Especial Hereford e Braford

TECNOLOGIA A SERVIÇO da produtividade

Ferramentas de multiplicação genética abrem espaço para matrizes Hereford e Braford superiores

Dhésika Vidikin

O uso de tecnologias para reprodução bovina vem ganhando força a cada ano no Brasil. Exemplo disso é a Fertilização In Vitro (FIV) e a Transferência de Embriões (TE), duas técnicas bastante utilizadas por criadores que desejam alcançar eficiência reprodutiva em suas propriedades. Métodos como esses possibilitam a produção de embriões em larga escala, aumentando o número de produtos durante a vida reprodutiva das fêmeas. São ferramentas de multiplicação genética superior que abrem espaço para matrizes de alto valor genético, destacando-as no mercado e valorizando a sua comercialização. Desse modo, as técnicas ganharam importância no mercado por contribuírem para a área de melhoramento animal.

Pensando nisso, e buscando atender às necessidades dos criadores, a Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), em parceria com os programas de melhoramento genético, aprovou, recentemente, o regulamento que disponibiliza a dupla marca em fêmeas. O registro especial da entidade atesta e diferencia a qualidade de animais melhoradores, que, por mérito genético e avaliação fenotípica, vêm se destacando entre as propriedades usuárias da genética HB. “A dupla marca já é um conceito de melhoramento e de distinção para os touros superiores das raças. Para as fêmeas, a classificação não poderia ser diferente. Queremos dar o selo de qualidade e destaque de produção a elas, que contribuem com 50% da genética dos futuros reprodutores”, relatou o presidente do Conselho Deliberativo Técnico (CDT) da ABHB, Aldo José Tavares dos Santos.

A iniciativa se deu pela procura de criadores interessados em agregar valor aos seus rebanhos, e a sugestão foi levada para o conselho. “Nossa missão é apoiar e ouvir a necessidade dos sócios para buscar tecnologias que possam desenvolver e dar sustentação ao melhoramento genético das produções”, afirma Santos. Segundo ele, é preciso lembrar que essas matrizes geneticamente superiores, além de reporem os rebanhos, serão mães de futuros touros melhoradores. “Com isso, estamos distinguindo um lote de fêmeas superiores dentro das suas gerações e selecionando todas as características importantes das raças”, completa.

Para receber a dupla marca, as fêmeas devem possuir dados próprios de desmama e sobreano, e estar entre as 30% superiores nos programas de melhoramento genético homologados pela ABHB: PampaPlus, Promebo e Conexão Delta G. O inspetor técnico credenciado pela entidade recebe a listagem das candidatas e indica, com base no fenótipo, quais receberão a dupla marca com o HH ou BB. Além disso, no momento da inspeção, as candidatas devem estar prenhes ou com cria ao pé. “As fêmeas são classificadas pelo índice principal dos programas. No caso do PampaPlus, pelo Índice de Qualificação Genética (IQG), que considera o peso à desmama, a produção de leite, o ganho pós-desmama, o peso ao sobreano, o perímetro escrotal (que elas vão transmitir a seus filhos), a musculatura e a estatura (buscando fêmeas de estatura média)”, afirmou o chefe adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Pecuária Sul, Fernando Cardoso.

Para calcular as diferenças esperadas na progênie (DEP), a avaliação genética das fêmeas utiliza uma ampla base de dados sobre suas características de importância econômica e de pedigree, ou seja, o que efetivamente elas vão transmitir a seus filhos em diferencial produtivo. “Utiliza-se também a tecnologia dos índices de seleção, que permite combinar diferentes DEPs em uma única informação (IQG) de acordo com o valor econômico ou o impacto esperado de cada atributo na produção e na lucratividade da pecuária”, explica Cardoso.

Na avaliação de Patricia Wolf, coordenadora da raça Hereford pelo CDT, a novidade é de grande valor para a evolução das raças, já que as matrizes são a base dos rebanhos. “A dupla marca deve agregar valor ao trabalho do criador como um todo, pois é um indicativo de que o caminho percorrido está correto. São inúmeras etapas até chegar o momento de ver animais dupla marca no campo. Eles são realmente os melhores do rebanho nas suas gerações. Esses indivíduos têm muito potencial de contribuir de forma a aumentar os ganhos do produtor”, sintetiza. De acordo com ela, quem optar por investir em fêmeas dupla marca tem, além da chancela da ABHB e do programa de avaliação, a oportunidade de acessar a melhor genética da geração daqueles produtos. “A seleção é muito rigorosa e demanda tempo, mas o investimento sempre tem retorno”, ressalta.

Paulo Azambuja, coordenador da raça Braford pelo CDT, salienta que a dupla marca vem para consolidar a atenção que a associação sempre teve com a manutenção de ventres férteis e produtivos dentro dos sistemas pecuários de seus criadores. “Estamos vivendo uma época em que temos muitas tecnologias de transferência de embriões e fertilização in vitro. Em razão disso, é possível multiplicar muito mais os produtos das fêmeas. A dupla marca veio para agregar qualidade genética às raças HB”, afirma.

Prova de desempenho e genotipagem

Além da dupla marca, a ABHB conta com mais uma iniciativa pioneira: a prova de desempenho e a genotipagem das fêmeas. A prova é inédita no mundo e tem como objetivo antecipar um conjunto de informações dos exemplares para descobrir as futuras doadoras Hereford e Braford. “Devido à pandemia da Covid-19, não conseguimos dar início à prova neste ano, mas nosso objetivo é iniciá-la em 2021. A genotipagem é mais um processo seletivo importante para as fêmeas e vai garantir a produtividade e a qualidade nos rebanhos das raças”, explica o presidente do CDT, Aldo José Tavares do Santos.

As fêmeas entrarão no teste com idade entre dez e 11 meses, e serão escolhidas entre as top 40% superiores dos programas de melhoramento homologados pela ABHB. Na sequência, passarão pela seleção fenotípica com o inspetor técnico e pelo Teste de Eficiência Alimentar (TEA), processo totalmente associado ao teste genômico. Assim, as matrizes da prova com 14 meses e as fêmeas que alcançarem desempenho superior a 30% estarão aptas a receber a dupla marca. “Por meio da prova, teremos animais com qualidade comprovada, que agregam valor dentro da porteira do criador e, consequentemente, entregam uma carne de qualidade ao consumidor final”, complementa Santos.

Sistema PampaPlusnet

Desde 2015, o programa conta com uma ferramenta on-line para facilitar o armazenamento de informações e os dados coletados a campo. Recentemente, ela foi disponibilizada pela ABHB aos sócios interessados em cadastrar comunicados de cobertura e nascimento para o setor de Registro Genealógico. A mudança visa agilizar o processo de registros e torná-lo mais eficiente. Além desses recursos, os criadores também poderão acessar os dados de genealogia de todos os seus animais, registrados ou não, a partir de qualquer computador, tablet ou smartphone que possua acesso à internet. Para acessar a plataforma, os criadores devem solicitar, por e-mail, um login para, assim, registrarem uma senha no site oficial do PampaPlusnet e terem acesso, também, a outras facilidades, como:

Ferramenta de acasalamento – Entre as diversas funcionalidades do programa está o simulador de acasalamentos e diversos filtros para a seleção dos animais. A ferramenta orienta o produtor no momento de selecionar quais exemplares acasalar objetivando o ganho genético na futura geração.

Sumário de touros – Na ferramenta on-line, o criador pode consultar o sumário de touros e de touros jovens, no qual constam as DEPs de todos os animais avaliados no programa.

Gerar relatórios – O criador pode consultar todos os dados de animais da sua propriedade com opção de exportar as informações para planilha em Excel. Além disso, é possível gerar catálogos, em formato PDF, de animais pré-selecionados em que o criador escolhe quais DEPs deseja apresentar.

Genética Hereford e Braford pelo Brasil

O trabalho de fomento realizado ao longo dos anos pela ABHB vem gerando resultados promissores. Após um crescente interesse pelas raças Hereford e Braford e seus cruzamentos, a ABHB lançou, recentemente, o Programa de Fomento. A iniciativa busca fortalecer ainda mais a expansão das raças pelo Brasil, levando ao produtor uma alternativa mais eficiente e rentável para produzir carne de qualidade.

De acordo com o presidente da ABHB, Luciano Dornelles, o desenvolvimento das raças em outros estados e as parcerias com empresas e criadores foi o caminho para a realização do projeto. “No início deste ano, resolvemos colocar o projeto em prática, e, sem dúvida, ele irá abrir um espaço muito importante para as raças Hereford e Braford. Existe esse imenso rebanho de gado branco que podemos usar a nosso favor para o cruzamento industrial”, destaca. Dornelles ressalta, ainda, que há uma grande procura, por parte dos criadores, em incrementar seus sistemas de produção, como também de produzir carne de qualidade. “O nosso foco é oferecer ao consumidor um produto de qualidade, portanto o projeto certamente irá atingir todos os processos da cadeia, suprindo a necessidade dos mais variados produtores.”

Conduzido por Miguel Ferreira, gerente do programa e inspetor técnico credenciado pela ABHB, o projeto se iniciou nos estados de São Paulo e Goiás, estimulando a utilização de animais melhoradores fruto do cruzamento de vacas zebuínas com a raça Hereford. “O projeto busca, primeiramente, identificar touros Hereford que sejam superiores quando cruzados com vacas zebuínas. Para isso, estamos formando parcerias com entidades de pesquisas e com produtores para que possamos aferir o desempenho desses produtos meio-sangue, visando identificar quais são os melhores touros pais. Isso dará uma segurança maior ao produtor”, afirma Ferreira.

De acordo com ele, o meio-sangue Hereford, desde bezerro, já possui um alto índice de crescimento e temperamento brando, o que explica o bom desempenho desses animais. Com isso, eles passam por uma recria com grande velocidade de ganho, chegando mais cedo ao abate e com maior peso de carcaça e gordura desejável.

Além dos reprodutores, também existe uma aposta muito grande na utilização das fêmeas para matrizes, pois são exemplares muito precoces e férteis. “Estamos incentivando o produtor a fazer o acasalamento com 14 meses. Esses animais deverão ser inseminados com a raça Braford, e, assim, iremos manter um padrão de qualidade de carne, de precocidade, de velocidade de ganho e de acabamento”, completa.

O programa também conta com a parceria do Frigorífico Minerva Foods, que irá oferecer aos criadores uma bonificação diferenciada para carcaças com o padrão racial oriundo de cruzamento da genética Hereford com a zebuína. Para isso, porém, é necessário que tenham 50% de genética Hereford e que possuam idade e cobertura de gordura compatíveis com as exigências da indústria parceira do protocolo.

Produtores interessados nos programas e serviços da ABHB podem entrar em contato com a associação pelo telefone (53) 3242-1332 ou pelo e-mail [email protected] com.br.


Programa PampaPlus e o Índice de Qualificação Genética (IQG)

Atualmente, a ABHB, em parceria com a Embrapa Pecuária Sul, disponibiliza aos criadores interessados em melhorar a produtividade do seu rebanho e agregar valor aos seus reprodutores e matrizes, o Programa de Avaliação Genética PampaPlus. Criado em 2008, o programa utiliza o Índice de Qualificação Genética (IQG), desenvolvido junto à Embrapa, para auxiliar no melhoramento genético das raças Hereford e Braford, aumentando o desempenho dos animais e o retorno econômico ao criador, além da eficiência do seu sistema produtivo. Em 2020, o PampaPlus avaliou 189.905 animais pertencentes a 90 propriedades.

O IQG é uma recomendação da ABHB para o melhoramento geral de plantéis, ou seja, é indicado para orientar sobre informações gerais do animal. Avaliado anualmente pela associação, o índice foi composto para buscar fêmeas mais férteis e capazes de proporcionar maior ganho de peso a seus filhos. Da mesma forma, serve para indicar machos com bom peso à desmama e ao sobreano, e é a base dos candidatos aptos a receber a dupla marca. O índice é calculado a partir da coleta das informações de desempenho e das avaliações visuais dos animais pertencentes às propriedades participantes, que são somadas às análises de parentesco.

Características que compõem o IGQ

Total Materno à Desmama (TMD – 30% do IQG) – indica a habilidade das filhas de um touro em produzir bezerros mais ou menos pesados à desmama. O valor é resultado da soma da metade da DEP direta para peso à desmama com a DEP materna da característica;

Ganho de Peso Pós-Desmama até o Sobreano (GPD – 15% do IQG) – indica o potencial de um reprodutor para gerar filhos com desempenho de ganho de peso da desmama ao sobreano superior (ou inferior) à média dos filhos dos outros touros;

Peso ao Sobreano (PS – 15% do IQG) – indica a capacidade de um reprodutor para gerar filhos com desempenho de ganho de peso ao sobreano superior (ou inferior) à média dos filhos dos outros touros;

Musculatura (MUSC – 12,5% do IQG) – medida objetiva animais com boa conformação carniceira e, consequentemente, com mais rendimento de carne ao abate. É obtida por avaliação visual por meio de notas que vão de 1 a 5;

Estatura Corporal (EST – 12,5% do IQG) – medida serve para buscar animais mais equilibrados em altura. É obtida por avaliação visual por meio de notas de 1 a 5;

Perímetro Escrotal ao Sobreano (PES – 15% do IQG) – indicador de precocidade sexual e fertilidade.