Na Varanda

O que o boi brasileiro tem a ver com os SUÍNOS DA ALEMANHA?

O noticiário mostrou um javali bem bravo invadindo território germânico vindo da Polônia. Em viagem recente, notei uma coisa bem interessante. Com a adesão da Polônia à União Europeia, as principais autoestradas daquele país foram reconstruídas. Um fato curioso: houve mais “pontes” que facilitam a travessia de animais selvagens do que estruturas de passagem para carros e humanos. Em princípio, não há problema com isso, pois existe legislação detalhada de caça que mantém veados, coelhos, lobos e também javalis dentro de uma programação que assegura o equilíbrio entre plantas, animais e a civilização humana. Dessa forma, os animais, normalmente respeitando seus territórios, podem circular livremente. No entanto, sempre existem uns aventureiros, como lobos que viajam da Sibéria até a França ou – como no caso presente – alguns javalis russos, que atravessaram a Polônia agrícola para conhecer a Alemanha.

Esses intrusos, já que não estão nos registros das prefeituras, estão livres para a caça. E não só isso. Eles precisam ser abatidos pelo caçador responsável pela área. Até aqui, tudo bem. Mas, no caso, o javali viajante levou o vírus da peste suína, e não se sabe ainda exatamente de onde. Mas o levou e passou para colegas que andaram com ele, e o resultado foi que, após a sua morte, morreram outros cinco ou seis. A vigilância sanitária descobriu o problema, informou as autoridades, que confirmaram, após análise laboratorial, que realmente se tratava da peste suína africana.

Em princípio, não teria muito problema, pois grande parte da produção da carne suína ocorre em granjas fechadas. Porém pequenos produtores e os amigos da produção orgânica mantêm alguns porcos que circulam em suas fazendas juntamente com vacas leiteiras, galinhas etc. Diferentemente da Ásia, o comércio de animais silvestres em feiras livres não é prática na Europa. Com todo esse cenário, seria bem remota a possibilidade de o vírus entrar no circuito da produção comercial da carne. E vale lembrar que ele não afeta a saúde humana, como verificamos com os três focos da doença em 2018, no Ceará.

Todavia regras são regras, e, assim, logo após a publicação do fato, a maioria dos países que importam carne suína da Alemanha cancelou os pedidos. O que isso significa para o mercado mundial? A Espanha (15,8%), os EUA (15,7%) e a Alemanha (15,3%), juntos, atendem quase à metade da demanda global. O Brasil estava, em 2019, em 7º lugar, com 4,5%, o que representa um volume de U$S 1,5 bi. Como isso vai ficar agora? Bom, até o Brasil seguiu os outros países e suspendeu as importações da Alemanha, que, em 2019, atingiram 3,4 mil toneladas, ou seja, quase nada. Para falar em moeda do boi, esse volume representa cerca de um terço dos abates de um dia de bovinos no Brasil.

Ou seja, essa questão não mereceria reflexão não fosse o impacto indireto nos mercados e nas outras carnes. Se a Alemanha deixa de exportar 250 mil toneladas (quantidade enviada no primeiro semestre à China em função da peste suína de 2019 e da pandemia), o volume precisa ser disponibilizado por outros países. Naturalmente, membros da União Europeia e os EUA podem fornecer parte disso. Mas, certamente, a China vai turbinar as já aquecidas importações do Brasil. O ciclo do porco, que varia entre quatro e 4,5 meses, encontra uma capacidade de reação defasada que, naturalmente, vai impactar imediatamente nos preços. Ótimo para a suinocultura nacional.

Agora, chegamos ao nosso negócio. Conforme a lei dos vasos comunicantes, se mexermos em um lado, haverá reflexo em outro. Se o preço de importação – que já aumentou bastante – vai subir mais, os chineses, que ainda estão na fase da reconstrução do rebanho suíno, podem mudar parte da demanda para outras carnes. Entre 2017 e 2019, o país aumentou as importações de carne bovina em 50%!

A China já é destino de 43% das exportações mundiais da carne suína e de 30% da carne bovina. Se houver uma redução da importação de carne suína, em função do reequilíbrio desse mercado global pós-javali, aumentará a demanda por aves e carne de boi. Esse boi virá de onde? Continua o estresse da guerra comercial com os Estados Unidos. A Austrália está se recuperando da sequência de secas, chuvas e incêndios. Resultado: sobra o Brasil.

Já que atingimos o preço de nossos sonhos com atuais R$ 250,00 por @, valorização, que, entre outros fatores, resulta de apertada oferta de animais para abate, não deixa de ser provável que, com o deslocamento da demanda chinesa à carne bovina brasileira e a impossibilidade de o nosso setor aumentar sua oferta de imediato, ocorrerá outro pulo – ou, pelo menos, pulinho – na cotação do boi. Tudo isso depende, naturalmente, do período das restrições da Alemanha e, em parte, ao comportamento conjuntural da demanda interna. Temos, de um lado, a redução de renda, mas, do outro, a aproximação do verão com a intensificação dos churrascos do final da semana. Ou seja, um cenário bastante confuso.

Para resumir nosso exercício, podemos constatar que a iniciativa louvável dos poloneses de cuidar do bem-estar dos animais silvestres permitiu a transição sem fronteira de uma doença que, com certeza, voltará em qualquer país. Aprendemos que um pequeno incidente pode redesenhar, pelo menos temporariamente, os fluxos comerciais e atingir não só outros continentes, como também outras carnes. Nesse caso, estamos, mais uma vez, beneficiados, e ainda ganhamos com o câmbio. Mas vamos desequilibrar o consumo interno