Na Varanda

Um olhar para além da pós-pandemia

Francisco Vila é economista e consultor internacional [email protected]

A sabedoria secular ensina que planejamento estratégico se deve fazer em situações sem estresse. Tais momentos providenciam a tranquilidade necessária para poder focar em prioridades em vez de responder a urgências. No noticiário, temos acompanhado o fechamento do comércio, o cancelamento de voos, a transformação de congressos e feiras em eventos on-line, além de imagens de longas filas de desempregados à espera de programas emergenciais do governo. Parentes e amigos nossos que moram nos centros urbanos relataram de vizinhos internados em hospitais. E até nossos filhos tiveram que trocar as aulas presenciais nas escolas pelo ensino a distância. Somos testemunhas do surgimento de um novo mundo desconhecido e estamos em busca do caminho para um “novo normal” pós-pandemia.

Porém nós, assim como nossos colegas da agricultura ou da produção de hortaliças, fomos relativamente pouco afetados pelos impactos negativos da Covid-19. Antes pelo contrário. O agro ganhou uma nova e positiva visibilidade na percepção da população. Após compras – quase histéricas – dos consumidores para estocar comida nos primeiros dias da pandemia, as prateleiras dos supermercados voltaram ao normal. Isso serviu para evidenciar que as cadeias do abastecimento funcionam mesmo em momentos de estresse. Nem os problemas com os restaurantes nas estradas reduziram o fluxo de alimentos entre o campo e a cidade. Outro aspecto positivo foi o nível de preços. Em situações similares, como nos períodos de pós-guerra ou após desastres naturais, os preços se multiplicaram em poucos dias, empurrando a inflação para patamares insuportáveis.

A diminuição da demanda por restaurantes e pelo food service encolheu, mas pouco reduziu o consumo geral de alimentos. Dessa forma, foi possível colher e escoar as safras, e conquistar novos recordes na exportação de grãos e carnes. No nosso caso, do boi, receamos que a alta extraordinária da arroba no período antes do Natal não seria mantida. Porém a combinação da atual fase do ciclo bovino com o aumento da demanda internacional em função de doenças como a peste suína ou a gripe aviária turbinaram as compras dos principais importadores das três carnes. E, se faltasse mais um fator positivo, o câmbio viu o dólar atingir valores em torno de até R$ 6,00. Com essa constelação mercadológica, a pequena redução do consumo de famílias brasileiras foi mais que compensada.

Fazendo um balanço geral, podemos constatar: os últimos meses foram muito positivos. As perspectivas para o horizonte médio continuam promissoras. Dispomos, assim, de uma boa reserva de fluxo de caixa, uma base sólida para contrair financiamentos, seja para o custeio – permitindo a ampliação do rebanho –, seja para investimentos na estrutura da fazenda, em máquinas e novos equipamentos para a gestão com drones e aplicativos.

Mas, olhando bem, podemos enxergar algumas nuvens no horizonte. O Brasil se tornou um dos principais fornecedores de alimentos para o mundo. Outros países – como Austrália, Estados Unidos e membros da União Europeia – têm enfrentado desafios de várias naturezas, como problemas climáticos, impactos da pandemia nas colheitas (por falta de trabalhadores migrantes) ou na industrialização (nomeadamente nos frigoríficos) além de aumentos incomuns da taxa de desemprego. Assim, não é de se estranhar que o mundo olhe de uma forma mais crítica para esse novo concorrente do Hemisfério Sul. Artigos em jornais e revistas não necessariamente refletem o sentimento dos consumidores. No entanto, devem ser levados em consideração na definição de políticas públicas e na construção de novos modelos de negócio em nosso setor.

Em paralelo a essa nova realidade, temos que olhar também para os nossos atuais e futuros vizinhos. Explico o porquê. O consumo interno, e ainda mais a demanda de exportação, cresceram constantemente ao longo dos últimos ciclos bovinos. Isso atrai novos players ao setor. O cálculo desses investidores, nacionais ou estrangeiros, é o seguinte: a demanda mundial por carne cresce em torno de 3% ao ano. O Brasil possui 180 mi de hectares de pasto (a maioria subaproveitada) e cerca de 220 mi de cabeças de gado. Isso dá uma lotação de 1,2 cab/ha com uma média de produção de 5 a [email protected]/ha/ano. Ou seja, a produtividade da bovinocultura continua bem baixa na média. Com aplicação de apenas uma parte da oferta de novas tecnologias e implementando processos de gestão um pouco mais sofisticados, chegaremos, facilmente, a 2 UA/ha. Quem duvida pode ver nos artigos da especialidade relatos de muitas fazendas que operam com mais de cinco animais por hectare, produzindo acima de 15 @/ ha/ano.

Isso significa o quê? O negócio do boi voltou a ser bem atrativo. Empresários do ramo e outros de fora aplicarão soluções inovadoras (inclusive irrigação) e aumentarão a oferta de animais além do crescimento da demanda. É evidente o efeito de pressão sobre os preços da arroba. Para os pecuaristas mais competentes, isso não é problema, pois, com processos modernos e gestão apoiada por aplicativos, eles manterão suas margens. Chegou o momento para avaliar “se”, “como”, “quando” e “com quem” devemos reformular nosso modelo de negócio para continuar na cabeceira do setor. Haverá, sim, o perigo de oferta excessiva de animais acima da tendência do crescimento anual de 3% se chegarmos à média de 1,5 cab/ha. Essa simulação conservadora revela que, com o aumento de 20% na lotação ao longo dos próximos cinco anos e o crescimento da demanda de 15% em cinco anos, teríamos um desequilíbrio de 5% entre oferta e demanda. Se os americanos, em 2019, produziram 12,7 mi de toneladas de carne bovina com um plantel de 94 mi de animais e o Brasil, com 220 mi de bois, produziu 10,2 mi de toneladas, temos uma perspectiva clara sobre o potencial de intensificação da produção de carne em nosso País. Esse será o nosso desafio a médio prazo.