O Confinador

Diferencial no cocho e no BOLSO

Facilidade de manejo, acabamento precoce e qualidade da carne exigem criteriosa seleção sobre o futuro das fêmeas

Welton Cabral 1, Nelcino Francisco de Paula 2, Ronyatta Teobaldo 3, Mariane Ferro 4, Eliezer Dos Santos Jr. 5, Lareska Morzelle 6 e Naidia Neves 7

O ciclo pecuário e as demandas de mercado ditam os rumos, o nível tecnológico e os preços praticados pela cadeia produtiva da carne bovina. Isso impactará a forma como o produtor rural irá estabelecer e executar as estratégias produtivas e econômicas do seu negócio. A fêmea é, nesse cenário, o principal fator que desencadeia variações na oferta de carne ao frigorífico, uma vez que, além de ser uma máquina produtiva de bezerros e de oferta futura de bois para abate, pode ser matéria-prima para abastecer as escalas de abate. Parte dessas fêmeas provém do descarte das que não emprenharam ao longo da estação de monta. Outra parte vem de uma operação semelhante à praticada com machos, na qual o produtor retém as desmamadas para recria e engorda até atingirem o peso preconizado pelo frigorífico. Existe, ainda, uma terceira fonte de matrizes, que são os sistemas nos quais são abatidas após a primeira cria, especialmente as oriundas de cruzamento industrial, com maior precocidade e carne de qualidade. A participação de fêmeas (vacas - mais de 24 meses -, e novilhas - menos de 24 meses) é bastante expressiva nas estatísticas de abate no Brasil e é fortemente afetada pelo ciclo pecuário. De acordo com a Agrifatto, a expectativa é que a participação de fêmeas na linha de abate caia três pontos percentuais em 2020, e atinja o menor nível desde 2010 com 38% do total (Figura 1).

Ao avaliar o cenário de forma mais detalhada, nota-se maior participação de novilhas (12-24 meses) nos abates, e um recuo na participação de vacas de descarte (Figura 2). Embora parte das mudanças possa ser explicada pela retenção de fêmeas (ciclo pecuário), a busca do mercado chinês por animais jovens e a do consumidor pela carne de maior qualidade (carne premium) têm aquecido o envio de novilhas para o frigorífico nos últimos anos (Agrifatto 2020; IMEA 2020).

De fato, as plantas frigoríficas perceberam uma oportunidade de obter carcaças de melhor qualidade com as novilhas, uma vez que machos inteiros apresentam menores chances de apresentarem um acabamento ideal de carcaça. Assim, o mercado passou a diferenciar os preços pagos pela vaca, pelos bois e, agora, pelas novilhas, que, muitas vezes, recebem até adicionais sobre o preço do macho inteiro.

Engorda intensiva

A engorda intensiva de bovinos de corte tem um modelo definido para os machos, com crescente inclusão de tecnologias que visam ao aumento da eficiência produtiva e econômica. O mesmo modelo é considerado para as fêmeas que seriam descartadas por não responderem positivamente à reprodução e não mais agregarem valor ao sistema produtivo. Desse modo, o produtor rural tem realizado avaliações de seleção de forma mais criteriosa logo após a desmama, estabelecendo estratégias produtivas distintas conforme o objetivo futuro das novilhas: abate ou prenhez.

A engorda de fêmeas é realizada em ciclo mais curto do que a de machos. Seu manejo é mais fácil, pois apresenta menos disputas sociais, fator que resulta em menor estresse pré-abate e pode interferir no pH da carne. Além disso, sua curva de crescimento faz com que a deposição de gordura ocorra mais rapidamente do que nos machos, tornando-as mais precoces em acabamento de carcaça. Com menor idade, conferem mais maciez, sabor e qualidade à carne.

A engorda intensiva de fêmeas pode ser realizada a pasto ou em sistema de confinamento convencional. A pasto, o investimento em instalações e o custo operacional são menores. E a fibra utilizada na dieta é obtida diretamente do capim disponível, não sendo necessária a confecção de volumoso. No entanto, a vedação do pasto no final do período de chuvas deve ser realizada para manter quantidade suficiente de forragem para o período da seca.

Na Terminação Intensiva a Pasto (TIP), a oferta de forragem disponível é determinante para a quantidade de ração consumida pelos animais, e, juntamente com o tempo de permanência no sistema, irá determinar a lotação da área (Reis et al., 2011). Recomenda- se o fornecimento de cerca de 1,8% a 2% do peso corporal de ração concentrada no cocho durante o período seco do ano. Na época chuvosa, a quantidade ingerida tende a reduzir para patamares de 1,6% a 1,8% do peso corporal. Ainda, a escolha dos ingredientes da dieta é dependente de fatores como o peso de entrada, o ganho de peso, o peso de saída, e os insumos disponíveis em cada região, assim como o preço. A meta de ganho de peso é igual ou superior a 1,2 kg/animal/dia.

Para o fornecimento de cerca de 2% do peso corporal de ração concentrada no cocho, é necessária a utilização de um protocolo nutricional, considerando a adaptação dos micro-organismos ruminais e o epitélio do rúmen, visto que a dieta fornecida é rica em amido, com grande quantidade de carboidratos não fibrosos de rápida fermentação (Watanabe, 2016). Sugere-se limitar a quantidade de matéria seca de ração fornecida em relação ao peso corporal do animal e realizar incrementos diários, até atingir o fornecimento final desejado (Estevam, 2016).

As fêmeas de descarte que estavam em plano nutricional adequado e não entraram na estação de monta poderão ser abatidas com menos de quatro dentes definitivos, com peso entre 15 @ e 16 @, e o mínimo de 3 mm de cobertura de gordura, dependendo do plano nutricional e do sistema de produção adotado. Para obter animais jovens nesse sistema, deve-se planejar a recria intensiva, o que também auxiliará na adaptação mais rápida dos animais à maior quantidade de concentrado fornecida na fase de engorda. Com isso, a melhor qualidade da carne das fêmeas terminadas em sistema intensivo agregará valor ao produto final, podendo ser direcionada para nichos específicos de mercado.

Outro ponto importante refere-se à oferta de água em quantidade e qualidade. Sistemas que negligenciam a qualidade da água têm os ganhos de peso comprometidos. Recomenda-se que os bebedouros sejam lavados, pelo menos, duas vezes por semana. Para tanto, devem ter pequena capacidade, mas elevada vazão.

Avaliação de risco

A TIP (Terminação Intensiva a Pasto) de novilhas traz riscos de acordo com o cenário de cada propriedade e do mercado onde atua o confinador. Para entendê- -los, usamos uma simulação (Figura 3) da atividade realizada por uma fazenda produtiva com mil hectares que projeta o abate de 1,5 mil a 2 mil cabeças de novilhas de descarte. Os custos envolvidos na operação foram obtidos a partir de valores praticados no estado de Mato Grosso. O valor de venda da @ leva em consideração o abate de animais jovens e com bom acabamento de carcaça, e, portanto, com bonificação. Os demais parâmetros foram inseridos com base nas possíveis variações ao longo do período.

Trinta diferentes cenários foram avaliados considerando as possíveis variações nos dados de entrada. Ao avaliar a composição dos custos, nota-se que o custo de aquisição do animal magro representa o maior custo, aproximadamente 73% do custo de produção total. Ao desconsiderar o custo do animal, a nutrição representa 69% do custo de produção da @ (Figura 4). O cálculo do custo médio de @ produzida ficou em R$ 187,06.

O lucro por cabeça (R$/cabeça/ período) e o lucro por área (R$/ha/ período) estão apresentados nas Figuras 5 e 6, respectivamente. É possível observar que nenhum cenário apresentou resultado negativo. O lucro médio foi de R$ 239,83/ cabeça no período, mostrando viabilidade na engorda de fêmeas em sistema de TIP no atual cenário. O melhor cenário aponta lucro de R$ 346,35/animal. O lucro médio por hectare foi R$ 417,06 no período.

É importante ressaltar que, apesar de a simulação considerar variações nos parâmetros iniciais, a avaliação de cenários é local, dependente e não reflete todos os cenários possíveis. Atenção especial deve ser dada para as variáveis que mais impactam na formação dos custos. Da mesma forma, deve-se atentar sobre as oportunidades de mercado, tanto para aquisição como para venda de animais.

1 Zootecnista, doutor em Agricultura Tropical e diretor-executivo da Gesta’up 2 Doutor em Zootecnia e professor na FAAZ / UFMT 3 Doutora em Zootecnia e coordenadora de Projetos na Gesta’up 4 Zootecnista, Doutora em Ciência Animal e coordenadora de Capacitação na Gesta’up 5 Zootecnista e coordenador de Consultoria na Gesta’up 6 Zootecnista, consultora técnica na Gesta’up 7 Graduanda em Zootecnia UFMT, trainee na Gesta’up