Bem-Estar

REAÇÃO em cadeia

Manejo durante protocolo de IATF impacta sobre índice de prenhez, interfere no desempenho da futura progênie e pode atrasar concepção subsequente

Bruno Cappellozza 1 e Reinaldo Cooke2

A recente valorização do bezerro coloca uma “pressão positiva” no criador. À medida que seu negócio torna-se mais eficiente e produtivo, sua operação se rentabiliza economicamente. Entretanto, é importante pensar que, para tal melhoria, o esforço primordial deve ser focado na fêmea (vaca ou novilha), pois é ela quem fornecerá esse produto, o (a) bezerro (a), com valor agregado. Por isso, os cuidados com as matrizes, hoje, é obrigatório para a melhoria dos parâmetros reprodutivos e, consequentemente, do sistema de cria como um todo.

Dentre esses cuidados, destacam-se os relacionados à genética e ao manejo para melhorar a função reprodutiva do rebanho durante a estação de monta (EM), especialmente os relacionados à inseminação artificial em tempo fixo (IATF), como redução de estresse, sanidade e nutrição.

Afinal, antecipando as prenhezes do rebanho, o criador conseguirá, também, o mesmo avanço na realização dos partos e do desmame, que resultará em bezerros mais pesados e com maior resultado para a operação de cria.

Dentro do sistema de cria, a EM representa um dos momentos mais críticos, pois determinará a quantidade de animais disponíveis para desmama no ano seguinte. Nesse processo, as estratégias nutricionais e de manejo exercem um papel fundamental, já que otimizam os resultados positivos durante a IATF e na EM como um todo. Especificamente para atender protocolos reprodutivos de IATF, pode-se planejar uma suplementação para melhorar a eficiência biológica das receptoras. Também é preciso minimizar o estresse do manejo e manter um escore de condição corporal (ECC) bom ao parto e no início da EM.

Estresse e temperamento

De maneira geral, o estresse pode ser classificado como qualquer situação que tire o animal de sua zona de conforto. No caso dos bovinos de corte, resulta dos diferentes tipos de manejo em cada fase do ciclo produtivo e da condução da lida diária na fazenda. Dentre essas situações, pode- -se destacar a desmama, o transporte entre fazendas, o deslocamento para frigorífico, a entrada em confinamento, restrições alimentares e hídricas. O manejo frequente do rebanho durante a IATF é um dos fatores que pode gerar estresse aos animais, seja por conta de um novo ambiente (curral de manejo), seja por conta dos colaboradores ou dos barulhos durante a realização dos procedimentos. Por isso, é imprescindível a utilização de técnicas e tecnologias que resultem em um menor estresse do rebanho, visando otimizar sua função reprodutiva.

O estresse interage intimamente com o temperamento, classificado como “resposta ao manuseio por humanos” (Fordyce et al., 1988). Em outras palavras, se qualquer manejo da atividade pecuária ocorrer de maneira racional e com uma boa interação do homem com os animais, os mesmos tenderão a responder de maneira menos reativa do que em situações oposta. Por isso, os exemplares classificados como temperamentais, geralmente, são os mais incomodados durante procedimentos de manejo, especialmente durante a IATF.

Mais especificamente na função reprodutiva, Cooke et al. (2018) reportaram que novilhas Nelore classificadas como reativas apresentaram maiores concentrações de cortisol (hormônio do estresse) e, um consequente atraso no alcance à puberdade. Entre as vacas Nelore, as reativas apresentaram taxa de prenhez 21,2% menor na IATF e seus bezerros, um decréscimo de 6 quilos a desmama e de 16 kg na relação de desmamados/vaca na monta natural. São resultados que demonstram os efeitos negativos do temperamento reativo e subsequente estresse não são somente no desempenho reprodutivo das fêmeas, mas também nas suas progênies.

Nesse sentido, a utilização da substância apaziguadora bovina (SAB), a mesma produzida pelas fêmeas no momento do parto, pode ser benéfica. Sua administração em momentos de estresse melhora a saúde e reduz a reatividade durante procedimentos de manejo, como os da IATF, para ganho de peso e qualidade da carcaça, tais como desmama e transporte para o frigorífico.

Suplementação estratégica

Diversos dados da literatura demonstram que fêmeas com melhor ECC no parto (de 1 a 5, sendo 1 muito magra e 5 muito obesa) apresentam melhores desempenhos reprodutivos na EM subsequente, tanto novilhas, como primíparas, secundíparas ou multíparas. Entretanto, a manutenção desse escore entre a parição e o início da próxima EM também vem ganhando atenção, pois pode determinar o sucesso da atividade de cria.

Em um recente trabalho conduzido por Carvalho (2017) foi demonstrado que vacas, independentemente da categoria, com ECC ≥ 3,0 ao parto, apresentaram maior taxa de prenhez à IATF do que as de ECC ≤ 2,75. As primíparas e secundíparas que pariram com ECC ≥ 3,0 e mantiveram até a EM seguinte apresentaram maiores taxas de concepção na IATF do que as que pariram com ECC ≥ 3,0 e o perderam entre a parição e o início da EM. Portanto, o atual objetivo do setor de cria deve ser parir uma vaca com um ECC de pelo menos 3,0 e garantir que ela entre na próxima EM com o mesmo ECC do parto.

Para tal objetivo ser alcançado, antes de tudo e qualquer coisa, o criador deve buscar entender a fundo o que oferece de alimento ao gado com relação a suas necessidades nutricionais (ex.: disponibilidade e teor nutricional das forrageiras). Somente com essas informações, será capaz de saber se atende a pleno as necessidades nutricionais do rebanho e conseguirá identificar a existência de alguma lacuna nesse processo.

Partindo da premissa que os animais parirão com um ECC = 3,0 e o conservarão até a EM, pode-se, então, adotar ajustes nutricionais para otimizar sua função reprodutiva como a suplementação com ácidos graxos essenciais (AGE), compostos não produzidos pelo organismo do animal. Os AGE são extremamente importantes para composição das membranas celulares e dos sistemas imune e reprodutivo. Diversos estudos demonstram que a administração de 100g/cabeça/dia de AGE protegidos da degradação ruminal (sais cálcicos de ácidos graxos de óleo de soja; SCAG), do início do protocolo de IATF até o diagnóstico de gestação, resulta em aumentos expressivos nas taxas de prenhez do rebanho (Tabela 1).

Entretanto, o teor energético dos suplementos (Controle e SCAG) era diferente, já que a inclusão de SCAG resulta em um aumento no teor energético do mesmo. Por isso, estudos subsequentes forneceram suplementos com o mesmo teor energético através da inclusão de uma fonte de ácidos graxos saturados (AGS; SCAG de óleo de palma), sendo o diferencial apenas o perfil de AG dos suplementos (saturado na palma vs. poli-insaturados no SCAG de óleo de soja). Nesses estudos, a melhoria no desempenho reprodutivo com a suplementação de SCAG de óleo de soja se manteve, demonstrando atuação benéfica do AG poli- insaturado para o desempenho reprodutivo do rebanho (Tabela 2).

Portanto, a suplementação com SCAG de óleo de soja durante o protocolo de IATF é uma estratégia para otimizar as taxas de prenhez do rebanho. Além disso, beneficia a distribuição de partos do rebanho, já que as fêmeas que confirmarem prenhez no início da EM irão desmamar bezerros mais pesados e rentabilizar o negócio.

1Gerente Pesquisa & Desenvolvimento – Nutricorp 2 Professor Associado de Bovinocultura de Corte – Texas A&M University