Nutrição

Prenhez em alta rotação

Alimentação no pré-parto define duração do anestro e interfere diretamente na produção de um terneiro ao ano

Julia Abud Lima1, Vanessa Lima2, Marcela da Rocha3 e Júlio Barcellos4

A eficiência reprodutiva em um sistema de cria não é um evento isolado, uma vez que a reprodução é o resultado de vários fatores interligados que, quando são cumpridos, resultam no fenômeno mais esperado, a geração de uma progênie. Dentre os fatores que interferem na sua efetividade, o mais importante a ser gerenciado é, sem dúvidas, o nutricional, pois, além das implicações fisiológicas intrínsecas, é o elemento de maior custo no sistema de produção.

O estado nutricional da vaca é um indicador biológico evolutivo de que ela está capacitada para gerar uma cria, que terá condições de alimentá-la e ainda sobreviver. No entanto, é importante ressaltar que o animal possui diversas atividades que geram gastos à sua energia disponível e provinda da alimentação. Entre elas, podemos citar as funções vitais dos órgãos, as atividades metabólicas, a regulação da temperatura do corpo, a lactação e as respostas imunológicas, Neste cenário, a reprodução ocupa o último lugar na lista das prioridades da sua energia, que se constitui na limitação nutricional para a reprodução. Portanto, o ciclo hormonal que permite que o animal se reproduza só vai acontecer quando todas as outras atividades dependentes de energia forem atendidas. Caso contrário, a vaca ficará em um estágio fisiológico que chamamos de anestro, ou seja, sem ciclar e, consequentemente, sem gestar (permanecer falhada no final da temporada reprodutiva).

E como o produtor rural pode saber se seu rebanho está ou não suprindo as próprias exigências energéticas? A resposta está na avaliação visual do ECC (Escore de Condição Corporal), em escala de 1 a 5, sendo o 1 muito magra e 5 muito gorda. O ECC é utilizado para mensurar a deposição de gordura em pontos estratégicos do animal (Figura 1) e reflete sua condição nutricional, evidenciando, de forma clara e precisa, se ele possui ou não excedente energético suficiente para estocar em forma de gordura. Essa sinalização fica a cargo dos chamados adipócitos, que nada mais são do que as células de gordura, responsáveis pela produção de um hormônio denominado leptina, que, por sua vez, é o grande indicador de reserva energética. Dessa forma, se sua condição nutricional for adequada, o ECC será elevado, e a vaca, então, estará apta e poderá reproduzir.

O nível de energia e a condição corporal da vaca antes do parto influenciarão diretamente no seu retorno ao estro (intervalo entre o parto e o cio) e em sua concepção subsequente, ou seja, na taxa de prenhez. As exigências nutricionais variam durante o ciclo reprodutivo. Em termos práticos, existem quatro fases de necessidades nutricionais para as vacas de corte: intervalo entre o parto e o acasalamento, entre a reconcepção e o desmame, entre o desmame e os 50 dias antes do parto e os 50 dias pré-parto.

BOX

Necessidades nutricionais da vaca

• Intervalo entre o parto e acasalamento: tem duração aproximada entre 70 e 90 dias. É o período de maior demanda nutricional e no qual é esperada aptidão da vaca para a reconcepção;

• Intervalo da reconcepção até o desmame: tem duração de aproximadamente 120 dias. É o período em que a matriz deverá manter a condição corporal durante a lactação;

• Intervalo do desmame até 50 dias pré-parto: tem duração de 100 dias. É o período de menor demanda nutricional da vaca, que tem, apenas, que manter sua condição e dar seguimento ao desenvolvimento fetal. É o momento ideal para acumular reservas corporais;

• 50 dias pré-parto: é nesse período que ocorre 75% do crescimento fetal.

O momento ideal

A avaliação do estado nutricional das vacas deve ser feita no período pré-parto, entre 60 e 70 dias antes da concepção. O procedimento irá assegurar que as fêmeas em cria cheguem ao parto em condições ideais e garantir que o primeiro cio pós-parto ocorra em curto espaço de tempo, aumentando a chances de repetição da prenhez. Para o intervalo de um ano entre partos, o estro deve ocorrer dentro de 80 a 85 dias após o parto. Para isso, o ideal é que as vacas de corte estejam com o ECC entre os níveis 3 e 4.

O ECC é totalmente dependente da ingestão de nutrientes. Se as vacas estiverem muito magras ao parir, o anestro pós-parto será prolongado, afetando diretamente as chances de o criador obter um terneiro por ano, meta de um sistema de cria eficiente. Dessa forma, a alimentação no período pré-parto deve ser priorizada, podendo o produtor aderir ao uso de suplementação. Posteriormente, pode ser indicada a prática de desmame antecipado como estratégia para reduzir as exigências energéticas geradas pela lactação e garantir um aumento na condição corporal.

Para o sucesso da temporada reprodutiva, seja através de inseminação, convencional, em tempo fixo ou por meio da monta natural, é necessário apartar as vacas de acordo com as condições corporais verificadas. Separando-as em lotes, o criador conseguirá identificar mais rápida e facilmente as que ainda não alcançaram a condição corporal adequada para a reprodução. A taxa de prenhez é positivamente relacionada com o ECC. Quanto maior o escore melhor a taxa. Além disso, o ECC do rebanho também irá afetar a distribuição dos partos. Vacas com ECC menor do que 3 tendem a emprenhar no final da estação, cujos prejuízos serão manifestados na próxima estação reprodutiva.

O balanço energético positivo para atingir um bom escore se faz necessário em todas as categorias. No pré-desmame, devemos evitar a restrição nutricional, manter as bezerras crescendo num ritmo superior a 0,500 kg/dia, mas sem acúmulo de gordura. Essa posição vai determinar a exigência do período subsequente tanto das vacas como das bezerras ao pé, reposição da propriedade. O uso de pastagem e creep feeding são algumas alternativas para melhorar o balanço energético. A nutrição também é fundamental para as novilhas de reposição. Elas devem atingir um peso mínimo de 60 a 65% do peso adulto da sua raça para atingir a puberdade. A restrição alimentar pode retardar a puberdade por não proporcionar que as novilhas alcancem este peso alvo.

Quanto mais rápida a puberdade for atingida, melhor, visto que a fertilidade aumenta a partir do terceiro ciclo. No pós-desmame, o alto ganho de peso acelera a puberdade e aumenta a taxa de prenhez em programas de inseminação. Muitas vezes, sistemas de criação extensivos possuem novilhas de 22-24 meses ainda em anestro porque, mesmo selecionadas geneticamente para fertilidade, a nutrição inadequada não permite a expressão genética desta característica.

A categoria que exige mais atenção são as primíparas, novilhas de primeira cria, que possuem exigência nutricional maior. Se conseguirmos manter oferta de alimento adequada a elas, mantendo ECC 3, a taxa de prenhez é praticamente igual à de multíparas e conforme aumenta o escore pode ser até superior a outra categoria (Figura 2). Ajustar o plano nutricional e o ganho de peso em todas as categorias é a melhor estratégia para garantir altas taxas de prenhez.

A nutrição é importante em todos os períodos da vida animal, porém, em ocasiões específicas, determina e influencia diretamente os mecanismos relacionados à sua performance reprodutiva. Portanto, durante o ciclo de vida das matrizes, além da quantidade, a qualidade alimentar também deverá ser adequada de acordo com os requerimentos nutricionais.

1Graduanda em Medicina Veterinária UFRGS/NESPro

2Mestranda em Zootecnia UFRGS/NESPro

3 Doutoranda em Zootecnia UFRGS/NESPro

4Professor no Departamento de Zootecnia UFRGS, Coordenador do NESPro