Entrevista do Mês

Plano de voo pecuário

O Centro de Inteligência da Carne da Embrapa Gado de Corte (CiCarne) colocou o setor pecuário alerta ao divulgar que, nos próximos 20 anos, metade dos criadores brasileiros deverá abandonar a atividade. A projeção integra o estudo “O Futuro da Cadeia Produtiva da Carne Bovina Brasileira: Uma visão para 2040”, realizado em parceria com o Ministério da Agricultura (Mapa), que traz movimentos disruptivos para toda a cadeia produtiva da carne bovina, conforme detalha o coordenador do CiCarne, Guilherme Malafaia.

Thaise Teixeira [email protected]

Revista AG – Em que efetivamente consiste o estudo “O Futuro da Cadeia Produtiva da Carne Bovina Brasileira: Uma visão para 2040” e de que forma ele pode auxiliar os negócios pecuários?

Guilherme Malafaia - A projeção considera cenários e tendências que foram consolidados em dez megatendências relacionadas a grandes desafios pelos quais passarão a cadeia produtiva da carne bovina nos próximos 20 anos e como eles impactarão no setor. Precisávamos ter um “norte”, um mapa de navegação para os próximos anos. O estudo foi finalizado em fevereiro, antes da pandemia, e já percebemos algumas dessas megatendências se manifestando, como a transformação digital que estamos passando e ainda vamos passar. Já podemos ver seu impacto em todos os elos da cadeia desde o fornecimento de insumos nas suas mais variadas formas, a forma de relacionamento da assistência técnica, os leiloes virtuais, o e-commerce de carne, entre outros. E muitas mudanças ainda virão, a pandemia somente acelerou a sua chegada.

Revista AG – Você fala da pecuária de precisão?

Guilherme Malafaia - Não gosto do termo “pecuária de precisão” porque considero restrito. Prefiro falar em uma pecuária competitiva, lucrativa, onde a gestão de dados e relacionamentos é extremamente fundamental. Os insumos, por exemplo, trarão componentes digitais aderentes as necessidades de sistemas produtivos cada vez mais inteligentes, autônomos e mensuráveis em cada detalhe (smart farming). Teremos a gestão por metro quadrado da propriedade rural, possuindo o conhecimento preciso de toda a produtividade da área utilizada no processo, teremos a gestão por gramas produzidas de carne em cada animal. Nossas unidades de medidas se transformarão, dando a dimensão da complexidade e da exigência do negócio pecuário do futuro. E isso, em muitos casos já ocorre, não é algo tão futurista assim.

Revista AG – Como será o relacionamento entre os elos da cadeia produtiva da carne?

Guilherme Malafaia - A transformação digital muda substancialmente a forma de você se relacionar na hora comprar insumo, dialogar com a assistência técnica, planejar suas escalas de abate, acompanhar os abates de forma virtual, obter os rendimentos de carcaça em tempo real, etc. Tudo isso através de um smartphone. Os canais de comunicação tendem a se transformar. Você poderá fazer a gestão dos seus sistemas produtivos e tirar suas dúvidas técnicas pelo smartphone, que vai estar lhe auxiliando o que fazer. Enfim, a relação do produtor com os outros segmentos vai ser dar muito em função dessas lógicas.

Revista AG – O estudo aponta que 50% dos criadores vão abandonar a pecuária em duas décadas. Como e por que vocês chegaram a essa conclusão?

Guilherme Malafaia – Para o Brasil manter sua posição de liderança no cenário mundial – e mesmo para ampliá-la –, alguns desafios serão enfrentados por toda a cadeia de produção da carne. Uma questão proveniente desse movimento, que é natural, é o êxodo rural. Nos últimos 20 anos, 1,5 milhão de produtores, segundo o IBGE, saíram da atividade. O êxodo se manterá, aliado a migração de muitos pecuaristas para o ramo agrícola em função de ciclos curtos e giros mais rápidos de capital. Estes fatores, aliados aos novos desafios de intensificação dos sistema produtivos, exigências ambientais, bem-estar animal, rastreabilidade, entre outros, acabarão inviabilizando a permanência de muitos produtores que hoje não conseguem responder a simples pergunta: quanto custa a arroba produzida no meu sistema pecuário?

Revista AG – Haveria alguma alternativa para evitar a debandada prevista?

Guilherme Malafaia – Existe um caminho para isso sim: gestão! Controle total do sistema produtivo! Mas também só isso não basta. É preciso a gestão para fora da porteira também. O trabalho colaborativo, organizado em associações de produtores, cooperativas, enfim, tudo que possa fortalecer e ajudar o produtor a buscar condições necessárias para sua manutenção na atividade de forma sustentável. Eu não posso afirmar categoricamente que 50% dos criadores vão simplesmente sumir do mercado. Estamos falando em cenários, tendências, isso não é uma ciência exata. As técnicas de cenários preveem um grau de incerteza com fatores que podem mudar todo o curso daquilo que foi desenhado.

Revista AG – Como este mapeamento de cenários pode servir de alerta dentro das porteiras?

Guilherme Malafaia - Pode ser um despertar para novas possibilidades. Se a gente ficar pensando na cadeia de produção tradicional, estará fora do negócio rápido mesmo. O mercado será cada vez mais exigente, em termos de qualidade, certificações, rastreabilidade de ponta a ponta, cuidados ambientais, bem-estar animal, etc. O sistema produtivo deverá trazer um pacote de atributos que reflita essas exigências. Por outro lado, abre uma grande oportunidade para exploração de nichos de mercado de alto valor agregado, como a valorização da produção regional através das denominações de origem, ainda muito pouco explorado no Brasil. Em síntese, pode-se explorar muitas oportunidades na pecuária de corte, mas com outra mentalidade. Mas em linhas gerais, acredito numa produção pecuária no Brasil mais tecnificada, mais intensificada, de ciclo mais curto, com maior padronização de carcaças e fluxo contínuo de produção para atender mercados de maior valor agregado.

Revista AG - O pecuarista de pequeno porte, então, será primeiro a ter que se reinventar?

Guilherme Malafaia – Principalmente! A pecuária será cada vez mais tecnificada, mais intensificada, de ciclo mais curto, com maior padronização de carcaças e fluxo contínuo de produção para atender mercados de maior valor agregado. O pequeno pecuarista, pela sua capacidade produtiva, enfrentará sérios problemas. Precisa então buscar nichos de mercado, de preferência organizado em rede, onde possa atuar de forma competitiva. Cada um deve entender e buscar suas vantagens comparativas.

Revista AG – Como as projeções preveem a relação entre sustentabilidade e rentabilidade pecuária?

Guilherme Malafaia - O conceito da sustentabilidade prega um equilíbrio dos aspectos ambientais, econômicos e sociais. Mas o que percebemos é o uso equivocado do conceito, como sinônimo de desequilíbrio do fator ambiental. Se meu sistema produtivo é sustentável, significa que a parte econômica, ambiental e social estão em harmonia. Os fatores ambientais e econômicos não são antagônicos e sim complementares. É possível empreender em toda a cadeia produtiva respeitando o meio ambiente e obtendo resultados econômicos compensadores. Entretanto, o produtor deve analisar com cuidado as chamadas “soluções tecnológicas sustentáveis” disponíveis no mercado. É necessário avaliar com extremo cuidado se “cabem no bolso” e o tempo de retorno delas ao negócio.

Revista AG – Então, em duas décadas, o criador precisará não só fazer o dever de casa, mas mostrar que o fez?

Guilherme Malafaia – Será necessário cada vez mais ter indicadores de sustentabilidade dos sistemas produtivos que reflitam de forma transparente aquilo que o mercado e os investidores desejam conhecer para decidir investir ou não em um determinado setor. O sistema produtivo precisa gerar esses dados e ser avaliado por isso. O tema é de extrema relevância e se tornou, inclusive, um projeto de pesquisa propondo aqui na Embrapa Gado de Corte. Propusemos criar um modelo de indicadores para trabalhar a sustentabilidade na pecuária de corte.

Revista AG - Este projeto já começou a ser desenvolvido?

Guilherme Malafaia – O projeto está em fase de avaliação na Embrapa. Mas já foi construído e, agora, estamos atrás dos recursos para colocá-lo em prática. Os resultados servirão para o produtor saber em qual nível de sustentabilidade seu negócio está e no que precisa investir para que seu sistema seja sustentável. Poderá ser útil para ingressar em algum programa de incentivo. Os índices também servirão também para o Brasil se posicionar sobre o tema no mercado internacional e para saber os pontos que ainda precisam de melhorias.

Revista AG – Uma das megatendências aponta para “menos pasto mais carne”. Isso quer dizer um aumento do rebanho confinado no Brasil?

Guilherme Malafaia - Não necessariamente do rebanho confinado, mas da intensificação dos processos, de uma pecuária menos extensiva, que aumentará a capacidade de lotação e trabalhará com ciclo curto, que produzirá mais carne em menos área. Temos de adequar nosso sistema às exigências do mercado, intensificando nossos processos para termos animais mais jovens saindo mais rapidamente do sistema, com padronização de carcaças e gerando uma carne de melhor qualidade para atender mercados mais exigentes. Para ter este animal, teremos que investir em nutrição, em qualidade forrageira, em melhoramento genético, em saúde animal, em gestão, etc.

Revista AG – Quando vocês falam em biotecnologia, falam do gene Slick?

Guilherme Malafaia – Falamos da biotecnologia vegetal e animal, da edição gênica, da clonagem, dos bioinsumos para eliminar ou controlar doenças, por exemplo. A biotecnologia genética tende a dar um salto muito grande nos próximos anos. A tendência é esta, de melhoria de qualidade, de resistência do animal, buscando um melhor desempenho deste animal e, consequentemente, aumento da produtividade, redução do custo e aumento do lucro.

Revista AG – Como será a aproximação do produtor com o consumidor?

Guilherme Malafaia – O digital vai aproximar muito o consumidor do produtor, aflorando as exigências de qualidade, sustentabilidade, sanidade, rastreabilidade, etc. Isso passará pela tendência de desenvolvimento cadeias produtivas mais curtas, aproximando o produto final da criação dos animais. O consumidor exigirá mais informações sobre os processos produtivos e obterá isso via integração digital com o produtor através de marketpalces, embalagens inteligentes, entre outras tecnologias.

Revista AG – O pecuarista terá de ser um comunicador sobre o produto final originado a partir dos seus animais?

Guilherme Malafaia - A responsabilidade não é só dele. A cadeia como um todo tem que ser emissora de informação em todas as etapas do processo até chegar ao consumidor. E como chegar nesse ponto? Hoje mal se consegue implantar a rastreabilidade na fazenda. E o problema não é somente rastrear o sistema produtivo, e depois da desossa, como se faz a rastreabilidade? Uma grande tendência para os próximos 20 anos é o uso de embalagens inteligentes contendo identificador para cada peça. E nisso temos muito que avançar. A captura de valor tem que ir até o final. Então, se eu estou trabalhando uma carne diferenciada, tenho que ter uma embalagem diferenciada. Se eu tenho dois consumidores, eu não posso entregar produtos diferentes com a mesma embalagem, com mesmo nível de informação e detalhamento.

Revista AG – Este estudo já foi lançado oficialmente? Quando estará disponível aos pecuaristas em detalhes?

Guilherme Malafaia - Para não perder o timming em função da pandemia, acabamos divulgando apenas as dez megatendências do estudo com o intuito de monitorar os efeitos da mesma sobre o estudo. Nosso entendimento era de que precisávamos lançar o relatório no momento mais adequado possível, mas não poderíamos deixar de fornecer à cadeia produtiva da carne bovina informações tão valiosas num momento tão crítico. Achamos o denominador comum, colocamos a nossa síntese geral do estudo no mercado para ser testada e receber às criticas e agora estamos entregando o estudo completo, com toda a sua riqueza metodológica, com dados e informações inéditas sobre cada elo da cadeia produtiva, seus cenários, suas tendências e , logicamente, as megatendências já amplamente divulgadas. Este estudo é fruto de uma parceria exitosa entre Embrapa e MAPA que trará grandes contribuições à organização e planejamento do setor. O lançamento deste relatório ocorrerá num dos principais eventos da pecuária de corte neste ano, a XV Jornada Nespro que ocorrerá em Esteio nos dias 01 e 02 de outubro no Parque de Exposição Assis Brasil. Um evento inteiramente digital. Iremos participar de um painel intitulado “Cenários da Pecuária do Futuro”, onde será feito o lançamento oficial do relatório e disponibilizado para a sociedade.