Reprodução

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Fertilidade do touro impacta sobre número de bezerros nascidos, peso ao desmame e custo de prenhez mesmo que sêmen carregue características genéticas desejáveis

1Fernanda Nunes Marqui

O ano de 2020, apesar de um tanto quanto conturbado e repleto de incertezas provocadas pela pandemia da Covid-19, tem trazido algumas boas notícias para a pecuária. O preço do bezerro vem batendo recordes (alta de quase 70% nos últimos 12 meses segundo a Scot Consultoria), um cenário que, há muito tempo, não era visto e, de acordo com especialistas, pode seguir firme até 2021. Além disso, vimos, no Brasil, um aumento expressivo de 31% na venda de sêmen no primeiro semestre de 2020, com 8.898.272 de doses comercializadas, sendo 5.540.140 doses aptidão corte e 2.560.789 doses aptidão leite) em relação ao mesmo período de 2019 (ASBIA, 2020), com acréscimo de cerca de 1% no preço médio na dose comercializada.

Os dados mostram que o pecuarista está despertando para a importância de colocar genética de qualidade no seu rebanho! O primeiro passo para se alcançar um rebanho mais produtivo e com maior retorno econômico já foi dado a partir do emprego das biotecnologias reprodutivas como a IATF que aumentou cerca de 130 vezes de 2002 a 2018 segundo o professor da USP, Pietro Brauselli. Porém, infelizmente, ainda nem todos se atentaram para esse fato, visto que a estimativa é de que apenas 16% das matrizes em idade reprodutiva sejam inseminadas no país. Os outros 84% ainda são mantidos em sistema de monta natural, sendo cobertas por touros, em maioria (82%), sem avaliação genética para produtividade.

Importante ressaltar que apenas utilizar inseminação artificial não será sinônimo de ganhos em produção/ produtividade se não houver uma avaliação cuidadosa do rebanho e onde se pretende chegar com ele e, acima de tudo, bastante critério na escolha do reprodutor adequado. Além disso, essa ferramenta deve ser aproveitada para explorar e potencializar o melhoramento genético no rebanho, e não apenas para a multiplicação de indivíduos sem nenhum critério, já que o investimento em tempo, em mão de obra, em hormônios e, até mesmo, em sêmen será o mesmo.

Embora o perfil do comprador de sêmen seja bastante variado, podemos citar alguns. Há aqueles que ainda compram material genético pelo fenótipo do touro, ignorando valores genotípicos. Para ele, não importa que a progênie seja tardia ou consuma muito alimento para ganhar pouco peso, já que não faz contas. Há também o comprador que visa somente o preço da dose, sem olhar para fenótipo e para a genética, afinal, só faz a conta de quanto vai “gastar” com a aquisição do sêmen. Há ainda aquele que escolhe a genética (analisa provas, compara touros, considera onde quer chegar com rebanho). Esse é o que enxerga a pecuária como qualquer outra atividade econômica, que precisa dar lucro. Esse é o comprador que presta muito mais atenção nos números do que no animal em si. É o que vê que, muitas vezes, “economizar” R$5,00 na dose hoje faz com que ele perca, pelo menos, o dobro do rendimento, por quilo, na comercialização do bezerro desmamado e, ainda mais, no preço da arroba no frigorífico.

Não há quem esteja certo e quem esteja errado, visto que tudo depende de do objetivo do pecuarista. Se for apenas admirar a então ele não está errado em adquirir o sêmen pelo fenótipo do touro. Mas se ele quiser lucro, produção e produtividade, aí sim a seleção dos reprodutores precisa ser criteriosa e baseada na avaliação genética.

Critérios de escolha

A primeira escolha a ser feita é da raça. Ela deve atender ao objetivo do produtor com seu rebanho: trabalhar com raça pura (PO – Puro de Origem), cruzamento ou gado comercial (CEIP – Certificado Especial de Identificação e Produção). Além disso, ela precisa ser adaptada à região (clima), ao sistema de produção (intensivo ou extensivo) e entregar uma produção alinhada à necessidade de produção e à demanda do mercado consumidor. Entre todas as variáveis, a escolha da raça adaptada é a alternativa mais simples e pode proporcionar menor custo de produção. Nesse sentido, o uso de cruzamentos entre raças tende a agregar maior qualidade, produtividade e redução no ciclo de produção.

Definida a raça, partimos para a avaliação genética (fornecida por vários programas de melhoramento e disponibilizada em sumários) que, no caso do gado de corte, é expressa na forma de DEP’s (Diferença Esperada na Progênie). Elas representam, em número, a expectativa de resposta que será expressa na progênie de um determinado reprodutor (macho ou fêmea) em comparação a outros reprodutores avaliados dentro de um mesmo grupo/análise. Importante lembrar que elas não podem ser comparadas entre touros de raças diferentes. Para ficar mais claro: se o animal A tem DEP 10 Kg para peso ao desmame, o B tem 5 kg e o C tem -7 kg, significa que, se acasalados com vacas e condições ambientais semelhantes, os filhos do touro A irão desmamar 10 kg mais pesados do que a média dos filhos dos demais touros avaliados na mesma prova genética; os do touro B, 5 kg mais pesados, e os do touro C, 7 kg mais leves. Comparando os resultados, os filhos do touro A entregará filhos 17 kg mais pesados que o C, e 5 a mais que o B.

Importante lembrar que o valor da DEP é uma expectativa: o fenótipo (= desempenho do animal) é resultado do genótipo (= genética) somado aos efeitos do ambiente. Ou seja, o animal pode ter boa genética, mas só irá expressá- la em desempenho (fenótipo) se houver condições favoráveis de ambiente (nutrição, sanidade, bem- -estar, etc). Quanto maior a acurácia (ACC) de uma DEP, maior a confiabilidade do resultado, pois significa que maior número de descendentes desse animal foi avaliado. Quanto mais próxima de 1 maior a confiabilidade.

A proposta de analisar as DEP’s não é classificar os touros em bons ou ruins, mas auxiliar na seleção de características que precisam ser corrigidas ou melhoradas no rebanho. Vale ressaltar, mais uma vez, que é preciso considerar as condições de ambiente, de sistema e os objetivos com o rebanho. O mais indicado é sempre escolher reprodutores com DEP’s equilibradas, e não avaliá-las isoladamente, já que muitas delas podem ser antagônicas. Por exemplo: para o criador que vende bezerros no desmame, o mais interessante é utilizar touros com DEP elevada para peso ao desmame. No entanto, é preciso atentar para que esse indivíduo não tenha DEP’s ruins para ganho pós-desmame, pois deixará o comprador extremamente descontente com os resultados.

Considerando que o intervalo entre gerações médio do rebanho brasileiro é de 4 a 5 anos, a seleção de características para o melhoramento genético e produtivo do rebanho precisa ser continuada, visto que aquilo que é selecionado hoje só será expresso na próxima geração (daqui 4 a 5 anos). Uma maneira de encurtar esse período e obter resultados mais cedo é trabalhar com características para precocidade como:

• Idade ao primeiro parto (IPP): DEP medida em dias e indica a precocidade sexual das filhas do touro; valores negativos são desejáveis;

• Circunferência escrotal (CE): expressa em cm, a circunferência escrotal ao sobreano é um indicador de precocidade sexual para os filhos e filhas; valores maiores são desejáveis.

Outras DEP’s de interesse para não errar na hora da escolha do reprodutor são:

• Peso ao nascer (PN): expressa em kg, é um importante preditor de facilidade de parto; deve ser analisada principalmente para a inseminação de novilhas, já que touros com alta DEP de PN tendem a produzir bezerros grandes ao nascimento que, associada à pequena abertura pélvica normalmente observada nessa categoria, resulta em necessidade de intervenção no parto e reduz a taxa de sobrevivência pós-natal;

• Peso ao desmame (PD): expressa em kg, prediz a habilidade dos filhos de determinado touro ter maior ou menor ganho de peso até o desmame; valores elevados são indicados para sistemas com elevada disponibilidade de alimento de qualidade para que a progênie consiga expressar essa genética;

• Ganho de peso do nascimento ao desmame (GND): expressa em kg, mede a capacidade do touro exercer efeito direto sobre a velocidade de ganho peso do bezerro do nascimento até o desmame (205 dias); valores altos nessa DEP são indicados para sistemas com elevada disponibilidade de alimento de qualidade;

• Ganho de peso ao ano (PA), ao sobreano (PS) e pós-desmame (GPD): medida em kg, prediz a habilidade do touro conferir às suas progênies crescimento/ganho de peso ao ano, aos 550 dias e do desmame até os 550 dias, respectivamente;

• Retorno maternal (RMat): índice bioeconômico que traduz a performance financeira das filhas do reprodutor, é uma estimativa de retorno por vaca em kg de peso vivo (bezerro) ao ano descontando o seu custo estimado com a mantença; leva em consideração a idade ao primeiro parto, a permanência reprodutiva da matriz. Maior RMat é desejável, pois indica que as filhas tendem ter menor idade ao primeiro parto, maior permanência produtiva no rebanho, menor custo de mantença, e que produzem bezerros com maior ganho de peso e melhor composição da carcaça em termos de conformação, precocidade e musculatura;

• Stayability (Stay) ou longevidade (Long): indica a probabilidade de as filhas do reprodutor permanecerem produtivas no rebanho após 6 anos de idade.

Além dessas, existem muitas outras DEP’s que variam de acordo com o programa de avaliação genética e devem ser avaliadas de acordo com o objetivo de produção. Mas lembre-se: o reprodutor pode ter todas as características genéticas desejáveis, mas se não tiver boa fertilidade, ele terá pouco valor dentro de um rebanho!

Fertilidade do reprodutor

No Brasil, os dados mostram que cerca de 20 a 40% dos touros em reprodução são subférteis e 5% inférteis. Quando nos referimos ao touro infértil, ele é facilmente identificado por ter o histórico de não produzir filhos. Já o touro subfértil é o grande problema nos rebanhos: ele produz bezerros, porém, em quantidades menores, logo, passa despercebido aos olhos do produtor e, com ele, os prejuízos econômicos que gera.

Avaliar a qualidade espermática (espermograma) e da taxa de concepção (nº de fêmeas prenhes em relação ao nº de vacas inseminadas em um período) são duas maneiras de predizer a fertilidade de um reprodutor, sendo a última a mais confiável (desde que eliminado os fatores relacionados à fêmea e ao ambiente). Isso porque já é provado que, embora a qualidade espermática possa variar de acordo com a idade, nutrição, manejo e ambiente, a capacidade de um reprodutor produzir maior taxa de prenhez é uma característica inerente ao indivíduo.

E importante também destacar os resultados fornecidos pelo professor Pietro Baruselli quanto ao impacto da fertilidade do touro sobre o número de bezerros nascidos, o peso ao desmame e o custo da prenhez, que se dilui com a escolha correta do reprodutor (Figura 1):

Médica Veterinária (UENP - Bandeirantes), Mestre e Doutora em Biotecnologia Animal (UNESP - Botucatu) com ênfase em Reprodução Animal, Supervisora Técnica de Serviços na CRV Lagoa