e, normalmente, existe uma associação entre eles, sendo o aumento da produção de leite um dos principais. A partir dos anos 2000, com a disseminação dos protocolos de inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e com a maior preocupação em seleção genética para fertilidade, o quadro de baixa performance reprodutiva apresentou melhoras. Porém, a eficiência reprodutiva continua sendo um desafio, mesmo para rebanhos mestiços.

Estratégias são utilizadas para reverter ou minimizar os fatores fisiológicos e de ambiente que atrapalham a reprodução. Uma delas é a utilização de protocolos hormonais para realização da inseminação em momento determinado. Mas, mesmo com o uso intenso da ferramenta, a observação de cio continua sendo uma peça importante no manejo reprodutivo das fazendas. Para que a IA seja eficiente, é preciso combinar o protocolo hormonal para inseminação artificial com o eficiente treinamento da mão de obra para realizá- los no momento correto, bem como um eficiente controle de diagnóstico gestacional e capacidade de observação dos cios de retorno. Esse é um dos pontos em que as tecnologias de monitoramento têm muito a contribuir para os sistemas de produção. Atualmente, dificilmente um sistema de produção que não utilize nenhuma dessas ferramentas consegue trabalhar com boas taxas de serviço. A consequência disso serão longos períodos de serviço, aumento do intervalo entre partos e perda de eficiência produtiva.

Animais mestiços

Os animais mestiços, como as vacas Girolando, apresentam maior deposição de gordura no tecido subcutâneo, enquanto animais de raças taurinas, como a própria Holandês, depositam mais gordura visceral. Essa diferença na deposição das reservas corporais dos animais mestiços, algumas vezes, gera uma má avalição da condição corporal. Não é incomum encontramos lotes pré-parto de vacas Girolando que estão com elevado escore corporal, o que normalmente é indicativo de um longo período de serviço na lactação anterior e de um grande intervalo entre partos. Todas essas informações ajudam a reforçar a importância do período de transição para o sistema de produção de leite e para a saúde das vacas durante o periparto. Fora o importante impacto sobre a produção de leite, o manejo desse período afeta diretamente a capacidade dos animais de retornar à ciclicidade e sua fertilidade. Portanto, a detecção precoce de problemas no período seco, no pré e no pós-parto imediatos, é extremamente importante para que tenhamos êxito nos programas reprodutivos.

Não existe uma receita única de estratégia a ser trabalhada nas fazendas. Cada propriedade precisa definir junto com seu veterinário e gerentes o melhor caminho, baseado nos dados de desempenho reprodutivo. Muitas fazendas no mundo trabalham suas estratégias reprodutivas de forma a integrar diferentes tecnologias, como por exemplo, os protocolos de sincronização junto com o sistema de monitoramento. Essa integração permitindo que a fazenda reduza o intervalo entre as inseminações e consequentemente pode conseguir melhorar sua eficiência como um todo.

Ladrões da eficiência produtiva

Falha na identificação dos cios - É uma das principais causas de ineficiência reprodutiva nas fazendas que utilizam IA, assim como a demora para inseminar novamente um animal identificado como vazio no diagnóstico gestacional. Um dos fatores que corroboram com isso é o menor tempo de demonstração de de cio. Uma das justificativas é a forte entre o comportamento de cio e a produção de leite dos últimos dez dias antes da ovulação. Ou seja, a vaca tem a menor concentração de estrógeno circulante no dia do cio, que é relacionado ao intenso metabolismo dos animais de alta produção.

Horário de demonstração dos cios - A maioria dos animais demonstra o comportamento de cio entre as 18h da tarde e as 6h da manhã, horário em que, na maioria das fazendas, não há colaboradores dedicados à observação.

Retorno à atividade ovariana - O retorno à atividade ovariana pode ocorrer 15 dias após o parto, e não depende da involução uterina completa, que, normalmente, ocorre entre 30 e 45 dias após o parto. A expressão de cio dentro dos primeiros 30 dias de lactação é um bom indicativo da eficiência reprodutiva do animal. Em média, animais que ovulam dentro dos primeiros 30 dias após o parto precisam de menos serviços por prenhez do que animais que só ovularam após esse período. Porém, o retorno à atividade ovariana depende de muitos fatores, dentre eles o escore de condição corporal, a nutrição, produção de leite e ocorrência ou não de doenças no período de transição. Outro fator importante é o de que, em média, independentemente do tempo decorrido após o parto espera-se que de 5,7 a 8% de todas as ovulações que ocorram nos rebanhos leiteiros sejam silenciosas, sendo que a maioria dessas irá ocorrer dentro dos primeiros 90 dias após o parto.

Doenças - A ocorrência de doenças, principalmente durante o período de transição, também tem um grande impacto sobre a eficiência dos animais. Quando ocorrem uma ou mais doenças durante os primeiros 30 dias em lactação, pode haver uma redução de até 25% de vacas cíclicas por 60 dias após o parto. As mais comuns são hipocalcemia, metrite, cetose e mastite. Os efeitos sobre a reprodução também podem ser facilmente percebidos nas taxas de prenhez por inseminação no primeiro serviço. Vacas saudáveis, normalmente, são mais eficientes do que as que apresentam alguma doença metabólica ou de origem uterina. No caso de animais cruzados, o escore corporal ao redor do parto é um fator de risco que sempre deve ser observado.

Médica-veterinária e pós-graduada em Zootecnia e Produção Animal pela UFMG e coordenadora de Território em Monitoramento da Allflex Brasil