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Alimentação ESTRATÉGICA

Cultivar MG18 Áries 2 leva resistência das regiões tropicais para o Sul do Brasil, mas pede solo fértil, manejo adequado e planejamento, como explica o técnico do departamento de Pastagens da Matsuda Alberto Takashi

Revista AG – A cultivar Áries 2 foi pensada para a região Sul do Brasil por quê?

Alberto Takashi – Porque percebemos que o grande problema no Sul não é o frio. No frio, tem aveia, azevém, trevo, cornichão, uma infinidade de pasto temperado. O problema tem sido o calor e a falta de chuva. Muitas áreas do Sul, em agosto, não têm mais azevém. Na primavera e no verão, ocorrem entre 40 e 50 dias de seca. Como uma planta temperada vai sobreviver a isso? Já por esse motivo o ciclo do azevém está ficando mais curto. Então a forrageira que tolera esse estresse de altas temperaturas e de falta de água não é a temperada, mas a tropical.

Revista AG – Qual a relação do Áries com o Áries 2?

Takashi – Em 2003, fizemos o lançamento do híbrido Áries, que apresentava uma digestibilidade fantástica em clima tropical (62%, enquanto a média era de 50%). Por coincidência, um cliente do Rio Grande do Sul pediu para experimentá-lo. A cultivar se adaptou muito bem à região dele, onde também iniciamos os experimentos do Áries 2. Em 2018, venceu a patente do Áries, e a Matsuda o retirou do mercado. Agora, lançamos o MG18 Áries 2, resultado do cruzamento do material sexual do Panincum com o do Áries, do qual herdou as principais características. A diferença é que o Áries 2, visualmente, é mais baixinho, tem um crescimento mais deitado e chega a 65 cm. O Áries chega tem um crescimento mais ereto e chega a 1,10 m de altura.

Revista AG – Como a altura interfere na eficiência do Áries 2?

Takashi – Quanto menor a planta forrageira, mais próximos estão seus nós. Assim como num pé de milho, a folha sai do nó, e não do pé. E a melhor qualidade nutricional do pasto está justamente na folha. Em 50 cm de altura, há muito mais nós no Áries 2 do que no Áries, que tem um crescimento maior. Se tem mais nós, maior será a qualidade das folhas. O Áries 2 chegou a 66% de digestibilidade e 15% de proteína bruta, que são os diferenciais desse capim de porte mais baixo, mais prostrado e mais deitado.

Revista AG – Quais são as condições necessárias para o cultivo e para o uso do Áries 2?

Takashi – O Áries 2 é um pasto especial, nobre, de excelente qualidade e muito exigente em fertilidade do solo. Você vai ter que corrigi-lo e adubá-lo antes de plantar essa cultivar. Então você não vai pegar uma Ferrari dessas para colocar em uma estrada de chão. Você precisa destinar esse pasto para uma categoria importante da sua propriedade, para os animais mais nobres, para os que estão em terminação, para as vacas de leite em produção, para um reprodutor que chega de um período de exposição. Não é um pasto para você ficar batendo. E, como investiu em seu cultivo, deve destiná-lo aos animais com alguma prioridade.

Revista AG – Em quanto tempo o Áries 2 está pronto para pastejo?

Takashi – Em condições adequadas de luz, temperatura e umidade, a semente do Áries começa a germinar entre 15 e 20 dias após o plantio. Depois, entre 70 e 80 dias, a área estará pronta para receber o primeiro pastejo. Entre plantar e ela emitir a semente, são aproximadamente quatro meses. Então o ciclo da planta é de 120 e 140 dias.

Revista AG – Como deve ser o manejo do pasto originalmente tropical em região de clima temperado?

Takashi – O pastejo pode iniciar quando as plantas alcançarem entre 50 cm e 60 cm, mas deve ser interrompido quando estiverem com 30 cm para que sua estrutura de rebrote (gemas e meristemas) seja preservada e o novo consumo possa ocorrer em 25 dias. É preciso atentar, também, para que as folhas não cresçam demais a ponto de fazerem sombra umas nas outras, pois, sem luz, elas não realizam a fotossíntese e morrem. Quando as de cima sombreiam as de baixo, está na hora de colocar os animais.

Revista AG – Como o Áries 2 se encaixa numa região em que a pecuária, histórica e culturalmente, prioriza o campo nativo?

Takashi – Numa propriedade, não se deve ter só um tipo de pasto. É preciso ter o nativo e, também, forrageiras adaptadas. Quanto maior a variabilidade de pastagem, menor a chance de errar. O Áries 2 chega como uma das opções necessárias para garantir o alimento do gado o ano todo. Você tem o campo nativo, mas também tem o Áries, a aveia, o azevém, o milheto, e por aí vai. Quando o clima ajuda, está tudo bem. Mas e quando não está? Quando o clima está ruim é que a gente percebe o valor do que está usando.