Nutrição

Equação ESTRATÉGICA

Produto da cruza entre zebu e taurino transfere energia que seria gasta na manutenção da temperatura corporal para lactação e reprodução

Vinícius de Anhaia Camargo1; Helena Xavier Fagundes2; Amir Gil Sessim3; Júlio Otávio Jardim Barcellos4

O cruzamento entre raças bovinas vem sendo estudado e aplicado no campo há mais de 40 anos em todo o mundo. Os cruzamentos são ferramentas de baixo custo utilizadas para aumentar a produtividade de rebanhos comerciais, por meio da soma das qualidades e da redução de deficiências das raças mães. Esse balanço entre as características positivas e negativas se manifesta por meio da heterose – fenômeno em que os filhos apresentam melhor desempenho do que a média dos pais para alguma característica (peso ao nascer, peso ao desmame, idade à puberdade, entre outros) –, que tende a ser maior quanto mais diferentes forem as raças entre si. No Brasil, os cruzamentos mais comuns são entre zebuínos e taurinos, principalmente entre as raças britânicas e a nelore, com a venda do bezerro F1 (primeira geração do cruzamento, filho de raças puras diferentes) no chamado cruzamento industrial. No entanto, existem diferentes métodos de cruzamento, como o rotacional, entre duas ou mais raças; o absorvente, quando a F1 e suas descendentes são sucessivamente cruzadas com uma das raças mães; ou, ainda, a produção de um composto formado por diversas raças. Além disso, principalmente no Sul do Brasil, é comum observarmos a cruza entre raças britânicas, britânicas e continentais, além de continentais e zebuínas, que, na maioria das vezes, ocorre em rebanhos nos quais a base genética é europeia. Esses arranjos geram diferentes resultados, que variam conforme as condições do ambiente.

A resposta do rebanho ao ambiente é o principal fator que devemos observar na escolha do cruzamento. Por isso, rebanhos de cria devem receber uma atenção especial quando o assunto é cruzamento, uma vez que são criados basicamente a pasto e submetidos a diferentes condições de produção. Caso o ambiente apresente fatores estressantes, que limitem a produção, o gestor deve investir em reduzir perdas pelo aumento da rusticidade dos animais; caso contrário, potencializar a produtividade deve ser seu principal objetivo. No primeiro caso, ocorre o aumento da participação de sangue zebuíno em rebanhos europeus, oferecendo maior resistência ao calor, ao carrapato e aos alimentos de menor qualidade, produzindo vacas mais adaptadas, com melhor desempenho que suas mães nesse ambiente. O segundo pode ser visto tanto na cruza entre raças europeias como na introdução de sangue europeu em rebanho zebuíno, gerando animais superiores aos seus pais em ganho de peso, eficiência alimentar e precocidade. Em ambos os casos, teremos aumento da produtividade sem alterar o ambiente, pela manifestação da heterose.

Mas, afinal de contas, o que a heterose tem a ver com a nutrição? Por que a produção de vacas cruzadas e puras é diferente em anos de secas prolongadas e calor excessivo ou em locais com baixa qualidade ou quantidade de pasto? A verdade é que tudo isso está relacionado, e entender algumas características que fazem com que os animais cruzados sejam diferentes nos ajuda a responder essas perguntas.

Primeiramente, precisamos entender o jargão: “Reprodução é atividade de luxo para a vaca”. De fato, ela dará prioridade a outras funções biológicas, como manutenção, crescimento e lactação. Apenas depois dessas funções garantidas é que irá dispor de nutrientes para a reprodução. A manutenção contempla toda a energia gasta com as ações necessárias para o animal se manter vivo, como respirar, se alimentar ou manter a temperatura corporal. Por isso, animais que gastam menos energia com esses processos têm maiores chances de ter as outras funções atendidas, principalmente quando o alimento em quantidade ou qualidade é um limitante.

Considerando que o funcionamento dos órgãos internos consome aproximadamente 50% da energia ingerida pelo animal, o peso das vísceras em relação ao peso vivo é um ponto importante. Diversos estudos demostram que o peso relativo dos órgãos internos de animais cruzados, seja entre raças britânicas ou entre zebuínas e europeias, é menor que o de animais de raças europeias puras. Por isso, eles precisariam de menos nutrientes para manter seu funcionamento, gastando menos energia para a manutenção.

Temperatura corporal

A manutenção da temperatura corporal é um dos processos essenciais e que geram elevado custo de energia para o animal, seja para produzir ou para dissipar calor. Quanto mais desconfortáveis forem as temperaturas ambientais, maior será o gasto de energia para ajustar a temperatura interna, e maiores serão os efeitos desse estresse térmico, causando prejuízos à produção. Nesse caso, o cruzamento é uma estratégia interessante para obter animais adaptados e reduzir as perdas.

A cruza entre raças zebuínas e taurinas gera animais que gastam menos energia para dissipar o calor, o que aumenta a sua tolerância às altas temperaturas por uma série de características anatômicas e fisiológicas. A herança do sangue zebuíno traz glândulas sudoríparas mais eficientes e em maior quantidade, o que auxilia na perda de calor pela transpiração. Além disso, a pele desses animais tende a ser mais fina e o pelo, mais curto e liso, o que facilita a dissipação de calor. Esses fatores, somados à menor produção de calor próprio, devido ao menor peso dos órgãos internos, fazem com que esses animais gastem menos energia para manter a temperatura corporal em épocas quentes, reduzindo a energia necessária para a manutenção, que é transferida para a lactação e a reprodução.

Essas características são especialmente importantes quando o alimento é de baixa qualidade, como pastos grosseiros de baixa digestibilidade, que geram mais calor para serem processados e absorvidos pelo animal, o que aumenta a produção de calor interno. Como esse processo, aumenta o gasto de energia para manter a temperatura, e animais cruzados que têm maior facilidade em perder calor e maior tolerância a temperaturas altas gastam menos energia com essa função. Portanto, aproveitarão melhor os nutrientes em outras funções biológicas.

Além disso, o calor ambiental também afeta o comportamento de pastejo e o consumo de matéria seca, reduzindo o número de horas pastejadas ao dia, principalmente os com mais horas de altas temperaturas. No entanto, em fêmeas cruzadas, essa redução não é tão significativa como nas raças europeias, pois, como não sofrem tanto com o estresse térmico, passam mais tempo pastando. Esse ponto é importante quando a quantidade de pasto está abaixo do ideal, já que animais mais susceptíveis ao calor param de pastar antes de atingir o máximo preenchimento do rúmen e procuram áreas de sombra ou aguadas. Ademais, vacas cruzadas levam menos tempo do que vacas de raças europeias ou zebuínas para consumir um quilo de alimento, o que acarreta menor gasto de energia ao se alimentar e auxilia na redução do custo de energia para manutenção.

Alimentação na prática

Para compreender essas relações na prática, vamos imaginar três vacas com cria ao pé, uma de raça europeia, outra zebuína e a terceira, cruzada entre as duas primeiras. Em pleno dezembro, apenas a pasto com lotação ajustada, precisariam pastar em torno de oito horas por dia para atender às suas necessidades nutricionais. Mas, se as condições de altura e qualidade do pasto não fossem ideais, haveria diferença de desempenho? Pois bem, agora temos todos os elementos de um verão de norte a sul do Brasil, e podemos fazer algumas previsões de como as condições nutricionais e ambientais impactarão no desempenho desses animais.

Como já foi comentado, o estresse causado por altas temperaturas associadas ou não com baixa qualidade ou quantidade de pasto prejudica o desempenho dos animais. Então imagine como uma vaca de raça europeia faria para pastar até suprir as suas necessidades, as do seu bezerro e, ainda, emprenhar em temperaturas médias de 35ºC. Mesmo em pastos de alta qualidade e em boa quantidade, seria um desafio. Porém o que acontece em situações de pasto de baixa qualidade e altura? Como se comportariam essas vacas? Bem, nesse caso, elas precisariam de, pelo menos, mais duas horas de pastejo em pleno sol de verão, e, com todo o calor que essa digestão causaria, já sabemos quais são os impactos, certo?! Isso mesmo, as vacas gastariam mais energia para perder calor, deixariam de pastar em razão do estresse térmico e não ingeririam todo o alimento necessário, perdendo condição corporal, produzindo menos leite e com alta probabilidade de ficarem vazias ao final da temporada.

No caso de vacas de raças zebuínas ou cruzadas, o desafio em condições de alta temperatura e pastos de alta qualidade e altura ideal é baixo. É verdade que, no calor extremo e em pasto de baixa qualidade e altura, essas vacas também terão maior gasto de energia. No entanto, nessas condições, ambos os animais sofrem menos que vacas europeias, aproveitando melhor o alimento, o que gera menos impacto na produção.

1Médico-veterinário e mestrando em Zootecnia na UFRGS/NESPro 2Graduanda em Medicina Veterinária na UFRGS/NESPro 3Médico-veterinário e pesquisador de pós-doutorado em Zootecnia na UFRGS/NESPro 4Professor no Departamento de Zootecnia da UFRGS e coordenador do NESPro