Caprinovinocultura

BOAS PRÁTICAS para a qualidade

Condições de higiene na ordenha determinam sanidade e rentabilidade da produção caprina leiteira

Viviane de Souza¹

Para a obtenção de um leite de cabra com qualidade é necessário observar diversos aspectos, como condições do ambiente; saúde dos animais (com atenção especial para o úbere e as tetas); instalações; equipamentos; utensílios; procedimento e manejo higiênico durante a ordenha; higiene da pessoa que a realiza; qualidade da água; e forma de conservação do leite.

A obtenção de um leite de melhor qualidade favorece um maior rendimento industrial, uma maior vida de prateleira para os produtos lácteos e uma maior oferta de alimentos seguros do ponto de vista nutricional e sanitário aos consumidores. Além disso, para explorar mercado e aumentar a venda de produtos lácteos caprinos no Brasil, é fundamental que sejam adotados um programa de saúde para o rebanho e Boas Práticas Agropecuárias (BPA) no processo de produção, garantindo produtos de melhor qualidade ao consumidor. As BPAs aplicadas à ordenha higiênica são um conjunto de recomendações que possuem como objetivos fundamentais a obtenção de matéria-prima adequada ao consumo, com redução da possibilidade de transmissão de agentes infecciosos, principalmente os micro-organismos responsáveis pela mastite.
A mastite (ou mamite), processo inflamatório da glândula mamária, é considerada a principal enfermidade que causa problemas higiênico-sanitários no leite e que precisa ser controlada. As principais perdas associadas à presença da mastite no rebanho são a redução na produção de leite, descarte do leite, custo do tratamento dos casos clínicos, aumento do custo com mão de obra, diminuição do preço de venda do leite e descarte de animais. Quem vai consumir o leite quer se alimentar de um produto nutritivo, fresco e seguro. Portanto, a ordenha higiênica é fundamental para se obter um leite de qualidade, com sabor normal e cheiro agradável.
Para a realização de uma ordenha higiênica, alguns passos básicos deverão ser seguidos. O primeiro procedimento é reunir o material necessário na sala de ordenha. Este material consiste no balde (ou caneca), latão para o armazenamento do leite, filtro para coar o leite, caneca telada ou de fundo escuro para o exame da mastite clínica, papel toalha descartável e as soluções para a desinfecção das tetas antes e após o processo.
Em seguida, o produtor deve conduzir as cabras para a sala ou local de ordenha, sempre de forma tranquila para evitar o estresse dos animais. É recomendável adotar uma linha de ordenha, na qual seja priorizada a ordenha das cabras sadias e, posteriormente, as que apresentem sintomas clínicos de mastite.
A higiene do ordenhador é outro passo fundamental. Ele deve lavar as mãos com água e sabão antes da ordenha. Também deve evitar fumar, utilizar barba, ou usar cabelos compridos. Deverá ter sempre as unhas aparadas, utilizar vestimentas adequadas e manter os cabelos cobertos. Quando estiver doente, gripado ou com lesões nas mãos, o ordenhador não deve retirar o leite dos animais.

Cuidados durante a ordenha

Durante a ordenha, são recomendados alguns cuidados para identificação de animais com mastite e com a higienização das tetas das cabras. Antes do início do processo, as tetas devem ser desinfectadas, com uma solução de iodo a 0,5%. Em seguida, cada teta deve ser secada com papel toalha absorvente e descartável.
Na retirada dos primeiros jatos de leite de cada animal, deve ser realizado o teste da caneca telada ou de fundo escuro, para verificar se o leite possui anormalidades, como grumos, pus ou sangue. Se estes sinais aparecerem, são indícios de que a cabra apresenta mastite clínica. O leite de animais com mastite ou em tratamento deverá ser descartado.
Em propriedades que dispõem de ordenhadeira mecânica, as teteiras deverão ser ajustadas corretamente para prevenir a entrada de ar e a queda do conjunto, além de efetuar o desligamento do vácuo do copo coletor antes da remoção do conjunto para evitar sobreordenha. Atenção especial deverá ser dada ao funcionamento e manutenção do equipamento de ordenha, de acordo com as recomendações do fabricante.
Já no caso da ordenha manual, o procedimento deve ser realizado com movimentos lentos, para ajudar o estímulo e a descida do leite, além de evitar lesões que possam machucar o animal. Após a ordenha, realiza-se uma nova desinfecção das tetas, com solução de iodo a 0,5 % com glicerina. O produto deverá ser aplicado em pelo menos 2/3 (mais da metade) da superfície das tetas.

Manejo após o processo

Após a ordenha, o leite de cabra deverá ser coado em coador apropriado. É recomendado o resfriamento imediatamente após o término da ordenha para inibir a multiplicação da maioria das bactérias (micro-organismos) no leite. A refrigeração do leite deverá ser realizada preferencialmente em tanque de expansão direta, em temperatura igual ou inferior a 4°C, no tempo máximo de duas horas após o término da ordenha.
As cabras devem ser mantidas em pé após a ordenha, para que o esfíncter do teto se feche e evite a entrada de micro-organismos para a glândula mamária. Por fim, os equipamentos utilizados, seja em ordenha mecânica ou manual, devem ser efetivamente higienizados.
A aplicação de Boas Práticas Agropecuárias tanto pode contribuir para a redução da incidência de doenças, como a mastite, quanto para o aumento da produção de leite caprino. A adoção dessas medidas terá impacto significativo para a aceitação do leite e seus derivados pelos consumidores e para a segurança alimentar, uma vez que haverá melhoria na qualidade da produção.

1 Médica-veterinária e pesquisadora da Embrapa Caprinos e Ovinos (Sobral/CE)
[email protected]