Reportagem de Capa

NO COMPASSO da intensificação

Uso da IATF cresce na preferência do criador para ampliar produtividade do rebanho, mas requer gestão capaz de torná-la rentável

Laura Berrutti - [email protected]

A Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) se transformou numa espécie de caminho sem volta para a intensificação da pecuária brasileira. Os resultados finais enchem os olhos. O ciclo encurta, a bezerrada desmama mais pesada e a fêmeas ainda emprenham com cria ao pé. Sem falar na qualidade do produto final, que, se o criador tiver conhecimento de causa ou estiver bem assessorado tecnicamente, melhora substancialmente a ponto de ele alçar novos voos. Ultimamente, o destino preferido tem sido a China.

Segundo estudo realizado pelo departamento de Reprodução Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo (FMVZ/ USP), o percentual de fêmeas bovinas inseminadas cresceu 270% de 2002 a 2019. Na conta de um dos maiores especialistas brasileiros no tema e responsável pelo estudo, professor da Universidade de São Paulo (USP) Pietro Baruselli, só em 2019, 16,4 milhões de fêmeas foram inseminadas pela técnica em tempo fixo, respondendo por 87% do rebanho total inseminado no período.

O crescimento no uso da ferramenta é explicado por sua alta rentabilidade e eficiência por meio da antecipação dos partos e mediante os ganhos genéticos da progênie. Ao considerar uma taxa de desmame de 42% (42 bezerros desmamados para cada 100 vacas submetidas à IATF), têm-se crias desmamadas com 20 quilos a mais que as convencionais e com ganho de adicional de uma arroba do desmame ao abate. Barusello explica que, para cada R$ 1,00 investido na IATF, o pecuarista recebe R$ 4,20 a mais do que receberia com a monta natural. “O produtor que aplica IATF, hoje, ganha mais dinheiro. Os custos das doses de sêmen, da mão de obra e dos fármacos para sincronizar cio giram em torno de R$ 60,00 por animal. Então, em 100 vacas, ele investe 6 mil reais e ganha R$ 4,20 para cada real investido se comparar com a monta”, ressalta.

Contudo, mesmo com o uso da ferramenta em franco crescimento, a grande maioria dos pecuaristas brasileiros ainda carece de estrutura básica em suas propriedades para colocá-la em prática, seja com relação à gestão, à infraestrutura, à logística, à nutrição ou à sanidade em suas propriedades. “Se o criador não proporciona pasto de qualidade ao gado, se não dá sal mineral, se não controla a sanidade do rebanho, pode ficar preocupado mesmo porque, certamente, não terá retorno com a IATF. É esse o criador que vai sair do mercado”, alerta Baruselli. Além disso, é preciso ter conhecimento técnico sobre o tema ou assessorar-se dos que o detém. “A IATF, como todos os procedimentos de produção intensificada, pede vários pré-requisitos, como conhecimento prático, teórico e assistência técnica. Sem isso, ele (o produtor) vai ter seríssimos problemas e resultados ruins. E, depois, ainda começa a dizer que IATF não funciona”, ressalta o geneticista e professor da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP e especialista em programas de melhoramento de gado de corte, José Bento Ferraz, que se refere à condição básica para o criador obter sucesso na IATF: focar a gestão no mercado. “Para mim, o melhor empresário que existe é o padeiro. Ele pode ser analfabeto, mas sabe que precisa fazer um produto bom, na temperatura correta, na hora exata, na quantidade certa e com regularidade. O cliente dele vem sempre no mesmo horário. Ele trabalha para o mercado, não para ele mesmo”, brinca.

Outro ponto que impacta negativamente na efetividade do protocolo reprodutivo de IATF é a falta de planejamento. O processo deve começar no período pré- -parto para atender as necessidades nutricionais das matrizes prenhas. E, após o parto, continuar com a formação dos lotes para a próxima estação de monta. “Você tem que se preocupar com a vaca, ver se ela tem boa condição corporal. Como está trabalhando com datas, também precisa equilibrar a função com outras atividades da fazenda, como nascimentos, por exemplo, e lembrar que, não raro, é a mesma equipe que realiza os trabalhos”, explica o diretor da Melhore Animal Consultoria Márcio Ribeiro Silva, doutor e especialista em Reprodução e Melhoramento Genético de Bovinos de Corte.

A falta de conhecimento e de planejamento resulta na adoção do procedimento reprodutivo sem que esteja alinhado ao propósito de gestão e às necessidades do mercado para o qual o criador fornece seu produto final. Uma das consequências é inseminação de material genético selecionado pelo critério de preço, e não pelo de qualidade. “Isso é uma armadilha porque metade dos animais que nasce é composta por fêmeas, e a grande parte delas ficam na propriedade”, lembra Ferraz exemplificando a prática como rotina de alguns criadores de gado comercial. “Todos os programas de genética usam IATF, só que, logicamente, escolhem touros a dedo, adequados aos seus sistemas de produção e complementares às suas vacas”, pontua.

Mesmo assim, o Brasil inseminou 16% das suas vacas com a técnica em 2019. Embora o índice seja menor do que a média mundial de 20%, é considerado positivo. Porém, não o suficiente para animar um mercado carente e limitado pela falta de mão de obra especializada para a atividade. Para dobrar o número de inseminadas com IATF em 2019 (16,4 milhões de fêmeas), seriam necessários mais 3 mil técnicos além dos 4 mil utilizados. De acordo com Márcio Silva, uma das causas para esse cenário é o desinteresse das novas gerações pelo tema. “O jovem prefere ir para outras áreas da atividade pecuária e ter uma vida mais urbana. A IATF é uma atividade programada e intensa, tirando o sábado e domingo, todos os dias, se trabalha com isso, é uma atividade mais intensa”, ressalta.

IATF em vacas com cria ao pé

Estruturar as fazendas para realizar IATF foi uma necessidade para o Grupo Ema Pantanal, do Mato Grosso do Sul. Com um rebanho de 65 mil cabeças e 30 mil matrizes distribuídas em seis das 12 propriedades da rede, a empresa trabalha com cria, recria e engorda de gado comercial Nelore e cruza Angus desde 1986. As mudanças envolveram reforma em currais, mangueiras e troncos. “Esse investimento ocorreu por causa da IATF, mas já tinha que ter sido feito”, ressalta Daniel de Barros Marinho, diretor de Cria do Ema.

A implementação da técnica começou em 2008 e contou com apoio de uma equipe técnica especializada durante sete anos. A partir de 2015, os procedimentos passaram a ser realizados por veterinários do grupo que, continuamente, passam por reciclagens e treinamentos. As inseminações começaram em apenas 300 matrizes. No ano seguinte, 3 mil vacas foram inseminadas. A quantidade aumentou gradualmente até 2013, quando o método já era a principal técnica reprodutiva das propriedades. A técnica é empregada para aumentar a taxa de prenhez de vacas paridas e promover o melhoramento genético do rebanho.

De acordo com Daniel Marinho, o retorno sobre o investimento se deu sem um ano, pois a propriedade conta com sólida estrutura operacional e financeira. “A minha taxa de desmama melhorou 20%, mas o meu custo fixo não aumentou, impactando positivamente na margem de lucro”, destaca, lembrando que as mesmas oscilam de um ano para outro. “Sendo bem conservador, conseguimos entre 30% e 40%, mas pode chegar a 50%”, ressalta.

A dinâmica das inseminações baseia- -se em duas estações de monta curta. As vacas que entram na EM sem bezerro ao pé, já desmamadas, não são inseminadas, ao contrário das que estão com bezerro ao pé, todas inseminadas. “A gente pega as vacas paridas, em anestro, aplica o protocolo de inseminação e consegue 50% de prenhez. Depois, as colocamos no repasse com touro e conseguimos de 15% a 20%. Elas, então, saem do anestro e fechamos com um índice médio de 65% a 70% de prenhez. Se fizéssemos só monta, a taxa ficaria em 40%”, detalha Marinho.

Crescimento e limitações

Embora a IATF cresça a passos largos e constitua-se como a principal ferramenta para intensificação da pecuária brasileira, a monta natural ainda é usada pela grande maioria dos criadores como método reprodutivo. Uma das propriedades adepta à modalidade é a da família Crochiquia, considerada uma das maiores produtoras do Brasil de animais Nelore classificados na Cota Hilton, que estabelece um volume limite de cortes bovinos de alta qualidade destinada à exportação para a União Europeia.

O criatório produz gado voltado para a exportação há 25 anos com participações em programas certificados pela Europa, como a EureGAP e a GlobalGAP. Com 15 mil matrizes Nelore, a propriedade tem, em média, 12 mil bezerros nascidos por ano, dos quais apenas 20% são frutos de IATF. A técnica é aplicada há 5 anos para obtenção de crias cruza Angus. As que não emprenham, seguem para monta natural com touros Nelore. “Tenho ótimo índices, ótimos pesos de abate. Eu acredito que, em 5 anos, é possível que a gente aumente a IATF pra o lado do Nelore, mas por enquanto estou satisfeito com os nossos números”, ressalta Édson Crochiquia Filho, sócio-diretor das Fazenda Santa Isabel, em Agudos (SP), onde é feito o ciclo completo dos animais, com recria e engorda, e da Fazenda Cifrão, em Pedra Preta (MT), onde está a maior parte das matrizes do negócio. Os novilhos Nelore são abatidos com média de 550 quilos, e os cruzados, com 600 quilos, ambos com idade entre 20 e 24 meses.

Pietro Baruselli afirma que a modalidade sempre terá seu espaço, seja por opção do pecuarista extensivo, seja porque a propriedade dele se localiza em áreas de difícil acesso ou ainda por falta de mão de obra capacitada ou de ambiente propício para realização dos procedimentos. E essa escolha é influenciada pelo perfil produtivo de cada região. “No Brasil, onde mais de 80% da genética é azebuada, a IATF é adotada como ferramenta competitiva frente ao mercado internacional especializado em taurinos como o dos Estados Unidos, por exemplo”, diz. Segundo ele, os americanos inseminam 6% das suas vacas de corte, índice que chega a 18% no Brasil e é justificado pelas características naturais de cada rebanho. Uma delas é o cio pós-parto mais rápido em taurinos do que em zebuínos, que costumam ser mais tardios. Outra é a duração da gestação: uma vaca taurina leva 280 dias para parir enquanto uma zebuína concebe em torno de 295 dias. “Como a gente tem pouco tempo para emprenhar a fêmea no pós-parto, esses 15 dias de diferença com a fêmea zebu vão significar menos duas semanas para produzir um bezerro ao ano”, completa.

Para o consultor Márcio Silva, não se deve estigmatizar o criador que faz IATF como evoluído e tecnificado, nem o que faz monta natural como atrasado e sem profissionalismo. “A gente pode ter um rebanho com monta geneticamente muito bom. A genética é o fim, não o meio”, afirma. Para ele, a maior preocupação não é a escolha do método reprodutivo, mas a falta de registro dos reprodutores utilizados. “Se estes produtores utilizassem touros melhoradores, olha o tamanho de matrizes que estaria melhorando significativamente os níveis de produtividade via genética”. Segundo Bento Ferraz, apenas 50 mil touros nacionais são testados para uma reposição de 500 mil cabeças ao ano no Brasil. “A gente atende o mercado com apenas 10% de touro geneticamente avaliado. O resto é animal desconhecido. Temos exemplares brasileiros espetaculares, mas não sabemos se são assim só na aparência ou se repassaram suas características pra suas progênies, pois não há dados”, afirma.


Simulação NA PALMA DA MÃO

Com o objetivo de auxiliar o produtor a decidir qual técnica de reprodução para o período da monta, a Embrapa Gado de Corte criou um aplicativo de celular que simula os custos e benefícios de cada método. O Cria Certo, foi desenvolvido em parceria com a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e com a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e calcula os custos totais da aplicação cada método reprodutivo de forma da dar suporte às tomadas de decisão. A ferramenta de precisão utiliza dados técnicos do rebanho e valores de despesas, tais como sêmen, hormônio e mão de obra por vaca na IATF ou preço do touro na monta. O aplicativo reúne quatro simulações: monta natural, IATF com repasse de touro, duas IATF com repasse com touro e três IATF. O usuário pode compará-las e confrontar os índices comuns em todas elas.

Uma das idealizadoras da proposta, a pesquisadora da Embrapa Gado de Corte e especialista em Sistemas de Produção Thais Basso Amaral explica que o aplicativo pode ser usado também na compra de animais. “Vamos supor que o criador vai a um leilão comprar um touro Nelore para monta natural e quer saber qual sua DEP desse à desmama. Vai inserir os dados e verá o benefício do retorno que terá com o animal”, explica. O usuário também consegue compará-lo com um touro para IATF, conforme poderá ser conferido em artigo da própria pesquisadora na página 51 dessa edição.