Caprinovinocultura

ORGANIZAÇÃO favorece a produtividade

Trabalho realizado por profissionais do Senar junto a criadores promove melhoria nos índices dos rebanhos

Denise Saueressig [email protected]

A evolução da ovinocultura no Brasil está vinculada ao trabalho conjunto entre os agentes da cadeia. Em diferentes regiões do País, iniciativas que unem a transferência de conhecimento à motivação de produtores estão favorecendo os resultados nas propriedades.

Em Mato Grosso do Sul, os trabalhos da Assistência Técnica e Gerencial (ATeG) do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/MS) iniciaram em agosto de 2018, com dez produtores associados da Asmaco (Associação Sul- -mato-grossense de Criadores de Ovinos) e com um técnico de campo. Hoje, a equipe conta com nove profissionais, e o atendimento alcança 105 ovinocultores de 28 municípios, representando um rebanho de 7,9 mil animais.

Segundo Juliano Bastos, que é analista técnico do Sistema Famasul (Federação da Agricultura e Pecuária de MS), entre as Foto: João Carlos Castro - Sistema Famasul principais ações junto aos produtores estão recomendações sobre manejo reprodutivo, sanitário e nutricional, incluindo técnicas de conservação e manutenção de forrageiras. As orientações gratuitas vão além do campo e também envolvem a gestão profissional da atividade. “Um dos gargalos que encontramos quando falamos em rebanho é a escassez de lotes padronizados, tanto para os frigoríficos quanto para o fornecimento aos produtores que trabalham com o confinamento de cordeiros. Outros pontos que podem ser aprimorados são referentes à sazonalidade no fornecimento de cordeiros e à divulgação para aumentar o consumo da carne”, sustenta Bastos. O técnico lembra que o estado conta com uma iniciativa inovadora para o fornecimento de lotes mais uniformes. É a Propriedade de Descanso de Ovinos para Abate (PDOA), que concentra, em um mesmo local, animais de várias propriedades que serão destinados à indústria.

Entre os resultados obtidos recentemente em Mato Grosso do Sul, está a taxa de desfrute, que passou de 25% para 47% depois de 12 meses de trabalho da ATeG. Nesse mesmo espaço de tempo, a produtividade passou de 77 kg por hectare/ano para 134 kg por hectare/ano. “Também observamos avanços nas finanças. O custo unitário era de R$ 19,61 por quilo ao mês e, após 12 meses, caiu para R$ 5,14 por quilo ao mês. A mortalidade entre os rebanhos, que apresentava uma taxa era de cerca de 40%, após um ano de assistência chegou a 2,6%”, enumera.

Manejo diferenciado

A produtora Maria Otilia Zardo conta com o apoio da ATeG há cerca de dois anos e relata uma evolução significativa no rebanho da Fazenda Rancho Ideal, em Chapadão do Sul/MS. Na propriedade, a família cultiva soja e milho e faz integração lavoura-pecuária (ILP) com bovinos. O rebanho ovino é da raça Suffolk e voltado à venda de reprodutores. “Mesmo trabalhando com a ovinocultura há mais de 20 anos, percebemos que era importante focar em aspectos que ajudassem a organizar a atividade. Seguimos as orientações da consultoria e fizemos o descarte de fêmeas de acordo com a avaliação individual que foi realizada”, observa.

Os profissionais do Senar também sugeriram uma estratégia diferenciada de manejo alimentar para ampliar a uniformização dos lotes na desmama. Os cordeiros permanecem com as mães durante à noite e, de dia, recebem suplementação, em um esquema até aproximadamente os 90 dias de vida. “Estamos conseguindo animais nessa idade com cerca de 35 quilos. É um conjunto de pequenas mudanças que favorecem todo o ciclo de produção”, destaca Maria Otilia.

Fonte de renda

Em Santa Catarina, as ações realizadas por meio de visitas técnicas individualizadas são complementadas com iniciativas coletivas, como oficinas que reúnem grupos de produtores para a troca de experiências e seminários e dias de campo para divulgação do programa. Mais de 300 propriedades em cerca de 40 municípios recebem gratuitamente a consultoria da ATeG. No mês passado, dois grupos com 60 ovinocultores foram iniciados. “O trabalho cresce porque existe a demanda. Os produtores estão em busca de maior eficiência e profissionalização”, assinala Luis Henrique Correia, supervisor técnico nas cadeias de ovinos e bovinos de corte do Sistema Faesc/Senar (Federação da Agricultura e Pecuária de SC).

Faz parte do trabalho dos consultores mostrar aos produtores que a ovinocultura pode ser bastante rentável, complementar a outras atividades ou, ainda, se tornar a principal fonte de renda da propriedade. “Mais do que gerar números positivos, nos preocupamos com a qualidade de vida das famílias no campo e, por isso, incentivamos práticas que facilitem a rotina dos produtores”, ressalta Correia.

As orientações relacionadas ao manejo e à gestão fizeram com que, em três anos, o rebanho das propriedades assistidas tenha sido ampliado de 8 mil para 11 mil cabeças. A comercialização aumentou 45%, para 4,7 mil animais vendidos ao ano, e a renda foi incrementada em 60% nas propriedades.

Outra vertente das iniciativas da Faesc é o desenvolvimento amplo da cadeia. No ano passado, foi lançado o selo Purpurata de certificação para cortes bovinos e ovinos. Devido à pandemia, as ações do programa sofreram atraso, mas a expectativa é de que ainda este ano os primeiros animais sejam integrados ao processo que visa ampliar a qualidade e a segurança da carne. O projeto prevê um acréscimo de 5% no valor a ser pago pelas indústrias aos produtores. Em setembro, o preço médio do quilo do cordeiro vivo em Santa Catarina era de R$ 8,50.

Redução de custos

A renovação do plantel baseada em critérios técnicos, e, consequentemente, uma melhoria geral do rebanho, é um dos resultados do trabalho da ATeG na Fazenda Chapada Bonita, em São Joaquim/ SC. A propriedade, que é modelo do projeto na região, recebe uma vez por mês a visita de uma veterinária, que acompanha de perto o desenvolvimento dos animais, e de um agrônomo, que auxilia na condução das pastagens.

O produtor Bruno Mattos Castello Branco é representante da terceira geração da família, que também cria gado e cultiva maçã na Serra catarinense. Há dois anos, desde que começou a acompanhar a ovinocultura mais de perto, ele conta com as orientações da equipe do Senar. “Tivemos uma redução de 14,5% na mortalidade de cordeiros e diminuição de custos com o monitoramento individualizado dos animais. Só este ano vamos renovar 33% do nosso plantel”, revela.

No manejo, uma das principais mudanças implantadas foi a vermifugação a partir da adoção do método Famacha em substituição à medicação calendarizada feita anteriormente. Hoje, o rebanho da propriedade é de 60 matrizes da raça Hampshire Down. A família vende animais para reprodução e entre 50 e 60 cordeiros para o abate a cada safra. Com a evolução dos últimos anos, a expectativa é ampliar esses números.