Cria

Lições e aprendizados VIRTUAIS

Cria

Tamara E. de Oliveira, Anna Gatelli, Anna I. C. P. Suñe, Daniele Zago, Joana G. Kuhn, Luis F. Brum, Maria C. Muniz, Sigrid Paiva, Vanessa Lima e Júlio Barcellos1

A comercialização da produção, nos sistemas de cria, é um dos momentos mais importantes para o ciclo da atividade e, geralmente, coincide com o período da desmama, quando pecuaristas vendem seus bezerros a recriadores e terminadores. Essa venda ocorre por diversos meios, mas, no Sul do Brasil, é efetivada, majoritariamente, nas conhecidas feiras de bezerros (“feiras de terneiros”) ou em leilões. Esse mercado, fundamental para o setor há mais de 40 anos, estabeleceu normas e padrões de conformidade (idade, sexo, peso, itens de identificação). O resultado foi uma especialização Lições e aprendizados virtuAis Tamara E. de Oliveira, Anna Gatelli, Anna I. C. P. Suñe, Daniele Zago, Joana G. Kuhn, Luis F. Brum, Maria C. Muniz, Sigrid Paiva, Vanessa Lima e Júlio Barcellos1 da cria e um mercado consolidado para a categoria “bezerros”, normalmente, em duas épocas do ano – outono (bezerros de primavera) e primavera (bezerros de outono). Assim, as feiras de bezerros sempre foram as balizadoras do “padrão” do bezerro e dos preços.

Até a última temporada, o mercado e os canais de comercialização de bezerros eram balizados por negócios presenciais, realizados em Sindicatos Rurais, em parques de exposições ou em locais de remates. Contudo, por conta do distanciamento social, essa modalidade se tornou inviável, e novos canais de divulgação e de negócios fortaleceram o ambiente virtual. Possibilidades de compra e venda que já aconteciam por telefone, pela televisão e mesmo pela internet ganharam o reforço de transmissões em tempo real por redes sociais, em plataformas especializadas ou aplicativos. Constituíram-se, juntos, em um desafio aos pecuaristas, mas também abriram novas oportunidades a quem ainda vendia exclusivamente nas feiras e nos remates.

Nesse sentido, fomos a campo, virtualmente, desde o início da safra de bezerros, em meados de abril, para monitorar a comercialização dos leilões virtuais ou semipresenciais (mínimo de público). O objetivo foi avaliar o comportamento dos preços e, principalmente, entender o processo de compra e venda quanto à descrição dos produtos, às imagens fornecidas, às plataformas de transmissão utilizadas, à liquidez, à precificação, e, obviamente, às características determinantes no preço final. Ou seja, conhecer o comportamento de vendedores e compradores nessa nova modalidade de negociação, avaliar resultados e traçar as primeiras impressões sobre o processo, conforme detalha a Figura 1.

Comportamento dos preços

A análise direta do comportamento dos preços demonstrou que o bezerro ainda está pouco valorizado em relação ao preço do boi gordo, com uma retração quanto ao que os pecuaristas esperavam. O cenário é compreensível, pois o RS enfrentava uma das suas piores secas, dificultando a recria da categoria. Mas também pode ter alguma relação com o sistema de comercialização com menor concorrência presencial e possível pressão sobre o preço de compra. Quando chegaram as chuvas no início de maio, houve uma melhora em 7% no preço comparado com o mês de abril. A incerteza do futuro atrapalhou um pouco, mas as boas perspectivas para o boi gordo mudaram o cenário, favorecendo-o para as bezerras destinadas à reposição de matrizes. Destaca-se também que, praticamente, 45% dos bezerros comercializados estavam inteiros, configurando radical mudança de manejo, pois, até então, eram vendidos castrados. O fato é explicado pelas expectativas de exportar animais inteiros vivos, mercado muito ativo no RS.

1 Equipe NESPro/UFRGS