Na Varanda

“Carne forte?” O MERCADO VAI REGULAR

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

Como europeu tradicional, não gosto muito de hambúrguer, pois é coisa de americano! O que eu gosto é de carne de verdade, ou seja, carne de boi, de preferência de novilho precoce. Mas este hábito está ficando um pouco caro! Considerando que o brasileiro consome em torno de 40 quilos de carne bovina por ano, é quase 1 kg por semana ou algo em torno de 150 gramas por dia. Excluindo dessa estatística as crianças pré-carnívoras, a meia dúzia de veganos (desertores) e uns mais vividos com dificuldade de mastigar (pós-carnívoros), não é exagero dizer que o brasileiro adulto e saudável come, diariamente, um bife de tamanho médio. Na verdade, além disso, ele come, na mesma quantidade, ainda as duas outras carnes.

Para olharmos mais de perto e com maior rigor estatístico, temos o seguinte: em 2019, comemos 46,4% de carne de frango mais 38,8% de carne bovina e mais 14,8% carne de suíno. O total resulta em exatos 100 kg de carnes por pessoa. Isso repete o que encontramos nos mercados dos Estados Unidos (EUA) e na Europa. Até na China o consumo cresceu de 13 kg per capita, em 1982, para 70 kg em 2019, sendo a carne bovina apenas 6 kg desse total. Ou seja, há um enorme potencial de crescimento. No entanto, temos de avaliar a tendência do aumento contínuo do preço que poderíamos chamar de “carne forte” (para contrastar com nossas reflexões sobre os efeitos da “carne fraca”). Conforme os especialistas, temos, hoje, uma arroba com a melhor remuneração real dos últimos 25 anos. Ainda não atingimos os níveis dos anos 70, quando o boi era produto precioso. Todavia, temos que considerar o patamar e a provável evolução do preço da carne na gôndola em relação a duas tendências: primeiro, parece que, pelo ciclo do boi em andamento, não haverá redução do valor da arroba tão cedo. Por outro lado, temos a economia e a renda da população estagnando por uma série de motivos.

Por se tratar de um produto de luxo com alta elasticidade de renda, e existindo outras formas de atender o apetite por proteínas animais (mesmo não tão nobre), o brasileiro, durante algum tempo, vai reduzir sua despesa no açougue. Temos visto um aumento sobreproporcional da exportação da carne bovina, mas, ainda assim, esse mercado não representa mais do que 30% do destino da nossa bovinocultura.

Tudo isso, o amigo leitor já sabe. Onde está a novidade? Ela vem do Vale do Silício (que não tem pasto, mas é o cérebro mundial da inovação tecnológica). Estou falando da carne artificial com suas duas grandes vertentes: a transformação de matérias-primas vegetais e a produção de bife com base de químicos que produzem carne suculenta com 18 tipos de ingredientes, ou seja, customizada para qualquer gosto.

Se os grandes frigoríficos que cresceram com aves, bois e suínos estão incluindo em sua oferta carnes vegetais (com preço abaixo de 20,00/kg), algo sério está surgindo no radar dos costumes alimentares do mundo. E, se faltar mais um argumento, podemos avaliar o impacto do investimento de mais de R$ 50 milhões de grandes personalidades (Bill Gates) ou empresas (Google) na chamada carne artificial.

Já em 2008, avisei, em congressos internacionais, sobre a perspectiva da invasão de carne que nunca teria visto um pasto. Parecia futurismo, no entanto, já está entre nós. No mês passado, acompanhei amigos em uma hamburgueria e pedi um desses sanduiches de carne artificial. Já que não gosto de hambúrguer, tanto faz a matéria-prima que origina a peça. Como esperado, não achei muita graça. Porém, aproveitei e obriguei meus amigos a provarem meu pedido. Eles concordaram que não era tão gostoso como o deles, mas...Aí perguntei: se vocês nunca tivessem experimentado um hambúrguer de verdade, poderiam concordar que é possível comer esse produto de plástico? Afirmaram que sim. Ou seja, considerando que os chineses consomem apenas 6 kg de carne bovina por pessoa, e que 80% da população provavelmente nunca viu uma delicia dessas em seus pratos, eles não iam gostar de comprar um hamburger artificial (por um preço bem mais acessível)?

Com essa dúvida, podemos voltar à questão inicial. Se a renda, em quase todos os países, está baixando ou indo de lado, e, se o preço da carne bovina (e o das outras carnes também) aumenta sem parar, o que as pessoas vão fazer? Primeiro, migrar para frango e suíno, e, depois, experimentar a carne de outras origens. E, para concluir o cenário, se muitos de nós compramos máquinas com capsulas de café expresso, e, se, em breve, poderemos adquirir impressoras 3D de carne (que também podem produzir outros alimentos), como isso vai impactar no médio e longo prazo em nosso negócio da carne bovina natural?

Vejo duas perspectivas. Primeiro, mesmo com o crescimento de outras opções, a população e a renda mundial voltarão a crescer no futuro, assim como a demanda por produtos de luxo como a carne bovina. Já que outros países não possuem reservas de pasto e de tecnificação da produção bovina, o crescimento da demanda será atendido pelo Brasil. Assim, o aumento previsível da exportação pode compensar a provável redução do consumo interno.

Juntando todos esses pensamentos, podemos resumir: já que passamos por uma fase bem confortável em termos de preços, convém aplicar os ganhos do fluxo de caixa em investimentos produtivos na modernização da nossa forma de criar e engordar os animais. Assim, seremos mais bem equipados quando a situação voltar a um patamar normal, tanto no que diz respeito ao equilíbrio entre demanda e oferta de carne quanto à taxa de reposição do rebanho.