Leite

Corrida contra o tempo

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Novos padrões para a avaliação de eficiência de colostragem requerem manejo focado em quantidade, qualidade e rapidez de ação

Rafael Azevedo1 e Sandra Gesteira2

Composto por uma mistura de secreções lácteas e constituintes do soro sanguíneo, o colostro é excretado pelas glândulas mamárias da vaca logo após o parto, e cumpre importante papel no desenvolvimento do bezerro, executando, além da função imunológica, a função nutricional e de regulação da temperatura corporal do animal. O fornecimento do colostro nas primeiras horas de vida é o principal exemplo de transferência de imunidade passiva aos recém-nascidos. Nesta fase, os bovinos não possuem sistema imune maturo e são incapazes de produzir anticorpos hábeis para os desafios do novo ambiente, dependendo 100% do consumo do colostro para a obtenção de anticorpos.

A colostragem correta resultará em menores taxas de mortalidade e morbidade, além de favorecer o desenvolvimento e desempenho durante toda a vida do animal. A falha na transferência de imunidade passiva é um dos fatores de risco mais relevantes para a mortalidade (Tabela 1), morbidade e baixo desempenho em bezerras, representando perdas econômicas relevantes na pecuária de leite.

Diversos fatores, como o tempo de secagem, estresse térmico, nutrição e histórico de vacinações podem influenciar na produção do colostro pela matriz. Muitas fazendas enfrentam desafios quanto à colostragem dos seus animais, os quais apresentam grande variação quanto à qualidade e/ou em quantidade, impactando na transferência de imunidade passiva ao bezerro.

Avaliação da transferência de imunidade passiva

O padrão ouro para avaliação da concentração de imunoglobulinas no soro das bezerras e consequentemente, a transferência de imunidade passiva, é a imunodifusão radial. Porém, essa análise não é possível de ser realizada na fazenda devido a complexidade de execução, tempo para obtenção de resultados e custo. Uma ferramenta simples para avaliar de forma indireta a eficiência de colostragem das bezerras é por meio do uso dos refratômetros, Brix ou de proteína total (g/dL).

Para realizar a avaliação da eficiência de colostragem utilizando refratômetros, basta coletar uma amostra de sangue do animal entre 24 horas após a colostragem até 7 dias de idade, em tubo para coleta de sangue (a vácuo - sem anti-coagulante). Em seguida, a partir da obtenção do soro sanguíneo e calibração do equipamento, deve-se avaliar a amostra no refratômetro. É importante não coletar de animais com diarreia ou desidratatos.

O padrão ouro de criação de bezerras da Dairy Calf & Heifer Association (Gold Standard, 2016) indica que, na avaliação da transferência de imunidade passiva, com o uso de refratômetro de proteína sérica total, os animais devem atingir, no mínimo, entre 5,2 g/dL a 5,5 g/dL (Tabela 2). Quando é utilizado o refratômetro Brix, o ponto de corte normalmente recomendado na literatura está entre 8% a 8,5% de Brix.

Novos valores de ponto de corte

Os parâmetros atuais para estabelecimento do sucesso na transferência de imunidade passiva se baseiam em ponto de corte de 5,5 g/dL. Valores abaixo desse parâmetro indicam bezerras mal colostradas e, acima, bem colostradas. Porém, esse ponto de corte único falha em reconhecer que concentrações crescentes de IgG ou proteína sérica total estão associadas à redução do risco de morbidade e à melhora do desempenho da bezerra. Trabalhos mostraram que bezerras com proteína sérica total maiores ou iguais a 5,7 g/dl apresentaram taxas mais baixas de doença respiratória. Com base nesses e em outros estudos, especialistas em bezerros dos Estados Unidos e do Canadá propuseram novos padrões para a avaliação de eficiência de colostragem individual e do rebanho.

O novo padrão proposto estabelece metas mais altas de ponto de corte, sendo baseado na associação de menor morbidade com valores mais altos de IgG, pois o risco de mortalidade está associado a valores séricos de IgG menores que 10 g/L. O padrão proposto inclui 4 categorias: excelente, bom, aceitável e ruim. Essas categorias podem ser aplicadas individualmente ou para o rebanho, com base na porcentagem de bezerras que devem ser representadas em cada categoria (Tabela 3). Como a concentração sérica de IgG não é comumente medida, concentrações equivalentes de proteína total e de Brix séricos foram determinadas para as quatro categorias.

Como alcançar os novos valores de eficiência de colostragem propostos?

Para alcançar os novos valores propostos, é preciso ter foco no manejo de colostragem da fazenda, buscando sempre fornecer um colostro de excelente qualidade, na quantidade correta e o mais rápido possível após o nascimento das bezerras.

Um método prático de avaliação da qualidade imunológica do colostro no campo é pela utilização de refratômetro do tipo Brix, pois esse equipamento opera independente da temperatura do colostro fresco, diferente do colostrômetro. A porcentagem de Brix presente no colostro é correlacionada com a concentração de imunoglobulinas do colostro. A escala anteriormente proposta era:

1 – Boa qualidade: ≥ 22% de BrIx 2 – Média qualidade: 18 – 21% BrIx 3 – Baixa qualidade: < 18% BrIx

No entanto, com os novos valores estabelecidos (Tabela 3), esse ponto de corte também deverá ser alterado. Ao avaliar os dados do Programa Alta Cria (2019), para obtenção de excelente colostragem (IgG >25 g/l; >6,2 g/dl; brix >9,4%), o novo ponto de corte para o colostro deverá estar acima de 24% de Brix (Figura 1).

No entanto, nem sempre as fazendas têm a todo tempo colostro com brix > 24% e uma estratégia para aumentar os valores de brix no colostro, além das medidas de manejo para redução de todo tipo de estresse no final da gestação e nutrição adequada, é melhorar a qualidade do colostro fornecido. Para isso pode ser utilizado o adensamento do colostro fresco ou descongelado com os substitutos de colostro baseados em colostro 100% natural. Como podemos observar na Figura 1, com o fornecimento de maiores valores de Brix via colostro, a média do Brix séricos das bezerras também aumenta.

Para se obter transferência passiva bem-sucedida dentro das novas metas propostas, será necessário que o produtor fique atento a quatro importantes pontos de manejo:

Tempo para o fornecimento: deve ser inferior a 1 hora após o nascimento;

Qualidade do colostro: provavelmente, deverá ser fornecido colostro com no mínimo ≥ 24% brix;

Quantidade ingerida: 10 a 12% do peso corporal ao nascimento; e

Qualidade sanitária do colostro: < 50.000 unidades formadoras de colônia por mL em contagem de placa padrão e < 5.000 unidades formadoras de colônia para coliformes fecais.

1 Alta Genetics 2 Professora Universidade Federal de Minas Gerais