O Confinador

Corrida contra o TEMPO

Recria em confinamento põe fêmeas recém-desmamadas em condições de emprenhar na primeira estação de monta pós-desmame

André Nagatani 1

Entretanto, alavancar essa categoria para encurtar seu ciclo reprodutivo e aumentar sua produtividade tem suas particularidades. O desafio é fazer com que as fêmeas entrem na primeira estação de monta pós-desmame com peso vivo (PV) corporal mínimo de 270 quilos para obterem um razoável índice de prenhez. Mas, via de regra, buscamos que cheguem para a monta PV mínimo de 300 kg (de 55% a 65% do peso adulto) e com idade média de, aproximadamente, 13 meses ou 14 meses.

Considerando um animal desmamado em maio, sua fase pós-desmama coincidirá com o início da estação seca do ano no Brasil Central e na região Sudeste. Isso quer dizer que teremos de levar um animal recém-desmamado com PV médio de 180 kg até o início da estação de monta, em novembro, com PV de 300 kg. Na prática, a ação pede um Ganho Médio Diário (GMD) de 0,750 Kg na época de maior escassez de nutrientes nas pastagens (Figura 1). Nesse período, suplementos tradicionais de seca como minerais contendo ureia e proteinados de baixo consumo não são suficientes para atingir o GMD necessário. É preciso utilizar suplementos proteico-energéticos e energéticos dependendo das características qualitativas do pasto de inverno.

Segundo o AFRC (Agricultural and Food Research Council), para uma fêmea Nelore partir de 180 Kg para 300 Kg com o GMD de 0,750, são necessários 58,26 MJ (Megajoule) de energia metabolizável e 330 gramas de proteína metabolizável. Se levarmos em consideração o pasto de inverno vedado, com 5% de Proteína Bruta (PB) e 50% de Nutrientes Digestíveis Totais (NDT) (Figura 2), conseguimos fornecer, via pastagem, somente 66% do requerimento energético e 50% do requerimento proteico do animal. Nesse caso, os 34% de energia e 50% de proteína devem ser fornecidos via suplemento. Ainda assim, em cenários cujo pasto vedado tem qualidade relativamente superior ao do primeiro exemplo, quando comparamos as exigências do animal a um pasto de inverno com 7% de PB e 54% de NDT, o último ainda tem capacidade de fornecer somente 73% do requerimento energético e 67% da exigência de proteína metabolizável para o GMD de 0,750g.

Assim, o produtor que optar por elevar o plano nutricional de suas fêmeas recém-desmamadas com a finalidade de emprenhá-las na primeira estação de monta pós-desmame, terá de entender que existe uma limitação enorme do ponto de vista nutricional em função da sazonalidade. E que tal situação torna imprescindível suplementar o rebanho com alto teor de energia e proteína. Outro ponto importante é a característica do pasto de inverno. Um pasto de menor valor nutricional requer quantidade maior de suplemento para atender a necessidade do animal, o que por sua vez, vai refletir diretamente no aumento de custo da ração e por arroba colocada.

Como suplementar?

Ciente do GMD que precisa ser atingido durante a recria, é preciso saber quando e quanto suplementar ou se o melhor caminho é partir para a recria dentro do confinamento, onde se consegue atender com maior exatidão a necessidade dos animais. Poucas são as evidências sobre a melhor estratégia nutricional para acelerar o início da puberdade das novilhas, para deixá-las em condições de emprenhar entre os 12 meses e 14 meses e em condições de parir pela primeira vez entre os 22 meses e 24 meses. O que sabemos é que, se a novilha não ganhar peso, não consegue emprenhar.

Recentemente, estudo conduzido na Agência Paulista dos Agronegócios (APTA) de Colina (SP), Foresto et al. (2019), comparou diferentes sistemas de suplementação para promover a maturidade sexual em precocinhas com idade entre 7 meses e 8 meses e 152 quilos. Objetivo era deixá-las em condições adequadas para a estação de monta entre seus 14 meses e 15 meses. Três estratégias foram utilizadas para que ganhassem [email protected] em 160 dias de recria. A primeira consistiu na suplementação com ração a pasto em nível crescente (0,8% de PV na seca e 1,2% do PV nas águas). A segunda utilizou o mesmo tipo de produto na base de 1% PV durante todo o experimento. E a última foi realizada em confinamento com 0,5% PV em suplemento proteico-energético somado ao fornecimento de silagem de milho à vontade.

Ao longo do período de recria, independente do sistema de suplementação adotado, todas conseguiram o ganho esperado de quase [email protected] com ganho médio de 0,666 kg/dia, atingindo peso médio de 256 kg. A suplementação de todos os grupos teve início logo após a desmama e perdurou até o diagnóstico de gestação da segunda inseminação artificial em tempo fixo (IATF). Então, além da suplementação antes da estação de monta (EM), é importante que a mesma continue para que o animal continue a ganhar peso e esteja preparado para conceber.

Um ponto de extrema importância é que o dever de casa não acaba ao final da EM com a taxa de prenhez em mãos. Além de fornecer nutrientes para o desenvolvimento das novilhas, precisamos ajudá-la a nutrir o feto. Se, na estação de parição, elas vierem a parir com escore de condição corporal muito baixo, não irão emprenhar na estação de monta subsequente. Além disso, quase toda energia proveniente dos suplementos é utilizada para produção de leite. Então, devemos caprichar no monitoramento e realizar eventuais suplementações durante a gestação.

E quando os grãos estão caros?

Infelizmente, quando o assunto é elevar o GMD principalmente na época em que nosso ingrediente principal, o pasto, tem qualidade muito baixa, fica difícil fugir de suplementação média ou alta durante a recria. Quando os grãos mais tradicionais estão muito caros, buscar alternativas mais baratas como uso de polpa de laranja, casca de soja, grãos de cevada, caroço de algodão ou resíduos (como DDG) pode ajudar a melhorar a conta. Outra alternativa é estudar a viabilidade do uso de gorduras dentro do pacote tecnológico do seu programa de suplementação. De repente, a conta pode fechar.

O que temos feito além de todos os pontos mencionados anteriormente é tentar explorar o uso de aditivos melhoradores de desempenho. A proposta é utilizar um aditivo que tenha condição de melhorar a fermentação e a digestão do conjunto pasto e suplemento. Dessa forma, inibe processos ineficazes de perda de energia dentro do rúmen (gás metano) e aumenta a produção de propionato, que é o ácido graxo de cadeia curta produzido no rúmen com maior capacidade em fornecer energia para o animal.

E as que não emprenharam?

É neste momento que as precocinhas saem de cena da parte reprodutiva da fazenda e vão direto para prateleira de cima dos freezers das casas de carnes gourmet. Mesmo que os índices de prenhez sejam formidáveis, teremos sempre aquela parcela de animais vazios ao final da EM. Se esse grupo não ganhar uma segunda chance, uma das opções de alguns empreendimentos pecuários é terminá- las na sequência.

Independente do segmento de cria, a estratégia também serve para aqueles que vão ao mercado comprar novilhas recém-desmamadas para produzir as tão famosas “novilhas Premium” ou “novilhas jovens”, que têm ganhado muito espaços nos churrascos aos finais de semana. Quem se propuser a fazer esse tipo de mercadoria também tem que suplementar, durante a recria, com níveis semelhantes aos já mencionados. Afinal, o desafio é produzir um animal, aos 18 meses de idade, com peso de mínimo [email protected] podendo chegar até [email protected], que é o padrão desejado pelo mercado de carnes de qualidade.

Para não perder todo o investimento realizado durante a recria, uma das alternativas é levar os animais de 300 kg a 330 kg até o peso vivo final de 450 kg ([email protected]) com GMD de, aproximadamente, 1,300 kg/dia. Para conseguir essas taxas, temos duas opções: fechar os animais em confinamento e formular uma dieta para ganhos máximos de peso e de carcaça ou seguir com terminação intensiva a pasto (TIP), fornecendo de 1,5% a 2% PV de ração. Se sua EM acabou em fevereiro, é possível fornecer concentrado no cocho para as novilhas vazias e terminá-las em aproximadamente 100 dias.

Terminar novilhas não é uma missão simples. São animais precoces, que depositam gordura mais cedo. Portanto, são mais exigentes e, naturalmente, ganham menos peso por kg de matéria seca em comparação a machos castrados ou, principalmente, a machos inteiros. O grande diferencial em produzir este tipo de animal é almejar premiação por programas de carne de qualidade, os quais existem em grande parte dos frigoríficos atualmente. O fator determinante, além da eficiência na compra de insumos e no direcionamento nutricional dos animais, é o preço de venda. Se você não conseguir bons negócios com sua mercadoria que tem valor agregado (jovem, macia e bem acabada), dificilmente a conta vai fechar.

1 Coordenador de Território da Phibro Saúde e Nutrição Animal