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O desafio da saúde única

Cadeia produtiva precisa fazer lição de casa e estar comprometida a criar animais saudáveis e essenciais para um suprimento alimentar seguro

Fernanda Macitelli1

Nos últimos meses, a pandemia causada pela Covid-19 trouxe inúmeras reflexões e discussões nos mais diversos setores mundiais; entretanto, uma preocupação comum a todos é a segurança alimentar. O assunto é antigo, mas, agora, tem sido apresentado sob diferentes perspectivas por pesquisadores e profissionais da área da saúde humana e animal, como também por instituições e organizações que, até mesmo, se posicionam contra a produção e o consumo de animais. Ele amplia ainda mais a responsabilidade de toda a cadeia produtiva.

E os profissionais da pecuária? Como têm se posicionado frente a afirmações como: “Esses sistemas de ‘pecuária industrial’ que negam aos animais uma vida digna de ser vivida também ameaçam a saúde das pessoas que trabalham em fazendas e matadouros, das que consomem produtos de origem animal e até de quem não consome”. Ou ainda: “Acredita-se que mais de 60% dos quase 1,5 mil patógenos humanos conhecidos – agentes biológicos que causam doenças – tenham se originado em animais, com três quartos das doenças infecciosas emergentes também provenientes de animais”. E mais: “Administra-se antibióticos para os animais em um esforço para mantê-los vivos apenas o tempo suficiente para serem lucrativos”. Todas essas afirmações foram retiradas de textos de importantes websites internacionais e publicadas nos últimos meses.

Afirmações como essas chateiam e ofendem a cadeia produtiva, e reconhecemos que existem distorções em várias argumentações, mas até que ponto as questões apresentadas anteriormente estão longe de ser realidade em alguns projetos? O que temos feito pela segurança alimentar? Como a pecuária contribui para uma nova imagem? Dentro da porteira é possível ampliar - e muito -, as boas práticas para a melhor saúde animal e, consequentemente, das pessoas e do planeta. Ações sanitárias e outras que contemplem o bem-estar dos animais impactam nessa realidade e atendem à demanda do novo consumidor, pois, cada vez mais, o urbano exige alimentos praticamente sem riscos pelo menor preço. Para ele, a segurança dos alimentos deve ser tratada desde a fazenda, bem como durante o processamento.

Portanto, é fundamental que os tomadores de decisões compreendam a relação entre saúde animal e humana e segurança alimentar, que é uma associação complexa e que requer avaliação cuidadosa de muitas variáveis. Para que a pecuária continue forte, crescente e lucrativa, é importante repensar a forma com que os animais são tratados, afinal, a relação existente entre o homem e os animais é milenar, mas nossas ações não precisam ser.

Realidades que enfrentamos

Nas últimas décadas, a criação de animais nos trouxe surtos de BSE, conhecida por vaca louca; febre aftosa, raiva, gripe aviária, gripe suína, campylobacter, salmonela e muitas outras doenças devastadoras. A ponto de a FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura) alertar que a produção animal é importante para apoiar os meios de subsistência de criadores, comerciantes e trabalhadores em todo o mundo. E lembrar que as doenças que afetam os animais podem ter um impacto devastador na produtividade do setor; no comércio de animais vivos, carne e outros produtos animais; na saúde humana; e, consequentemente, no processo geral de desenvolvimento econômico. O guardião principal, mais uma vez, está dentro da porteira.

Será que medidas extremas – como a de não consumir mais alimentos de origem animal, tão presente e crucial para o desenvolvimento da humanidade – resolveriam o problema? Ou será que, quando ignoramos o fato de os animais serem capazes de ter sentimentos e responder a eles e ao ambiente, nós os tornamos vulneráveis a doenças? Os cientistas alertam que a proteção das gerações futuras depende de uma postura definitivamente sustentável de como tratamos os animais e o planeta. Para isso, o primeiro fato que cabe uma reflexão é sobre a forma com que alguns sistemas de produção e/ou manejos são conduzidos sem considerar as necessidades dos animais. Um exemplo prático pode ser a maior intensificação da produção, reduzindo o espaço disponível por animal.

Sabe-se, cientificamente, que o espaço é um importante recurso aos animais e que a maior densidade causa estresse e, consequentemente, pode reduzir o desempenho, aumentar a frequência de comportamentos sociais negativos – como brigas –, piorar a saúde devido à queda de imunidade, aumentar casos de morbidade e mortalidade, e causar danos no ambiente, devido ao maior acúmulo de dejetos e à formação de lama ou até mesmo maior concentração de poeira.

O maior uso de antibióticos e outros medicamentos nesses animais para evitar que adoeçam devido ao ambiente que nós mesmos estamos proporcionando pode ter efeito na saúde dos consumidores. Já o maior acúmulo de dejetos e lama ou poeira traz riscos de disseminação de patógenos no ambiente, além de ser mais problemas, com os quais o produtor tem que gastar para resolvê-los.

A boa notícia é que existem casos de produtores que realmente estão fazendo bem feito e, com isso, alcançam bons resultados produtivos, além de serem reconhecidos pelo consumidor. A ciência está ao nosso lado, provando constantemente que as fazendas não são ambientes estéreis e que as iniciativas para reduzir os riscos à saúde devem ser práticas, economicamente viáveis e flexíveis, dependendo da escala da empresa, das espécies cultivadas e da epidemiologia dos agentes nocivos na região geográfica específica.

Modificações culturais

Preocupar-se com a biossegurança desde a fazenda inclui algumas modificações culturais na nossa forma de trabalhar com os animais, na capacitação das pessoas envolvidas nos processos, nas permissões de visitantes no ambiente de produção e no maior conhecimento quanto às necessidades dos animais e do ambiente. Tais mudanças afetam a saúde animal e humana, como também, positivamente, a produtividade, a lucratividade e a qualidade dos alimentos.

Se o foco recente é o conceito de “Uma Saúde”, no qual a premissa é de que animais saudáveis são essenciais para um suprimento seguro de alimentos, é preciso que todos os elos da cadeia produtiva trabalhem de forma comprometida para sua garantia. Faça a lição de casa sem abrir precedentes!

Programas e iniciativas

Existem iniciativas de grupos de produtores e/ou empresas, apoiados ou não pelos governos em vários países, comprometidos em mostrar ao mercado consumidor que é possível produzir de forma lucrativa e que assegure a saúde dos animais e das pessoas. Por exemplo, em 2011, nos EUA, foi lançado um programa para incentivar o consumo de alimentos produzidos localmente chamado de “Conheça o seu Produtor, Conheça o Seu Alimento”.

Já na União Europeia, reduziu-se severamente o uso de antibióticos preventivos de doenças na produção de alimentos para animais e começou a legislar como os animais devem ser alojados (por exemplo, a proibição de gaiolas para gestação para porcos). No Brasil, vários grupos de pesquisas, como o Grupo Etco da Unesp de Jaboticabal, vêm desenvolvendo estudos validados em condições brasileiras para garantir não só o bem-estar dos animais, mas a sustentabilidade da pecuária, foco também que o GTPS (Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável) e outros programas ou empresas vêm abordando de maneira empenhada.

1 Zootecnista e pecuarista, mestre em nutrição de ruminantes e doutora em comportamento e bem-estar animal, professora na UFMT Sinop, pesquisadora do Grupo ETco e integrante do GTPS


Escolhas precisas CUSTAM MENOS

Giana Hirose 2

As práticas de vacinação e vermifugação são rotinas básicas de saúde animal na fazenda. Por esse motivo, a equipe não deve negligenciar sua atualização. A precisão e a certeza de que os processos são bem feitos são cada vez mais necessárias. Sem os equipamentos apropriados, corre-se o risco de uma subdosagem e de falha na expectativa do protocolo que está sendo trabalhado, o que pode interferir em uma resposta imunológica ou reprodutiva. Por outro lado, com a superdosagem, há risco de se criar uma resistência ao medicamento, impacto ambiental e desperdício de recursos.

Portanto a palavra de ordem é precisão. A turma precisa deixar de usar uma única seringa para todas as aplicações de vacinas, vermifugações, complexos vitamínicos, antibióticos e hormônios IATF, e por aí vai. É preciso lembrar que cada medicamento tem dosagem e densidade diferentes de acordo com o veículo utilizado no produto.

Isso ficou ainda mais evidente, por exemplo, para os pecuaristas em geral, após a mudança do volume da dose de vacina de febre aftosa de 5 ml para 2 ml. Antes, um equipamento com defeito ou refluxo, que gerasse uma perda de 0,5 ml, impactava em 10% da dose. Agora, ao usar o equipamento com problema, a perda vai representar um quarto da dose. Por isso, o pecuarista precisa estar muito atento aos processos e aos produtos disponíveis.

Apesar de estar acostumado com a vacinadora de 50 ml, nesse caso, ele tem disponível, ainda, equipamentos com capacidade de 30 ml, 25 ml e outros de 5 ml e 2 ml com fluxo contínuo, ou seja, com frasco acoplado diretamente na seringa ou com o frasco ligado a ela por uma mangueira, o que é muito usado em suínos. Mas por qual motivo deveria mudar o equipamento? Pela precisão e eficiência.

Principalmente nessa com a mangueira, há a melhor conservação do produto, já que o frasco pode ficar na caixa e é mantido refrigerado por maior tempo. Em regiões muito quentes, isso é essencial. Além disso, a vacinadora tem conquistado os vaqueiros pela agilidade de aplicação e percepção na mão de que “a missão foi cumprida”, já que, diferentemente da vacinadora de 50 ml, perdem a percepção do gatilho, pois ele ficou mais curto. E vem a dúvida: será que a dose foi completa? Com a mudança no tipo de equipamento, evita-se o problema. Isso vale tanto para a vacinação quanto para a vermifugação.

Nos protocolos para IATF, muitos usam seringas descartáveis de 1 ml, 3 ml e 5 ml; porém há também equipamentos muito precisos de excelente qualidade, usados para a vacinação de aves e peixes, para doses pequenas e que podem ser alternativa na utilização de hormônios nos protocolos. Com a busca incessante pela redução do ciclo pecuário, mais uma vez, a palavra de ordem é a precisão.

Por fim, além da escolha da seringa adequada, é necessário que o produtor tenha reparos e equipamentos de reserva. Principalmente na época na qual o manejo é mais intenso, não há como parar uma vacinação para buscar um reparo na cidade. Essas são emergências que atrapalham todo o processo.

Atenção às boas práticas

Diante disso, cada produtor deve analisar suas prioridades de gestão, realidade de clima e das instalações e treinamento da equipe. O pecuarista eficiente já tem a certeza de que precisa do equipamento certo para cada atividade e tirou da cabeça que se usa a mesma seringa para tudo.

Feita a escolha, para se ter bons resultados, também é preciso investir na capacitação constante da equipe. Antes de qualquer manejo, é importante repassar as etapas em uma reunião no próprio curral e explicar a finalidade de cada uma delas.

Atualmente, fala-se da importância de que as aplicações sejam feitas no tronco de contenção, para certeza da aplicação e também segurança da equipe. Essa é uma regra que cada vez mais avança pelas fazendas, demanda conscientização constante de todos. Mesmo em grandes rebanhos, quando se fala em sanidade, a atenção individual é essencial para o melhor resultado.

Outro ponto importante é a conscientização para separar e organizar todo material antes de iniciar os procedimentos, trocar de agulha a cada 10 animais, independentemente da seringa que irá utilizar.

Após o manejo, todos os equipamentos devem ser higienizados e desinfectados, principalmente as seringas e as agulhas, pois, quando sujas, são ótimos veículos de contaminação e formação de abcessos nos animais. Já existem fazendas que, ao fim do dia, passam todo o material em autoclave para realmente evitar qualquer contaminação.

Com todas essas medidas simples e positivas, o resultado é bom para o produtor e para a cadeia como um todo, pois há a garantia sanitária e produtiva, assim o produtor terá um bom ganho de peso da carcaça (gado de corte) e melhor qualidade e produtividade de leite (gado de leite). Esteja atento aos processos e às ferramentas ideais para cada etapa.

Médica-veterinária e gerente nacional de Vendas da Agrozootec


Saúde preventiva é aliada da GENÉTICA

Flávia Tonin

Com a Marca Nelore JNT, José Josias Neto seleciona Nelore PO, com sede em Porto Feliz/SP e rebanho reconhecido pelo mercado. Um exemplo é o touro Calibre, recordista de preço da Expozebu de 2019, por R$ R$ 1,6 milhão, que era de sua propriedade em parceria com a Agropecuária Camparino. Com um produto de alto valor agregado nas mãos, a atenção à sanidade é vital, diz ele. “Nossa preocupação é o ganho genético, porém, sem a saúde preventiva, não conseguimos avançar no melhoramento e, consequentemente, na lucratividade”, reconhece.

Para que isso seja possível, ele afirma que é preciso estar atualizado sobre as tecnologias e os protocolos, como também investir em uma equipe qualificada. “Dessa forma, mesmo em manejos consagrados, conseguimos buscar novas formas e produtos para acelerar os resultados do rebanho”.

Nos protocolos de saúde da JNT, anualmente, são feitas as vacinações obrigatórias, de febre aftosa e programa de brucelose. Também há prevenção contra a raiva, clostridioses e doenças reprodutivas, informa o médico-veterinário responsável Rodrigo Ferraz, da FTV. “Optamos por um manejo preventivo estratégico, muito racional e com atenção às necessidades do indivíduo, para que não haja excessos”, explica, referindo-se também às práticas de vermifugação. A opção é por fazer aplicações mínimas em todo o rebanho e, se necessário, repete o protocolo nos lotes específicos.

Todo o manejo é feito com o animal contido no tronco. “Dessa forma, temos melhor qualidade da aplicação e segurança”, diz Ferraz. Além disso, o responsável pelo gado, José Ronaldo Gaudino, faz a ronda diária para observar os animais. “Se percebemos que um animal diminuiu o apetite ou está mais triste, já buscamos a orientação do veterinário”, explica, salientando sobre a importância das ações tomadas com antecedência, ainda mais em um rebanho de seleção genética apurada e focado.