Sobrevoando

Tipo

Toninho Carancho

Estou cada vez mais convencido do tipo das vacas de cria que eu quero. É uma vaca que parece média ou até pequena, porém é pesada, bem larga vista de cima e de trás, também é bem profunda vista de lado. O pescoço é fino e a cabeça seca, bem feminina. E me parece que pode ser de qualquer raça. Esse é o tipo que acaba funcionando muito bem e ficando na fazenda.

E não precisamos procurar estas vacas, não. Elas vão aparecendo em nosso rebanho e ficando lá, porque estão todos os anos prenhas e não saem no descarte das falhadas. O que eu tenho que fazer, agora, é achar os touros que produzam estes tipos de vacas, o que não é muito fácil, porque, na maioria das vezes, não são os que encontramos no mercado, e quando encontrado, o mercado os valoriza bastante.

Esses dias, olhando um remate de uma fazenda conhecida, criadora de múltiplas raças, o touro mais caro não foi o mais pesado, nem o mais comprido, foi o mais “entroncado”, que, parece, era o que tinha maior área de lombo (mas não tenho certeza). Mas era só olhar pra ele que você via que tinha qualidade, tinha carne, tinha acabamento. Ele era o mais gordo e com o mesmo tratamento dos outros. Falo de gordo e não de pesado, que são duas coisas diferentes. E, na criação a campo, acabamento é fundamental. Se temos animais muito longilíneos, que são ideais para confinamento, eles não funcionam muito bem a pasto. E digo pasto normal, sem ração e sem muito pasto mesmo, o que é a realidade da grande maioria das fazendas.

Essa vaca ideal está sempre gorda ou em bom estado. Emprenha sempre, desmama um bom bezerro, normalmente, não o mais pesado da turma, mas na média. Então, me parece que tenho que cuidar para não selecionar por altos pesos na desmama para não ficar com vacas grandes demais e produtivas de menos. Gado de cria tem que dar cria. Se for de bom peso, melhor; mas dois bezerros sempre pesam mais do que um. Então, tem que parir todos os anos e ter um custo de mantença baixo. Uma vaca muito grande e pesada demais vai me custar caro por ano, e pode ter tendência de ter menores taxas de prenhes. Não é isso que eu quero. Por outro lado, o comprador de bezerros, que vai fazer a engorda, cada vez mais, está confinando ou semi-confinando o gado, ou colocando- o em pastagens muito boas. Nesses casos, os bezerros maiores e mais longilíneos poderão ser melhores. Vão dar o acabamento num peso bom e não cedo demais. Ao contrário das mães deles, que, muitas vezes, passam fome durante algum período do ano e, por isso, tem que ter outro tipo, outra conformação.

Pra mim, fica cada vez mais claro que preciso ter um tipo de vaca nos campos e um tipo diferente nos bezerros, para vender o que o mercado está procurando. É um jogo de xadrez, por isso, interessante. Acho que a minha solução vai ser inseminar ou entourar uma certa quantidade de vacas e novilhas com os touros que imagino ser os melhores para fazer as minhas fêmeas. E o restante do gado inseminar ou entourar com touros que irão produzir os bezerros e bezerras que o mercado quer. Tenho só que achar a proporção certa e ficar só com as minhas mimosas, e o restante vender tudo, machos e fêmeas. Cada sistema de criação e engorda deve ter o seu tipo ideal, e eles nem sempre são os mesmos. Tipo assim, fiquei sem espaço para escrever mais, meu texto está muito “longilíneo”. Fui!