Leite

EQUILÍBRIO e constância

IATF permite ao criador distribuir produção leiteira ao longo do ano, reduz a perda de animais e facilita a formação de lotes homogêneos

Fernanda Nunes Marqui 1

A inseminação artificial (IA) é a mais antiga biotécnica aplicada à reprodução animal e a de maior impacto no melhoramento genético e no aumento da eficiência produtiva. O primeiro relato de sucesso da técnica em mamíferos é de 1779. No Brasil, passou a ser praticada em caráter experimental a partir de 1931, mas foi aplicada em bovinos apenas em 1946, adquirindo caráter comercial em maior escala na década de 1970. Além de ser a mais antiga, essa biotécnica reprodutiva é também a mais simples e barata, permitindo que até mesmo os pequenos pecuaristas possam usufruir das inúmeras vantagens que ela oferece.

Quando comparada à monta natural (MN), a inseminação artificial aumenta a intensidade e a velocidade do melhoramento genético. Com o controle reprodutivo do rebanho em suas mãos, o criador define o touro usado no acasalamento e a data da inseminação com previsão do parto. Além disso, pode usar sêmen de reprodutores provados (alto padrão genético e zootécnico) sem a necessidade de adquiri-los e de ter um custo fixo para mantê-los (tabela 1). E pode inseminar este material em um maior número de vacas em diversas localidades do país e do mundo, gerando maior número de descendentes.

Por meio da inseminação, ele também seleciona reprodutores que melhor atendam às características zootécnicas a serem trabalhadas no seu rebanho (por exemplo, correção de defeitos zootécnicos, maior produção de leite/carne, facilidade de parto), resultando em progênies mais produtivas. Os acasalamentos podem ser direcionados entre bovinos de raças diferentes, inclusive não adaptadas ao clima da região, explorando a heterose, evitando a consanguinidade com indivíduos sem parentesco. Isso sem falar das vantagens sanitárias, zootécnicas e econômicas, como o controle da transmissão de doenças infecciosas como tuberculose, brucelose, campilobacteriose, tricomoníase e diarreia viral bovina – BVD.

A revolução da IATF

O uso da IA tem sido crescente principalmente após a comercialização de sêmen congelado em escala comercial. Segundo dados de um estudo conduzido pelo professor Pietro Baruselli e sua equipe (Baruselli et al., 2019), o aumento significativo (220% entre 2002 e 2018) da IA ocorreu após o surgimento da inseminação artificial em tempo fixo (IATF) e sua aplicação nas fazendas. Nos rebanhos leiteiros, estudos mostram que a adoção da IATF resulta na redução de aproximadamente um mês no intervalo entre partos (IEP) em relação às fêmeas inseminadas com observação de cio ou submetidas à MN, o que leva a um aumento de 10% na produção anual de leite do rebanho. Esse crescimento na produção de leite pode ser ainda maior quando utilizamos touros geneticamente melhoradores, que podem adicionar até 350 litros de leite/lactação. Contabilizando todos esses números, estima-se que o uso da IATF na pecuária leve à inserção de R$ 1,5 bilhão extra quando comparado a IA e MN (Baruselli et al., 2019).

A IATF consiste na aplicação de hormônios reprodutivos exógenos com o objetivo de sincronizar o crescimento folicular e de induzir o cio e a ovulação para um melhor controle e organização do manejo reprodutivo e de mão de obra na propriedade. Além de programar o dia e o horário para iniciar o protocolo reprodutivo e realizar a inseminação, o criador também consegue planejar os nascimentos. Dessa forma, o produtor consegue distribuir a produção de leite da propriedade ao longo do ano. Como o processo requer maior atenção aos partos e aos bezerros recém-nascidos, ele ainda reduz a perda de animais e mais facilmente forma lotes homogêneos para reposição ou venda.

Vale ressaltar, no entanto, que a adoção de protocolos de IATF no rebanho não é solução contra os problemas de infertilidade. Além de o fator humano estar diretamente relacionado à correta identificação e aproveitamento do cio (figura 1), que deve ser feita diariamente (duas vezes ao dia, durante 30-60 minutos), há também o fator fêmea envolvido. Nas vacas de leite, é comum a ocorrência de cios silenciosos (principalmente nas de alta produção, devido à elevada taxa de metabolização de hormônios), os quais só podem ser detectados por outro bovino por meio dos feromônios. Nas raças zebuínas, é comum a ocorrência de cios de curta duração (8h-10h) e com manifestação noturna, dificultando ainda mais a observação. Outros fatores como temperatura elevada, hierarquia social no rebanho e condições ambientais/instalações podem inibir a manifestação do estro.

Vale ressaltar que, antes de iniciar um programa de IA/IATF e obter as vantagens citadas, é preciso buscar orientação de um médico veterinário capacitado. Ainda hoje é muito comum ver o proprietário que se aventura implementando a técnica sem essa orientação e, ao obter resultados frustrantes, passa a difamá-la e/ou atribuí-lo à qualidade do sêmen, por exemplo. É importante ter em mente que o sucesso da IA não depende apenas da qualidade do sêmen: antes de tudo, há fatores relacionados à fêmea e à correta aplicação da técnica.

Em primeiro lugar, é preciso lembrar que, antes mesmo de se preocupar com a reprodução, é necessário garantir que as fêmeas tenham uma boa nutrição e que o manejo da fazenda priorize sempre o bem- -estar animal. Diversos estudos com vacas de leite têm associado à queda de fertilidade à nutrição, principalmente naquelas de alta produção. Entre as principais causas nutricionais estão balanço energético negativo (BEN) pós-parto, efeitos deletérios das dietas ricas em compostos energéticos, efeitos tóxicos dos compostos nitrogenados, deficiência de vitaminas e/ou minerais (revisado por Sartori e Guardieiro, 2010).

Quanto ao manejo, qualquer condição de sofrimento e estresse eleva os níveis de cortisol no sangue, o qual, por mecanismos endócrinos, inibe diretamente a liberação de hormônios reprodutivos, principalmente o LH responsável pelo crescimento final do folículo, maturação do oócito e ovulação (revisado por Macedo et al., 2012). O estresse pode ser provocado pelo comportamento (agressivo) das pessoas que lidam diariamente com os animais, pelas mudanças de rotina ou por doenças e estresse ambiental (calórico, espaço físico insuficiente/ sem conforto, excesso de barro etc.).

Estabelecido o manejo nutricional adequado, é necessário o auxílio de um médico veterinário para a seleção cuidadosa das fêmeas a ser inseminadas. Ou seja, elas precisam ter a melhor genética do rebanho, boa condição nutricional (escore de condição corporal entre 3,25 e 3,75) e sanitária, estarem aptas reprodutivamente (>45 dias pós-parto, sem alterações/infecções no trato reprodutivo, ovários funcionais), ter boa habilidade materna (desmamar um bezerro de qualidade/ano) e ser mantidas sob boas condições de manejo (bem-estar). Não menos importante, a escolha correta do touro e a manutenção/manipulação cuidadosa do sêmen são fundamentais.

Eficiência reprodutiva

A eficiência e a saúde reprodutiva do rebanho inseminado são monitoradas por alguns parâmetros (tabela 2). Para isso, é muito importante a anotação de todos os dados zootécnicos individuais do rebanho. Infecções que acometem o trato reprodutivo das fêmeas representam um importante fator que impacta negativamente nesses parâmetros. Entre as que merecem maior preocupação, por terem caráter endêmico no Brasil, estão as seguintes: IBR (rinotraqueíte infecciosa bovina), BVD (diarreia viral bovina) e leptospirose, campilobacteriose, tricomonose e neosporose. A boa notícia é que, adotando-se o protocolo de vacinação (IBR, BVD e leptospirose) correto no rebanho e o descarte adequado de placenta e fetos abortados, é possível reduzir significativamente as perdas por tais agentes.

Outro ponto importante é verificar se a propriedade dispõe de infraestrutura adequada, com um local para contenção adequada do animal no momento da aplicação dos hormônios e da inseminação (o que reduz os riscos de acidentes com animais e pessoas), bem como de pessoal capacitado para realizar a técnica de maneira correta e cuidadosa.

Os cuidados na realização da IA convencional são, principalmente, relacionados à correta identificação do início do cio (momento em que a vaca aceita a monta e fica parada) e do momento da inseminação (12h após o início do cio). Tanto na IA quanto na IATF, é preciso atentar à higiene do inseminador, do animal, do material utilizado e das instalações. É importante também verificar o nível de nitrogênio líquido no botijão em que o sêmen está armazenado (sempre >15 cm) e o manuseio da palheta de sêmen fora do botijão (não expor a caneca a mais do que 7 cm abaixo da boca do botijão, retirar a palheta sempre com pinça e nunca com a mão, não ficar com a caneca erguida mais do que 5 segundos). Além disso, deve-se monitorar a temperatura (35 ºC a 37ºC) e o tempo de descongelamento do sêmen (20 segundos para palheta fina e 30 segundos para palheta média), sendo que não se deve descongelar mais do que cinco palhetas de uma vez. É preciso, ainda, depositar o sêmen no corpo do útero (logo após o último anel da cérvix) e realizar a todo o procedimento da técnica no menor tempo possível.

Para um controle zootécnico eficiente, é indispensável a adoção de fichas de controle individual dos animais, onde devem estar anotados dados como identificação (nome, número), nome dos pais (genealogia e grau de sangue), data de nascimento, dia da IA (e do cio) início do protocolo, data do parto/sexo/peso dos bezerros, necessidade (ou não) de intervenção no parto, se houve retenção de placenta, além de doenças e tratamentos.

Iniciado o programa de IATF, é preciso se certificar de que o protocolo hormonal tem sido eficiente no rebanho, ou seja, que as fêmeas têm apresentado boa resposta, visto que, ao contrário do que muitos pensam, o protocolo não é como uma receita de bolo que se aplica a todos os animais, independentemente de categoria, produção e escore de condição corporal (ECC). Salienta-se ainda que, se não houver seleção criteriosa do touro para fertilidade (além da genética), armazenamento e manuseio corretos do botijão, bem como manipulação cuidadosa durante a descongelação e inseminação, a taxa de prenhez da IA/IATF será reduzida.

Os dados nos mostram que tem sido crescente o número de pecuaristas que constatam as vantagens da IATF e a colocam em prática. O mesmo estudo realizado pelo Prof. Pietro citado anteriormente (Baruselli et al., 2019) nos mostra que, em 2018, foram inseminadas aproximadamente 9,5 milhões de fêmeas bovinas (13,2% do rebanho nacional), sendo 3,1 milhões de vacas de leite, e a IATF gerou, em média, R$ 3,5 bilhões de ganhos na cadeia brasileira de produção de corte e leite, movimentando R$ 796 milhões para sua execução (considerando o investimento/ animal/IATF de R$ 20,00 em protocolos, R$ 20,00 em mão de obra e R$ 20,00 em sêmen). Além desses ganhos gerais para a economia brasileira, o aumento na produtividade dos rebanhos que se converte em lucro para o pecuarista também deve ser considerado. Para quem ainda ficou em dúvida sobre o quanto a IATF é financeiramente vantajosa, a cada R$ 1,00 investido nessa biotecnologia, o pecuarista brasileiro tem R$ 4,50 de retorno para a cadeia de corte e leite.

1 Médica Veterinária (UENP - Bandeirantes), Mestre e Doutora em Biotecnologia Animal (UNESP - Botucatu) com ênfase em Reprodução Animal e Supervisora Técnica de Serviços na CRV Lagoa